
"Ir buscar a manta e deitar a minha mãe no chão não foi encenado. Não fizemos de propósito para denunciar uma situação"
João Gaspar, filho da doente oncológica terminal, que esperou no chão das Urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra por uma maca, garante que nunca esperou que um desabafo, através de “carta aberta” que fez, na sua página no Facebook, sobre o episódio que passou com a sua mãe tivesse «tamanha repercussão», mas não se arrepende da publicação, porque denuncia, «de forma ponderada e não a quente», uma situação que, na sua opinião, tem de ser mudada.
Em conversa com o Diário de Coimbra, e já depois da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra ter desmentido o seu relato, João Gaspar garante que foi a falta de macas na Urgência dos HUC que levou a sua tia, que o acompanhava, a ir ao carro buscar uma manta e deitar a sua mãe no chão, «numa tentativa de a aliviar das dores» que sentia.
«A minha mãe entrou na Urgência a gritar de dores. Ela atirava-se para o chão e pedia para a deitarem, porque não aguentava estar sentada», conta, confirmando que lhe foi dada indicação, como avança a ULS de Coimbra, para procurar uma cadeira de rodas onde a sua mãe pudesse aguardar para ser atendida e garantindo que lhe foi dito que não havia macas para aquela doente se deitar, apesar da explicação de que a mesma, «com um cancro generalizado na zona abdominal», não aguentava muito tempo sentada, devido às dores.
Ouvir, perante os gritos da minha mãe, que teríamos de esperar como os outros, ou perante as palavras da minha mãe de que estava “muito mal” que “todos também estão”, é muito revoltante
«Ir buscar a manta e deitar a minha mãe no chão não foi nada encenado. Não fizemos de propósito para denunciar uma situação. Foi uma reação à falta de resposta e ao desespero da minha mãe», diz João Gaspar, admitindo que «a espera não foi de muitos minutos, foi tudo muito rápido», mas tempo suficiente para o obrigar a agir, perante alegados comentários de profissionais de saúde presentes que, na sua opinião, não tiveram muita sensibilidade.
«Ouvir, perante os gritos da minha mãe, que teríamos de esperar como os outros, ou perante as palavras da minha mãe de que estava “muito mal” que “todos também estão”, é muito revoltante», desabafa João Gaspar, adiantando que a decisão da sua tia, de deitar a sobrinha no chão e de avisar que ia fotografar foi uma reação a uma «frieza ou falta de sensibilidade» demonstrada por profissionais que «todos esperamos que estejam lá para nos acolher» numa situação que é muito difícil. Aliás, «lamentavelmente», depois deste aviso, houve uma resposta célere para a doente que, antes, de acordo com o que conta o filho, teria de esperar «como os outros».
Convém dizer que a chegada às Urgências dos HUC foi feita em carro particular, com a mãe de João Gaspar deitada no banco de trás, porque o 112 não tinha ambulância para fazer o transporte e que antes, apesar das tentativas, este filho não tinha conseguido contactar a linha SNS24 para que pudesse fazer uma triagem e encaminhamento da mãe para o hospital.
Texto publicado com conhecimento e autorização da mãe
«Estava bastante nervoso», confirma ao Diário de Coimbra, adiantando que ainda teve o cuidado de, a caminho da Urgência, ligar para o hospital, a avisar que transportava num carro particular uma doente em estado muito grave, na expectativa de que pudesse ser outra a receção. «Nada disso aconteceu. Antes pelo contrário. Não percebo como é que ainda têm de ser os familiares a procurar uma cadeira de rodas ou a providenciar se há macas para os doentes...», desabafa.
Foi com este objetivo que João Gaspar escreveu a carta aberta que, agora, é partilhada em todo o país. O mesmo deixa claro ainda, que tanto o texto, como a foto que o acompanha, foram publicados no seu Facebook com conhecimento e autorização da sua mãe, também ela consciente de que merecia outro acompanhamento numa fase tão difícil da sua vida.












