
Confraria Nabos e Companhia: uma verdura de eleição
Tenros e frescos, os grelos de Carapelhos fazem história. Em toda a região da Gândara e também fora dela são, desde há muito, a verdura eleita para acompanhar os mais diversos pratos. Uma cultura ancestral, que testemunha a sabedoria de um povo, a resiliência de uma comunidade que conseguiu aproveitar os solos pobres e fazê-los frutificar.
«Em meados do século passado, nas décadas de 50/60, saíam diariamente de Carapelhos camiões carregados com milhares de molhos de grelos, com destino ao mercado nacional e internacional», explica Élio Janicas, grão-mestre da Confraria Nabos e Companhia, que nasceu para promover e dar a conhecer esta cultura tão particular e sobretudo para apresentar e divulgar o território onde nasceu e reside, a Gândara.
Um sucesso empresarial, que tem na sua génese a pobreza dos solos e das gentes de Carapelhos, uma comunidade marcadamente rural, que vivia do que os campos produziam. “A necessidade aguça o engenho”, diz o ditado e foi isso o que fez a população desta aldeia do concelho de Mira. Era preciso rentabilizar o solo, por isso, no terreno onde se colhiam as batatas, sobretudo, mas também algum feijão, semeavam-se os nabos, visando a produção de grelos, uma cultura de inverno, facilitada pelo facto de não carecer de rega.
A produção terá começado por se destinar para casa, para consumo próprio, como verdura para acompanhar os mais diversos pratos. Todavia, a qualidade, mas sobretudo a quantidade dos grelos de nabo acabariam por motivar a comercialização, acarretando um incremento generalizado da produção. Assim, esta cultura alternativa, destinada a aproveitar os campos em pousio durante o inverno, transformou-se num negócio lucrativo e num modo de vida para muitas famílias, com os grelos produzidos em Carapelhos a circularem pelo país inteiro e a chegaram, também, ao “mercado da saudade”, designadamente a França e à Suíça, países que sempre acolheram um grande número de portugueses.
A produção tem o seu auge entre finais de novembro e março/abril. É a chamada época dos grelos. Desengane-se quem pense que, depois disso, os nabos não nascem ou os grelos não crescem. Nada disso. A diferença está no custo de produção, explica o grão-mestre, que percebe do “metier”, tendo em conta que os pais também estiveram ligados à comercialização de grelos e sempre lhes deu uma ajuda.
"Em meados do século passado, nas décadas de 50/60, saíam diariamente de Carapelhos camiões carregados com milhares de molhos de grelos"
Com efeito, sendo os nabos semeados noutra altura, já é necessário regar os campos, o que representa mais trabalho para o agricultor e mais custos de produção. Por outro lado, há que ter em conta o facto de se tratar de uma cultura de inverno e, como tal, noutra qualquer época do ano a produção não é tão boa nem o produto tão apetecível. Fatores a que acresce a própria apetência do mercado que praticamente encerra a época do grelo por alturas da Páscoa, preferindo, a partir de então, o feijão verde, primeiro, e as saladas, naturalmente mais frescas, depois.
«O grelo não é tão interessante no verão», sintetiza o grão-mestre, que associa esta verdura a um conjunto de pratos mais aconchegantes, uma comida de conforto particularmente conotada e apreciada num tempo mais frio.
Hoje em dia há menos agricultores e também menos produção em Carapelhos, mas praticamente em todas as famílias ainda há alguém que produz grelos e aproveita para fazer algum negócio, adianta Élio Janicas.
É toda esta tradição, esta cultura sui generis que a Confraria se empenha em divulgar e defender. Mas «não se limita a promover o grelo», salienta o grão-mestre, estendendo a sua atividade à promoção da «gastronomia e da região gandareza». Uma gastronomia muito ligada ao grelo, à qual os Nabos associaram nova Companhia, sempre com a preocupação de «promover os produtos típicos da região» e o próprio território.
Desígnios que se cumprem, também, com a criação de novas roupagens, ementas inovadoras que se juntam aos clássicos rojões com grelos, e de que são exemplo a vaca caída com grelo no ar, o galo ao grelo, a punheta com grelos à vista, a chanfana ou leitão com grelos, a carne à gandareza, o gandarelos – arroz com cogumelos selvagens e grelos a acompanhar – ou ainda o pregado da praia com grelo da Gândara.
«A nossa preocupação é ligar a terra e o mar», diz Élio Janicas, que a propósito do pregado refere que ali a dois passos, na Praia de Mira, está instalada a maior produção de pregado da Europa em sistema de aquacultura, razão pela qual este peixe também passou a merecer uma atenção especial quando se trata de elaborar novas ementas e apresentar receitas atrativas e inovadoras.

Nabo também inspira inovação gastronómica
Imaginação não falta aos confrades dos Nabos e Companhia, que além da criatividade na apresentação de alguns pratos tradicionais, também têm apostado em promover experiências inovadoras. O Ginabo é disso exemplo. Trata-se do primeiro gin do mundo feito com nabo - fazem questão de sublinhar - neste caso a cabeça.
Um produto criado há mais de uma década, patenteado pela Confraria e relativamente ao qual se têm multiplicado as «propostas de venda e mesmo visando a exportação». Sugestões de negócio que estão completamente fora de questão para a Confraria, que tem um acordo de produção com umas caves e assume o desejo de manter este gin em “circuito fechado”, ou seja, só acessível nos eventos que a Confraria de Carapelhos promove. Significa que «quem quiser provar o ginabo tem de nos visitar», ou seja, deslocar-se a Carapelhos, sintetiza o grão-mestre.
Semelhante é a situação do gelado de nabo, outra experiência inovadora, também com resultados positivos, que a Confraria gere sob reserva e que ganha alguma projeção na Feira dos Grelos, realizada em meados de maio.
«Tentamos encontrar produtos diferentes» para dar guarida à promoção do nabo, explica Élio Janicas.

Feira dos Grelos e Sardinha na Telha
A Feira dos Grelos, que este ano teve a sua 20.ª edição, representa um dos momentos áureos da vida da Confraria, pois trata-se de uma iniciativa inteiramente da sua responsabilidade, que decorre habitualmente no terceiro fim de semana de maio. São três dias dedicados à cultura e às tradições, à gastronomia e à partilha de saberes, num encontro alargado com a comunidade que leva a Carapelhos milhares de visitantes, apreciadores das iguarias, naturalmente, mas particularmente de toda a envolvência do certame, que apresenta um conjunto de singularidades que o tornam especial e único.
A mais relevante será, decerto, o facto de serem os confrades a organizar e assegurar a “frente de combate”, nomeadamente a confeção das diversas iguarias, desde as entradas às sobremesas, sempre com o grelo como protagonista, a que se junta uma padaria em funcionamento permanente. De um total de 80 pessoas a trabalhar na feira, «60 são confrades», esclarece o grão-meste, dando uma ideia da dimensão do evento e do papel dos confrades, que recebem «milhares de visitantes e servem milhares de refeições.
Também numa iniciativa da Confraria, realiza-se, dia 8 de agosto, o festival gastronómico da Sardinha na Telha. «É mais um prato típico da região», que vai estar acompanhado pela broa, cozida em forno de lenha, em mais uma aliança entre o mar e a terra, a pesca e a agricultura. Evento que tem este ano a sua segunda edição.
A Confraria Nabos e Companhia também participa nos eventos gastronómicos promovidos pelo Município ou por outras entidades, como o São Tomé de Mira, Mira à Mesa. Possui uma vinha e uma horta, tratadas pelos confrades e tem um museu, instalado na antiga escola primária, ao lado da sede. Numa casa de apoio estão instalados os fornos, destinados a cozer a broa. Atribui, ainda, anualmente, um Prémio de Mérito Académico, no valor de mil euros, que distingue o melhor aluno da Escola Secundária de Mira.
No ano passado promoveu um jantar de beneficência para apoiar os Bombeiros Voluntários de Mira, e ofereceu à aldeia uma estátua de homenagem ao homem e à mulher gandareza
A Confraria Nabos e Companha foi distinguida com o prémio da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas pela sua desenvoltura e grande dinamismo. «O segredo são as pessoas, confrades que se dedicam de corpo e alma», afirma, agradecido, Élio Janicas.
B.I.
Fundação: janeiro de 2000
Capítulo: final de novembro
Traje: castanho, feito em burel, inspirado no gabão das gentes da Gândara, com capuz, para garantir maior proteção
Confrades efetivos: 91
Confrades honorários: 102
Padrinhos: Confraria do Bacalhau, em Ílhavo
Símbolos: embarcação de pesca de arte xávega da Praia de Mira, uma carroça puxada por bois












