
Serra abaixo em cadeira de rodas: um dia para sensações de liberdade
O dia é aguardado sempre com grande entusiasmo, não só por parte dos utentes da ARCIL – Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados da Lousã, como de outras instituições da região que se juntam, em plena serra da Lousã, para a já mítica Descida da Serra em Cadeira de Rodas, promovida anualmente pela instituição lousanense. Não se trata de uma prova, tão pouco competição, mas antes de um dia diferente, passado ao ar livre, que promove a inclusão, o convívio e o contacto com a natureza.
Na linha da frente da “prova” que decorreu ontem de manhã – a 18.ª edição da Descida da Serra em Cadeira de Rodas – Clara Nunes descreve, em poucas mas incisivas palavras, aquilo que sente neste dia que sobe à serra transportada numa carrinha e desce por ela abaixo ao ar livre, com o vento a bater e os sons da natureza a ecoarem. «O que me entusiasma? Muita coisa. O convívio, a natureza, o facto de me sentir livre», diz, pouco antes do sinal de partida para o passeio, e já com a experiência colhida de anos anteriores. Natural de Vila Nova do Ceira, concelho de Góis, Clara Nunes repete a descida pela oitava vez e promete regressar sempre que puder. «Já sou conhecida», brinca, para dizer em seguida, em tom mais sério, que esta é «uma sensação que só sente quem vai na cadeira de rodas».

Rosa Bernardo, utente da ARCIL, é daquelas que praticamente já fez o pleno. «Só falhei uma descida», conta, também ela na linha da frente para a partida para a descida. «Estou desde o início», comenta, revelando que se é verdade que falhou uma descida, em compensação realizou uma noturna. «E era só eu e pessoas da organização a participar de noite, é uma ideia a não colocar de parte», sugere. Ontem de manhã, contudo, a “viagem” entre o depósito da EN236, onde foi dado o sinal de partida, e a Praceta Sá Carneiro, na Lousã, foi feita em pleno dia, mais uma vez, «um dia diferente» dos restantes que estes utentes vivem ao longo do ano. «É um dia de cara ao ar livre», diz Rosa Bernardo, assumindo que aguarda sempre com grande expectativa e entusiasmo a chegada de cada edição.

A 18.ª da Descida da Serra em Cadeira de Rodas teve este ano um sabor especial por integrar a programação dos 50 anos da ARCIL. Ainda assim, a prova teve de ser adaptada às circunstâncias atuais da Serra da Lousã, fustigada pelos incêndios do ano passado e dizimada pela tempestade do início deste ano. «Infelizmente, a prova este ano é mais curta», explicou Ana Araújo, diretora técnica do CACI da ARCIL, frisando, contudo, que não é a menor dimensão que retira o entusiasmo aos participantes.
«Dão sempre um feed-back muito positivo, é um dia diferente, um dia que passam ao ar livre, em contacto com a natureza», explica a diretora técnica.
Este ano, desceram a serra mais de meia centena de utentes em cadeira de rodas, oriundos da ARCIL e de várias outras instituições, como a Santa Casa da Misericórida da Lousã, Cerci Penela, APCC de Coimbra e APPACDM de Vila Nova de Poiares, que tiveram o apoio de muitos voluntários. No total, mais de uma centena de pessoas fizeram o trajeto de uma iniciativa que é reconhecida como um dos momentos mais marcantes da atividade da instituição lousanense e que promove a inclusão, a acessibilidade, a igualdade de oportunidades e o direito de todos à participação plena na vida em sociedade.












