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Confraria do Vinho de Lamas: Um brinde à identidade

Um “terroir” de excelência só podia resultar num néctar inspirador e de qualidade superior. A freguesia de Lamas é o território onde “nasce” este vinho de características únicas e a Confraria a sua fiel guardiã.

“Fruto da videira e do trabalho do homem” o vinho define o perfil da freguesia de Lamas, no concelho de Miranda do Corvo. Encostas soalheiras e terrenos calcários e argilosos criaram um “terroir” de excelência de onde brota um néctar “divino”. Uma tradição ancestral, cuja origem se perde na memória do tempo e que hoje continua a fazer “estória”. A Confraria do Vinho de Lamas surge precisamente com o objetivo de ancorar essa herança, com uma “garrafeira” recheada de vinhos frescos, elegantes, bem apaladados e encorpados.

Foram os próprios produtores, habituados ao cheiro da terra e conhecedores dos segredos do mosto que se empenharam na criação da Confraria do Vinho de Lamas. O objetivo, ontem como hoje, foi encontrar uma “bandeira” que «ajudasse a promover este vinho de características únicas», afirma o vice-chanceler.

Carlos Mendes, também ele produtor, entende que os néctares de Lamas são efetivamente «muito característicos», precisamente por «beneficiarem de um “terroir” muito próprio», onde a aliança do calcário e da argila resultam em pleno. «Permitem que as videiras se desenvolvam de uma determinada forma, conseguindo aguentar a água mais tempo, o que permite um vinho mais encorpado e apaladado». Indissociável das características dos solos está, naturalmente, o clima e particularmente «as encostas soalheiras» onde se encontram a grande maioria das vinhas.

Uma conjugação perfeita da qual resulta «esta singularidade», que assume um significado particularmente relevante tendo em conta que Lamas, este pequeno “terroir” que integra a Sub-Região de Sicó, está rodeada de «gigantes», faz notar, referindo-se, naturalmente, à Bairrada, que classifica como «o supra sumo» da região Beira Atlântica.

Ao nível das castas, Carlos Mendes destaca a Fernão Pires, uma uva frutada, muita apaladada, a rainha das castas no que se refere aos brancos. Nos tintos aponta a baga, touriga nacional, tinta roriz e alfrocheiro. Estas são as «mais tradicionais», que dominam particularmente na vinha velha, com novas variedades a implantarem-se com grande sucesso, muito embora, apesar da qualidade e dos bons níveis de produção, isso possa ser encarado, de alguma forma, como «um processo de aculturação», refere.

A produção de vinho foi desde sempre uma referência na Freguesia de Lamas, que funcionou durante décadas como a verdadeira “adega” das populações do concelho de Miranda do Corvo (ao qual pertence) e também de outros concelhos limítrofes. Uma tradição que se mantém e tem vindo a ser reforçada nos últimos anos.

Passeio de tratores é já uma tradição em Lamas

O vice-chanceler faz notar o «investimento grande» que tem vindo a ser feito na vinha da freguesia e alerta quem circula na A 13, auto estrada do Pinhal Interior, para a «área bastante considerável» de plantação de vinha que se avista, numa zona onde a exposição solar é de excelência, o que tem um reflexo «muito bom» na maturação das uvas.

O número de produtores da freguesia ronda atualmente as nove dezenas, muito embora «só três ou quatro sejam profissionais», que além do vinho se dedicam à produção de azeite e de fruta, com os restantes a assumirem-se como vitivinicultores como atividade secundária ou como hobbie. «Somos os maiores produtores de toda a Sub-Região de Sicó e também somos quem tem mais vinhos certificados», afiança o vice-chanceler.

Uma cultura muito local, marcada pelo espírito de união entre os produtores, que é extensivo à comunidade e acolhe quem chega de novo. Talvez sejam os taninos a adaptarem-se aos novos tempos e a “fermentarem” o futuro. A verdade é que o Vinho de Lamas tem vindo a conquistar os novos residentes, imigrantes oriundos das mais diversas paragens do globo que se radicaram no território. «São pessoas que não têm a nossa cultura de vinho, mas já começam a participar» e a entrosar-se com esta realidade, explica Carlos Mendes, que refere a ajuda que oferecem na altura das vindimas, a presença ativa nas tradicionais visitas às adegas e a própria aquisição de vinho, inclusive para comercialização, por parte destes estrangeiros já “conquistados” pela magia das vinhas. O vice-chanceler prefere usar outra expressão, ou melhor, um sentimento: o «amor».

O «amor» que liga as gentes de Lamas às suas vinhas, o «amor» com que estas vinhas são tratadas e que é transportado para o vinho, como história incorporada, como vivência que valoriza estes néctares.

O responsável também assume que há problemas de peso na vinha, efeitos diretos ou colaterais das guerras que assolam o mundo e que têm um impacto real nos preços de fungicidas, dos pesticidas, fertilizantes e combustíveis necessários ao tratamento das videiras e da vinha. «Está tudo cada vez mais caro!», desabafa.

Entronizacao Confraria Do Vinho De Lamas

Alterar data do capítulo

O capítulo da Confraria de Lamas realiza-se habitualmente em fevereiro, mas a direção está a pensar alterar a data, tendo em conta que, nesta altura, «as vinhas estão muito pobres», sem folhagem, sem uvas, apenas com as varas podadas não há muito tempo, não revelando a pujança que as caracteriza e a beleza que as envolve. «Estamos a pensar alterar a data do capítulo para uma época em que estejam mais atrativas», explica Carlos Mendes, o que permitirá que as muitas dezenas de confrades e confrarias que se deslocam à freguesia possam apreciar a beleza dos vinhedos de Lamas.

Na data certa está, seguramente o Passeio de Tratores, que se realiza no feriado de 5 de outubro, numa altura em que terminaram as colheitas e os lavradores e agricultores estão mais disponíveis para participar nestes eventos lúdicos. Mais um fator de união, «procurando juntar confrades, produtores de vinho e os residentes na freguesia em torno deste denominador comum que é o vinho», considera o vice-chanceler. No ano passado o passeio reuniu 70 tratores e já conta com a participação dos novos moradores, de amigos destes e de familiares de alguns dos residentes que não perdem “pitada”, pois trata-se de um evento de confraternização de encontro e camaradagem, com paragem em várias adegas, «onde já se começa a provar a jeropiga nova e a água pé», refere.

Neste passeio de trator, que se prolonga durante todo o dia, «percorremos todos os lugares da freguesia, mesmo os que só têm duas casas», refere Carlos Mendes. A Confraria oferece o pequeno-almoço e o almoço e a festa é para todos.

A Confraria é presença obrigatória nos grandes eventos promovidos pelo Município de Miranda do Corvo, com destaque para a ExpoMiranda e no final do mês passado marcou presença na Festa do Vinho, integrada no programa da Semana da Chanfana que decorreu num conjunto de restaurantes. Participa também sempre na Festa das Vindimas, promovida pela Junta de Freguesia, um dos eventos mais relevantes do calendário festivo.

Além da presença nos capítulos das outras confrarias, o que significa percorrer o país de lés a lés e, inclusivamente, deslocar-se ao estrangeiro, a Confraria de Lamas, que faz parte integrante das Terras de Sicó, tem a responsabilidade de organizar, para o próximo ano, o Encontro de Confrarias das Terras de Sicó, que este ano decorreu em abril, em Pombal, organizado pela Confraria do Bodo. Trata-se de um momento de reflexão conjunta, que reúne os responsáveis das confrarias do Bodo, do Bolo de Ferradura e do Tortulho (concelho de Pombal), do Queijo Rabaçal e Vinhos Terras de Sicó (ambas com sede em Penela), a Confraria do Chícharo (sedeada em Alvaiázere) e a Confraria do Vinho de Lamas (Miranda do Corvo).

B.I. 

Fundação: Janeiro de 2007

Traje: Capa negra, com sobrecapa grená/bourdeaux, que simboliza o vinho. A capa é debruada a ouro, símbolo do vinho branco. Chapéu preto com fita grená

Capítulo: primeiro fim de semana de fevereiro (com possibilidade de ser alterado)

Confrades efetivos: 75; dentro dos confrades efetivos há os mestres, que são produtores de vinho, e os “espertos”, que os apreciadores

Confrades honorários: 9

Confrades benemérito: 0

Sede: Lamas (antigas instalações da antigas Extensão de Saúde)

Escapulário: verde e branco

Medalha: carro de bois, símbolo da agricultura, e uma parreira (ramo de videira)

Madrinha: Real Confraria da Cabra Velha. Como confraria enófila usa uma tamboladeira em estanho, para provar o vinho, que apresenta uma gravação no interior, o que permite averiguar a clareza do vinho.

Julho 4, 2026 . 13:30

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