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Doente oncológica no chão da Urgência à espera de assistência

Filho da utente “desabafou” nas redes sociais, dando conta de um episódio que aconteceu nos Hospitais da Universidade de Coimbra. ULS vai abrir processo de averiguações

A juntar às situações de «pessoas que morrem em Portugal à espera de ambulância», registadas na última semana em diferentes pontos do país, em Coimbra assistiu-se a uma situação lamentável, com «uma doente oncológica em fase terminal deitada no chão de um hospital». O desabado foi hoje feito pelo filho, na rede social facebook, e os factos aconteceram na quinta-feira, no serviço de Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

«A minha mãe foi tratada como se fosse apenas mais um corpo à espera», conta o filho, que refere as «dores insuportáveis» da progenitora, que padece de «cancro generalizado na zona abdominal», «faz quimioterapia», «vive com dores constantes», tem «uma bolsa de urina e saco para fezes» e «não consegue andar sozinha nem permanecer sentada por muito tempo».
Quinta-feira, perante as «dores insuportáveis», o filho ligou para a Saúde 24. «Ninguém atendeu», lamenta. Do 112 obteve uma primeira promessa de envio de uma ambulância, para 20 minutos depois receber a notícia de que teria que esperar «por tempo indeterminado».

 

"Sem maca e sem alternativa, deitámos a minha mãe no chão, sobre uma manta trazida por nós"

«Sem alternativa» perante a agonia da mãe, decidiu dirigir-se à Urgência, com a mãe deitada no banco de trás da viatura, «porque não conseguia sentar-se». Ali começou uma nova saga. «Não havia macas disponíveis», diz, face ao que lhe foi sugerido o recurso a uma cadeira de rodas, que a doente «não aguentava». A solução passou, com a ajuda de um familiar, por transportar a mãe, que «gritava com dores», para «dentro do hospital», com uma «sala cheia de profissionais», onde «ninguém tinha uma solução». «Ouvi dizer que li “todos estavam mal”, como se a dor fosse igual, como se o sofrimento fosse indiferenciado», lamenta.

«Sem maca e sem alternativa, deitámos a minha mãe no chão, sobre uma manta trazida por nós. No chão de um hospital, em 2026», escreve, lamentando as críticasà decisão, «não para ajudar, mas para apontar o dedo». Todavia, a situação acabou por trazer consigo a almejada resposta, pois quando se «aperceberam que aquela imagem estava a ser registada», «alguém começou a agir» e «tudo aconteceu como devia ter acontecido desde o início», adianta. Significa que a doente recebeu morfina, soro e foi submetida a exames, o que leva o filho a concluir que «os meios existem», «o que faltou foi humanidade».

«Vivemos momento em que a falta de organização empurra famílias para decisões impossíveis e transforma hospitais em locais de sobrevivência emocional», lamenta o filho, sublinhando que a missiva que escreveu «não é contra os profissionais de saúde», mas sim «contra um sistema que permite que uma doente oncológica terminal fique no chão». «Ontem foi a minha mãe. Amanhã pode ser qualquer um de nós», alerta.

Doente No Chão Dos Huc

ULS abre processo de averiguações

O Diário de Coimbra pediu esclarecimentos à Unidade Local de Saúde (ULS) Coimbra, que garante que «será aberto um processo de averiguações, com o objetivo de apurar, com rigor e serenidade, todas as circunstâncias associadas ao caso». Um processo que, esclarece em comunicado divulgado hoje à tarde, «será acompanhado de forma próxima pelo Serviço de Humanização e pelo Provedor do Utente», assegurando que todas as partes envolvidas serão ouvidas, o mesmo acontecendo relativamente à «análise dos procedimentos adotados», no sentido de garantir a «formulação de propostas de melhoria». «Todas as situações reportadas são tratadas com seriedade, transparência e responsabilidade», assegura.

A ULS faz notar que o Serviço de Urgência dos HUC «é o maior do país» em volume de episódios e diferenciação de cuidados prestados. Serviço assegurado por «equipas excecionais de profissionais de saúde» que mesmo em «contexto de contingência têm assegurado resultados de referência a nível nacional, incluindo os tempos de acesso à observação médica».

A ULS reforça o seu compromisso com a humanização dos cuidados de saúde, particularmente no que se refere aos doentes oncológicos e anuncia que este ano vai avançar a consulta Aberta no Hospital de Dia de Oncologia, «destinada a reforçar o acompanhamento clínico e a resposta às necessidades destes doentes, evitando o recurso aos serviços de Urgência». Simultaneamente, será reforçado «o apoio dos cuidados paliativos no domicílio», adianta.

Janeiro 10, 2026 . 16:38

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