
Presidente assume liderança assente na exigência e rigor com compreensão e solidariedade
Quais são as suas prioridades para estes primeiros 100 dias como presidente do Politécnico de Coimbra a começar já hoje?
As minhas prioridades para os primeiros 100 dias da instituição são, naturalmente, conhecer com rigor aquilo que a instituição tem como assuntos pendentes. Sei, pelas abordagens que já tive com o presidente e com a equipa cessante, que temos assuntos que requerem urgência e que carecem de decisões rápidas, nomeadamente aquilo que diz respeito à execução do PRR. Como bem sabe, muito recentemente, foi simbolicamente colocada a primeira pedra da nova Residência Universitária no Campus da Escola Agrária. Vamos começar uma obra que tem de estar executada em junho de 2026. Portanto, requer--se uma atenção redobrada, já para não falar da residência em Oliveira do Hospital que está em construção e que deveria estar concluída e pronta para que os alunos a pudessem ocupar este setembro. Portanto, estes meus primeiros 100 dias darão prioridade às execuções pendentes do PRR, mas naturalmente não posso descurar os assuntos pendentes do ponto de vista da investigação, os quais, para mim, constituem claramente uma linha estratégica e prioritária sobre a qual vou ter de me debruçar seriamente. Obviamente, não posso deixar para trás aquilo que é a nossa missão principal, o ensino.
Qual é, para si, o principal desafio de uma instituição com esta dimensão?
É formarmos estudantes tecnicamente irrepreensíveis e obviamente cidadãos com características humanas reconhecidas.
Falava ainda agora da investigação, como é que ela se enquadra nesta nova fase do Politécnico?
Nós temos um instituto de investigação aplicada na nossa instituição e o meu propósito é de alguma forma reorganizar esse instituto e dar-lhe uma nova missão.
Porquê?
Porque, na minha modesta opinião, o Politécnico precisa de definir uma estratégia para a investigação. E nessa perspectiva eu vejo um instituto de investigação aplicada como uma unidade que vai gerir Ciência. Por gerir Ciência entende-se gerir as unidades de investigação, portanto gerir os investigadores, e gerir uma escola doutoral. Aquilo que era a atividade principal alocada até agora ao I2A, que em bom rigor se tratava de um gabinete de projetos, vai passar a ser um departamento de gestão de projetos mais alargado, onde irá ser contemplada não só a execução dos projetos, nesta linha de financiamento dos projetos de I&D+i, mas ainda outras linhas de financiamento como é o caso, por exemplo, do PRR e projetos decorrentes da internacionalização. Portanto, de alguma forma, o I2A dedicar-se-á à gestão de Ciência.
Com que objetivo?
Para promovermos e incentivarmos uma investigação mais consubstanciada e mais sólida dentro das nossas unidades orgânicas.
Relativamente às unidades orgânicas, mais concretamente às seis escolas do IPC, entende que funcionam em parceria? Sentem-se da mesma “casa”?
Na investigação, como ainda agora falávamos, cada vez mais a complementaridade e a multidisciplinariedade são fatores e variáveis determinantes para o sucesso de uma candidatura e para a execução dessa candidatura. Quer queiramos quer não. Fruto destas circunstâncias, as unidades orgânicas vão estar unidas para um mesmo fim, para uma mesma candidatura e uma execução de um mesmo projeto, porque cada vez mais estes projetos têm este carisma multidisciplinar envolvendo diferentes áreas do saber. As unidades orgânicas só têm a ganhar quando se partilha conhecimento e este conhecimento pode ser partilhado de duas formas. Quer seja pela parte da investigação, quer seja pela oferta formativa. Hoje começamos a ter cursos cada vez mais transversais, portanto com ofertas formativas que englobam várias áreas do saber. E nessa perspectiva, as unidades orgânicas começam a trabalhar entre elas porque partilham ofertas formativas e porque partilham projetos de investigação. Portanto, a evolução da nossa instituição vai provar isso mesmo. É inevitável, quer na investigação, quer no ensino, que comuniquemos cada vez mais e partilhemos cada vez mais.
Mas sente que esse espírito já existe?
Eu acho que este espírito já existe e existirá cada vez mais com o devido apoio. Porque é para isso que servem os serviços centrais, é para agilizar essas pontes, é para facilitar essas pontes. Portanto, nós nos serviços centrais seremos elementos facilitadores dessa comunicação, dessa execução, encontrando parcerias que respondam às necessidades de determinado projeto ou de determinada oferta formativa.
Como encara o papel dos politécnicos no Ensino Superior, um tema que está, por estes dias, em cima da mesa com diferentes designações?
Universidades e Institutos Politécnicos têm uma génese diferente. Todavia, ambos são necessários na sociedade onde se inserem. Temos formas diferentes de ensinar, temos formas diferentes de formar, mas nem somos melhores, nem somos piores. Somos diferentes na forma como transmitimos o conhecimento. Damos um cariz mais prático a essa oferta formativa, portanto, há espaço para os dois. Não tenhamos dúvidas que nos complementamos e prova disso é que muitas vezes os nossos estudantes vão fazer formação superior às universidades e vice-versa. Hoje, com o conhecimento cada vez mais dual, aquilo que é expectável é que cada vez mais essa diferença entre uma formação de primeira instância numa Universidade ou num Politécnico seja cada vez mais ténue e cada vez mais as pessoas apostem naquilo que é a formação de qualidade e na formação customizada que pretendem ter para os seus currícula. Essa diferença vai-se atenuando, vai-se claramente tornando menos significativa.
"Universidades e Institutos Politécnicos têm uma génese diferente. Todavia, ambos são necessários na sociedade"
Falava há pouco precisamente das parcerias. Como é que pretende reforçar os laços do Politécnico com a cidade e com a região? Concorda com a estratégia que tem sido seguida de abrir alguns polos em alguns locais da nossa região?
É fundamental para uma instituição de Ensino Superior, seja ela qual for, ter essas parcerias. Nós trabalhamos para aquilo que são as necessidades da sociedade. De que forma? Formando profissionais, desde logo na partilha do conhecimento que geramos, através da investigação e da transferência de conhecimento. Portanto, é inevitável que nos viremos para a sociedade em que estamos inseridos, respondendo de forma célere às suas necessidades.
E sobre os polos que têm sido abertos em alguns locais?
Percebo a sua insistência. Eu estava à espera que na reunião que mantive com o senhor presidente do Politécnico de Coimbra e da documentação que me foi facultada na passagem dos dossiers, visse reportado esse tipo de informação. Era expectável que, ao ler um relatório, tivesse a percepção de que número de alunos é que estamos a falar, portanto que formação, que atividades, que docentes, custos e proveitos estão envolvidos. Sendo certo que determinadas situações não podem ser vistas de uma forma puramente economicista, embora tenhamos que perceber se algumas formações são estratégicas ou não. Obviamente, temos que ter em linha de conta quais são os custos destas formações, que custos têm para a instituição e quais são os proveitos que resultam dessa estratégia. Se me pergunta se eu tenho informação relativamente a isto, não tenho. Portanto, neste momento não sei responder com precisão. Devia, por exemplo, poder dizer que acordos temos, com que instituições, autarquias e outras entidades da região.
Posso depreender, pelas suas palavras, que a passagem de dossiers não está a correr tão bem como queria?
Pode depreender que somos pessoas diferentes e fazemos coisas de forma diferente. Eu estou habituada a relatórios objetivos e detalhados, também por via da prática da investigação. Nós não submetemos um plano de pagamento sem demonstrarmos aquilo que fizemos. Ninguém nos faz um pagamento numa execução de um projeto sem mostrarmos objetivamente aquilo que fizemos ou deixámos de fazer, tendo justificação para isso.
Está nos seus planos rever a organização interna da instituição, a estrutura das unidades orgânicas?
Sim, está na minha perspectiva reorganizar os serviços centrais do IPC. As unidades orgânicas não. Têm autonomia própria, como sabe. Portanto, agora eu preciso de organizar os departamentos, os serviços e os gabinetes que estão nos serviços centrais, porque em bom rigor, na minha opinião, e digo isto de uma forma muito humilde, precisamos de ter uma estrutura hierárquica dentro de determinados serviços. Porque, se assim não for, não sabemos quem é que presta contas a quem e podemos correr o risco até de não termos os recursos humanos alocados da forma mais eficiente. Portanto, podemos ter vários departamentos a fazer a mesma coisa, não sabendo uns dos outros. É necessário reestruturarmos a organização dos serviços centrais nesta perspectiva, otimizando os recursos humanos que temos disponíveis em termos de plano de ação para o quadriénio.

"Eu estou habituada a relatórios objetivos e detalhados, também por via da prática da investigação"
Que tipo de liderança pretende imprimir no Politécnico, sendo que no passado já foi vice-presidente?
Fui, e com pelouros algo complicados e muito controversos. Fui responsável pela acreditação institucional do ponto de vista da A3ES, pela certificação do sistema interno de garantia da qualidade de todo o IPC e fui também responsável pela alteração da plataforma académica. Como deve depreender, são processos que envolvem todas as unidades orgânicas, implicam a alteração de muitos estatutos, a alteração da forma de fazer as coisas e, portanto, foram claramente desafios que mexeram com o dia a dia de toda a gente dentro da instituição. Esses desafios permitiram-me ter um profundo conhecimento da instituição.
Mas perguntava-lhe qual o tipo de liderança que se pode esperar da Presidente Cândida Malça?
De uma forma muito curta, eu acho que podem esperar uma liderança assente numa exigência e rigor baseados em dois pilares fundamentais, a compreensão e a solidariedade. Como se diz, com uma mão de ferro e outra de veludo.
Se pudesse ter uma conversa de uma hora com uma figura viva ou histórica para ajudar a preparar este mandato, com quem seria?
Com o Papa Francisco. É uma referência para mim. Sou católica praticante e gostava de ter, na instituição, essa forma de gerir pessoas, que não é fácil.
Como é que vai estruturar a sua equipa?
Tenho, neste momento, três vice-presidências: a Doutora Ana Cristina Veloso vai ficar responsável pela pasta da investigação, da inovação e transferência de conhecimento; a Doutora Cristina Galhano vai ficar responsável pelos pelouros da Gestão dos Recursos Humanos, da Gestão da Qualidade, do Planeamento e da Auditoria; e a Doutora Sofia Silva, que terá a responsabilidade da Gestão Académica, Inovação Pedagógica, Internacionalização, Comunicação Institucional e Gestão das Infraestruturas Tecnológicas. A equipa será ainda constituída por quatro pró-presidentes: a Doutora Georgina Morais, com a pasta da Gestão do Planeamento, Qualidade e Auditoria, o Doutor Hélder Santos, responsável pela Promoção da Saúde e Bem-Estar, a Doutora Marta Lopes, responsável pela Gestão Ambiental, Sustentabilidade e Eficiência Energética e o Doutor Rui Costa, que ficará com a pasta da Internacionalização. Nas unidades orgânicas de investigação e de apoio à formação e ao desenvolvimento, teremos como diretora do Centro Cultural Penedo da Saudade a Doutora Fernanda Antunes, como diretor do INOPOL o Doutor Pedro Pina e a Doutora Carla Henriques e a Doutora Diana Lima como, respetivamente, diretora e subdiretora do Instituto de Investigação Aplicada (I2A). A equipa conta ainda com Jorge Moreira como Administrador do IPC e Ana Cristina Abreu como Chefe de Gabinete.
"Preciso de organizar os departamentos, os serviços e os gabinetes que estão nos serviços centrais"
Já que fala da internacionalização, que planos tem para atrair os alunos estrangeiros?
Eu entendo que temos de fazer uma aposta diferente na internacionalização. Eu acho que temos aqui uma Europa ao nosso lado que merece e deve ser explorada, não desprezando obviamente as ligações que foram feitas do outro lado do Atlântico, mas queremos apostar na Europa que, na minha perspectiva, tem sido pouco explorada. Acho que sim, acho que em termos de internacionalização devemos claramente apostar nos nossos países vizinhos, não só no ponto de vista de projetos de investigação, mas também na partilha de formação. Nós temos de o fazer e a minha perspetiva é explorar claramente esta parte da Europa, obviamente não desprezando aquilo que já foi feito, continuando a manter as boas relações que temos com países como o Brasil.
Como é que pensa envolver os alunos nesta construção do IPC que vai começar a liderar?
É premente desenvolver uma alteração nos conteúdos programáticos. É preciso, claramente, transmitir aos estudantes a importância das alterações à nossa oferta formativa para darmos respostas mais concretas àquilo que a sociedade espera de nós, portanto, aos profissionais que esperam de nós. E nessa perspetiva temos que contar com a ajuda dos estudantes para transmitir essa mesma necessidade aos professores. Internamente, temos que fazer o nosso trabalho, mas os estudantes podem de alguma forma ajudar-nos a acelerar o processo.
Isso faz-se como? Como é que se envolvem os alunos?
É muito simples. É trazer docentes e alunos para as reuniões que vamos ter com as entidades empregadoras, de forma a perceberem as reais necessidades do mercado de trabalho.

"Temos de ter a capacidade de voltar a ter estudantes dentro das nossas instituições"
Como é que classifica esta geração atual? Os que estão agora nos 20?
Eu tenho duas filhas nessas idades, com 21 e 17. E há um problema que é transversal, não é da nossa instituição, mas de todas as instituições. Haverá com certeza uma explicação sociológica que justifica o isolamento e falta de motivação dos estudantes para viverem mais plenamente a vida académica dentro das instituições, estudando e convivendo. Acho que isto representa uma perda significativa, que temos de recuperar. Temos de ter a capacidade de voltar a ter estudantes dentro das nossas instituições. Precisamos de ter vida nas nossas instituições, porque é para isso que elas servem. E a pandemia não ajudou nada. Portanto, temos claramente de fazer aqui um trabalho para voltarmos a trazer os estudantes até nós, até às nossas instituições. Repare, não é motivador para um professor quando sabe que tem 120 alunos inscritos e olha para uma plateia de 20 alunos. É gratificante quando temos uma plateia cheia à nossa frente, quando temos um comportamento irreverente, dentro daquilo que são patamares aceitáveis em ambiente de sala de aula... É isto que é vida dentro de uma sala de aula. E hoje isso está a perder-se. Esta geração tem-se tornado mais apática na perspetiva da comunicação. É preciso, a montante ainda do Ensino Superior, voltar a trabalhar as capacidades comunicacionais dos nossos estudantes. Esta necessidade de estabelecer uma conversa entre os pares e entre os alunos e docentes. Hoje vemos os estudantes muito sozinhos, muito apáticos, concentrados no telemóvel. Somos pessoas, não somos máquinas. E enquanto pessoas, temos necessidade de comunicar, de experienciar sentimentos, de partilhar fraquezas e momentos de sucesso. Para mim isto é muitíssimo importante. Portanto, uma instituição plena deve formar pessoas tecnicamente competentes, mas, e sobretudo, seres humanos solidários e felizes. Quando forem para o mercado de trabalho, vão transmitir esta carga positiva junto de quem vão trabalhar. E isso é meio caminho andado para resolver muitos problemas e ter sucesso. Isto é, claramente, um aspeto que considero muito importante.
Para terminar, agora que falámos nos alunos, que mensagem deixa aos docentes e aos não-docentes da instituição?
Conto com eles. Estamos a falar de uma comunidade alargada que merece naturalmente o meu carinho, merece naturalmente a minha compreensão. Esta é, claramente, uma instituição de pessoas e para pessoas.












