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Confraria das Couves de Castelo Viegas: É couve portuguesa, com certeza!

Castelo Viegas é rei e senhor no que a couves diz respeito. Suculenta e adocicada, esta variedade fez florescer negócios no passado e hoje é um “ex libris” que a Confraria se empenha em preservar

Talvez seja efeito dos terrenos ou “coisa” das suas gentes, certo é que as couves de Castelo Viegas são únicas. «Têm um gosto diferente e melhor!», garante José Baptista Lucas. Um homem que sabe do que fala, com o peso da sabedoria de gerações e gerações de agricultores, que sempre trabalharam a terra e plantaram couves. Hoje preside à Confraria das Couves de Castelo Viegas, criada precisamente para preservar essa herança, esse património do passado que tende a ficar esquecido.

Antigamente saíam de Castelo Viegas camionetas cheias de gente e de “carregos” de couves, que «todos os dias iam vender ao Mercado D. Pedro V». Couves plantadas nos finais de agosto, princípios de setembro, «para estarem prontas para o Natal», explica Baptista Lucas, defensor intransigente desta variedade de couve portuguesa, também denominada tronchuda ou penca, que se caracteriza pelas folhas largas e nervuras suculentas.

«É ideal para cozer» ou “aferventar”, garante, enaltecendo o «sabor adocicado» que caracteriza esta couve de «troço baixo», que «não é muito grande» e oferece o seu aroma a «uma sopa espetacular», «muito gostosa».

«É uma cultura de Inverno», explica o responsável da Confraria, que refere experiências feitas ao longo do ano. Há couve, «mas não é a mesma coisa». «Esta couve precisa da humidade e do frio do Inverno», diz ainda.

As couves são, por princípio, plantadas depois da colheita da batata, também ela «muito saborosa» em terras de Castelo Viegas. «Aproveita-se o “tratamento” da terra”, porque a batata não “come” o estrume todo», que serve para “alimentar” as couves que se seguem.

Antes, porém, há outra sementeira, que Batista Lucas conhece bem, pois era assim que os pais e, antes deles, os avós, faziam. Um saber de experiências feito, que levava os agricultores de Castelo Viegas a terem a preocupação de, quando a couve começava a “fechar”, ou seja, a fazer “bola”, «escolhiam as melhores», que transplantavam para «lhes aproveitar a semente». Uma semente selecionada, que garantia o futuro, ou seja, a sementeira – e posterior plantação do próximo ano e mesmo do seguinte. «A semente conserva-se dois anos», sublinha, muito embora todos os produtores fizessem questão de ter sempre «semente nova».

 

No passado, Castelo Viegas também foi um viveiro de couve para plantar

Lançada à terra, a semente transforma-se num pequeno pé de couve. «Em mês e meio dá para plantar» e, no passado, Castelo Viegas também foi um viveiro de couve para plantar. O próprio presidente da Confraria vendeu «muita couve para a zona da serra, para os terrenos de sequeiro», conta, referindo as muitas remessas enviadas para a zona de Moimenta da Beira.

«O meu pai dedicava-se bastante aos “canteiros"», denominação local dada à sementeira da couve para posterior transplantação. «Vendia aos 100 centos por ano», acrescenta e lembra um casal, residente em Oliveira do Hospital, que fazia questão, em finais de julho, quando vinha das férias de Verão, passadas na Figueira da Foz, de se deslocar a Castelo Viegas, todos os anos, para comprar as couves.

«Um confrade nosso semeia sempre uns “tabuleiros na sexta-feira santa», para levar couve à Festa da Flor, que se realiza nos princípios de maio, em Coimbra. Já o responsável da Confraria, em meados de abril, depois da chuva, lavrou o terreno, localizado nas imediações da Junta de freguesia, alugado pela Confraria logo após a sua constituição, em 2010 e procedeu à necessária sementeira para, mais tarde, realizar a plantação. Um campo com cerca de dois mil metros quadrados, onde a Confraria planta entre 2.500 e 3.000 couves, que espera, este ano cresçam e frutifiquem.

 

Preservar uma cultura em risco de desaparecer

Confrades Apresentam As Couves

Promover, valorizar e preservar esta couve e esta cultura única foi o que levou um conjunto de habitantes de Castelo Viegas a empenhar-se na criação da Confraria, constituída formalmente a 13 de outubro de 2010. Uma altura crítica, com esta variedade de couve portuguesa praticamente em risco de desaparecer. «Já nem semente de couve havia», afirma o presidente da Direção. Uma morte anunciada a partir do momento em que «as pessoas que iam para o mercado», com os muitos “carregos” de couve transportados à cabeça, deixaram de o fazer. E também deixaram de semear os “canteiros”, onde germinavam as couves para transplantar nos terrenos locais e em paragens distantes.

«O comércio estava acabado» e já ninguém vivia deste negócio. Todavia, alguns moradores mantêm viva a tradição, com pequenos canteiros para consumo próprio e hortas com o mesmo destino. Aliás, foi também uma horta que a Confraria das Couves fez logo no arranque, com o arrendamento de um terreno onde todos os anos semeia e planta uma vasta horta, que garante uma produção de couves para “dar e vender”, perdão, oferecer, o que nem sempre é possível.«O ano passado foi terrível. Não fizemos sementeira nem plantação, nada!», recorda.

 

Recuperar o capítulo e Oferta de couves dá mais sabor ao Natal

A Confraria das Couves pretende, este ano, pôr termo a alguma inércia que tem marcado os últimos anos, pois desde a pandemia não realiza o respetivo capítulo. O objetivo é, em outubro, no primeiro fim de semana, promover este encontro de confrades e de confrarias. «Vamos ver se conseguimos sair deste banho-Maria» e promover o tradicional encontro de convívio com confrades e confrarias de todo o país, que habitualmente se realiza no primeiro fim de semana de outubro. «Seria importante para retomar o ritmo», diz ainda. «Gosto pouco de deixar morrer as coisas em que estou envolvido», acrescenta José Baptista Lucas, que está empenhado em manter vibrantes e viçosas as couves de Castelo Viegas.

A plantação de couves cresce, acompanhada com atenção e cuidado pelos confrades, que regam esta vasta horta com a água do poço, cedida pela União de Freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas. Com o crescimento concluído, prontas para “abate”, a Confraria oferece-as aos sócios (confrades) para a tradicional consoada. Mais relevante, associa-se à União de Freguesias na preparação do cabaz de Natal oferecido a quem mais precisa. «Oferecemos as couves», o que significou, há dois anos, a entrega das couves que alimentaram a consoada de 150 famílias.

Também as instituições particulares de solidariedade social (IPSS) existentes na zona beneficiam da cultura e da colheita das couves de Castelo Viegas, que utilizam na confeção das refeições que servem aos respetivos utentes.

O sonho de ter uma sede

Sem um espaço próprio, os confrades juntavam-se num café para debater qualquer assunto, situação a que o elenco diretivo presidido por José Baptista Lucas entendeu pôr termo, pedindo à União de Freguesias a cedência das instalações, o que tem sido feito. Todavia, o problema mantém-se em aberto, sem a existência de uma sede.

«Andamos há mais de seis anos a falar do assunto com a União de Freguesias, conta o responsável, que refere a existência de antigas escolas primárias abandonadas, designadamente na localidade de Pereiros, que seriam a solução perfeita. Todavia, «nem a Câmara nem a Junta nos libertam uma escola antiga», lamenta, devido a um impasse que envolve a propriedade do edifício e do terreno onde está implantado a estabelecimento. «Nós só precisamos de um protocolo de utilização», sublinha o presidente da Direção, que não esconde que o arrastar desta situação «ajuda a tirar o entusiasmo».

Couves Semente

B.I.

Traje: Capa de cor castanha, com sobrecapa verde e chapéu verde escuro
O estandarte apresenta o símbolo da couve e o castelo de Castelo Viegas, de um lado e no outro a bandeira de Coimbra.
Fundação: 13 de outubro de 2010
Capítulo: primeiro fim de semana de outubro
Confrades efetivos: 40 a 50 (com quotas em dia)
Confrades de honra: 12

Junho 14, 2026 . 20:15

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