
Confraria dos Vinhos Terras de Sicó: Brindar a um "terroir" único
Os romanos terão sido os responsáveis pela introdução da cultura do vinho nas Terras de Sicó. Uma tradição milenar, que resistiu à presença árabe, ultrapassou as lutas da reconquista e se mantém como bastião de referência de um território. Hoje, «não sei se não está em risco de acabar». Um prognóstico reservado, pessimista mesmo, assinado por Raul Costa, grão-mestre da Confraria dos Vinhos Terras de Sicó.
Não se trata propriamente de um especialista em vinho, mas de um apaixonado. Um homem com raízes de Alfafar, há muito radicado em Lisboa, que mantém uma forte ligação à terra natal. E o vinho, depois da partida dos pais, acabou por assumir o papel de âncora essencial, esse elo de ligação que o traz repetidamente a Alfafar. Às visitas no dia da festa da aldeia, que outrora aconteciam, passaram a juntar-se muitas outras, tantas quantas as necessárias para podar a vinha, fazer a vindima, engarrafar o vinho ou mesmo para um simples encontro de amigos.

Uma experiência e uma inspiração para a criação da Confraria dos Vinhos Terras de Sicó. «Se não se começar a fazer alguma coisa, isto acaba», sublinha o fundador e grão-mestre.
Raul Costa já começou a «fazer» por si e entende que a Confraria pode ser uma alavanca importante para responder a essa necessidade de «fazer alguma coisa». Psicólogo, professor na Universidade Lusíada, está habituado a desafios e empenhou-se, há uns anos, na recuperação de uma vinha que pertenceu aos pais.
«Produziu o vinho para o meu batizado», diz, numa recordação cheia de afeto. O mesmo afeto que o levou a empreender um périplo constante entre Lisboa e Alfafar para renovar e reconverter a vinha, modernizando as castas e a respetiva disposição. «Gosto daquilo!», assume. Não que esta vinha «multicasta», onde se destacam as castas baga, alicante bouschet, trincadeira e sirah represente uma produção extraordinária. São «pouco mais de mil litros», esclarece, que vende de uma assentada, num encontro com velhos amigos. Da mesma forma que a poda da vinha se faz numa manhã e a vindima segue a mesma receita, uma e outra rematadas com um bom almoço e uma tarde passada na adega, ao som da guitarra.
Todos são bem vindos e têm lugar na Confraria mesmo que não sejam produtores de vinho
As vinhas da família estão “orientadas” E as outras? Qual é o futuro? Esta é, de resto, a grande questão e o grande desafio que preocupam Raul Costa. «Se não se fizer alguma coisa, daqui a 15 anos corre-se o risco de não haver vinha e de não haver vinho Terras de Sicó», avisa. Significa que é preciso «salvar a vinha», garantindo que as novas gerações vão dar continuidade à tradição ancestral. Todavia, o grão-mestre não tem ilusões. Para que isso aconteça são necessárias condições. «Tem que valer a pena!», sintetiza.
A equação afigura-se complexa, mas Raul Costa está confiante numa intervenção capaz de provocar a mudança, à semelhança do que acontece com a Orientar, associação a que presidiu e à qual se mantém ligado e que mudou o rumo de vida de muitas centenas de pessoas na zona de Lisboa. Aqui trata-se, tão só, de cepas de videira e de vinhos...
A rota está traçada e tem como patamar essencial a valorização da diferença. «Os entendidos dizem que este “terroir” é diferente», decorrente dos solos argilo-calcários, com afloramentos de xisto da Serra de Sicó e um clima próprio, com invernos frios e húmidos e verões secos e quentes, que conferem características próprias às castas mais tradicionais da Sub-Região de Sicó, instituída em, 1993, que integra a região IG (indicação geográfica) Beira Atlântico.
Há que «fazer valer essa diferença», considera. «Ou conseguimos demonstrar que o vinho de Sicó tem características especiais, próprias», que levam «os apreciadores a comprarem-nos» ou «não vale a pena produzir um vinho comum», tendo em linha de conta que «hoje em dia, só os grandes produtores, com escala, conseguem resistir», o que não se aplica nem de perto nem de longe à região, até pela própria dimensão geográfica naturalmente reduzida.

Cooperativa comunitária
Com o objetivo definido, Raul Costa começou, também, a traçar o caminho, que passa, designadamente, pela criação de uma adega cooperativa comunitária, onde os pequenos produtores, que não tenham capacidade, condições ou interesse em fazer vinho possam entregar as respetivas uvas e receber, em troca, um determinado número de garrafas de vinho. Adega capaz, ainda, de responder àqueles que querem manter os seus clientes, mas precisam, em termos logísticos, de “entregar” uma percentagem da produção.
«Para já é um sonho», assume, empenhado em transformar sonhos em realidades, a começar por «promover ao máximo a qualificação e o reconhecimento dos vinhos de Sicó». O que passa, faz notar, por «fazer um vinho reconhecido, um vinho DOP». «Estamos a fazer o projeto, vamos ver o que se consegue».
O enoturismo é outra das áreas a merecer atenção por parte da Confraria, tendo em conta o “poder de atração” dos néctares, enriquecido com a beleza e a riqueza patrimonial e paisagística e também gastronómica que apresentam os territórios das Terras de Sicó .

União é essencial
Essencial, no meio desta “cruzada”, é «a união» dos produtores e do território em torno desta causa. Uma região com história, recorda, onde os romanos deixaram a sua marca bem visível, nas próprias vinhas e também na produção de queijo. Um e outro resistiram aos árabes que, apesar de não beberem vinho, não deixaram morrer as vinhas que, mais uma vez, têm de continuar a resistir. A Confraria, considera, pode assumir esse papel, como entidade agregadora, onde todos cabem e podem ter o seu lugar, mesmo aqueles que não produzem ou, quiçá, não apreciam vinho, «mas gostam deste “espírito”» que lhe está associado.
Um processo de “conquista” que parte de Alfafar, na freguesia de Podentes, o maior centro vitivinícola do concelho de Penela, que se pretende fazer crescer em todo o território da Sub-Região, que envolve os concelhos de Condeixa-a-Nova, Soure, Miranda do Corvo (freguesia de Lamas), Alvaiázere, Ansião, Figueiró dos Vinhos (freguesia de Aguda) e Pombal (freguesias de Abiúl, Pelariga, Redinha e Vila Cã).
Aliás, a realização dos capítulos pretende responder a essa mesma trajetória e se o último decorreu no castelo de Penela, nos inícios de maio, para o ano o objetivo é que seja efetuado em Pombal, rodando, depois, pelos restantes concelhos das Terras de Sicó.
É a Confraria a “fazer-se ao caminho”, demandando o território para “plantar” raízes e “colher” frutos. Aliás, o grão-mestre reconhece que, aquando da constituição, lançou o reptum, mas a resposta foi "curta". «Temos que nos afirmar primeiro para as pessoas sentirem que vale a pena», considera, o que o deixa otimista relativamente ao futuro, nomeadamente com a integração de mais produtores, de maior ou menor dimensão, certificados ou não, que se encontram em todo o território. «Há espaço para todos», assegura.
Outro dos “caminhos” assumidos pela Confraria é a presença em eventos, designadamente feiras e certames, e na participação nos capítulos das confrarias, se bem que, tendo em conta o número ainda reduzido de confrades, esta não seja uma tarefa fácil. A Confraria participou, em meados de abril, no encontro das Confrarias das Terras de Sicó, realizado em Pombal, e pretende dar início a um programa de provas de vinhos em diferentes espaços. A primeira já está em agenda, vai decorrer numa unidade hoteleira de Penela, embora a data ainda não esteja completamente definida.
B.I.
Constituição: 13 outubro 2023
Sede: Alfar, nas instalações da Vinisicó
Traje: Capote cor de vinho, com chapéu. Inicialmente a opção recaiu sobre uma boina, mas “estragava” o penteado das senhoras e, por isso, passou a ser um chapéu preto, com fita bordeaux
Medalha: Copo de vinho tinto e referência às Terras de Sicó
Bandeira: Cor de vinho, debruada a dourado
Confrades efetivos: 30
Confrades de mérito: 7
Capítulo: sem data fixa
Padrinhos: Confraria do Vinho de Carcavelos









