
States, História da Arte e Queima das Fitas são “marcos” na vida do “Tio Jel”
«Vivi muitas noitadas em Coimbra», contou Nuno Duarte, “Jel”, ao Diário de Coimbra, mas a ligação “oficial” à cidade nasceu da inscrição no curso de História da Arte, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Jel retorna amanhã à cidade dos estudantes, e fá-lo com o seu segundo solo de stand-up comedy, “Quem te Viu e Quem te Vê”, para mostrar os seus «50 anos de vida», no Salão Brazil.
«Este ano celebro duas datas redondas na minha carreira, os 30 anos de que comecei no teatro e os 20 anos do “Vai Tudo Abaixo”, portanto posso dizer que este será um espetáculo de retrospetiva e comparação destes meus 50 anos de vida», explica o humorista.
Sobre o que esperar do novo solo, admite que se centra «na mudança, nas transformações que vi acontecer no mundo, na minha vida, no nosso país, na nossa sociedade e no humor», temas que vão ser observados através do olhar pessoal.
«Há muitas mudanças, na tecnologia por exemplo, mas não só. A cultura era muito [menos] transversal, havia aquilo e pronto, agora há mais oferta, mais vasta», sugere Jel.
Coimbra foi “casa” de Jel na primeira inscrição na Universidade, mas a ligação que tem com a cidade é mais profunda
Apesar de ser ter destacado com vários projetos ao longo da carreira, é difícil pensar em Nuno Duarte e não se lembrar dos “Homens da Luta” ou dos “Kalashnikov”, bandas de que fez parte. «O meu sonho era ser músico a sério, nunca tinha sido a comédia. Tinha estado numas bandas, mas o Vasco [irmão de Jel] é que tocava muito bem, percebia de música», o que eventualmente levou ao desenvolvimento dos “Homens da Luta”, vencedores do Festival da Canção.
«Nós aparecemos em 2005 ou 2006 e depois beneficiamos da crise que impactou Portugal em 2009. Tínhamos um imaginário e personagens reacionárias e aliámo-nos às causas, aparecíamos em manifestações. Isso acabou por nos beneficiar», mesmo que o fim tenha aparecido em 2013, após uma candidatura à Câmara Municipal de Cascais.
Mesmo com o final de ambas as bandas, nunca largou o “holofote mediático” e, em altura de pandemia, Nuno Duarte “renasce” para um nova faixa etária com o “Tio Jel do Sal Grosso”. «Aconteceu em 2019 e depois acabámos por apanhar a pandemia, cativei os mais jovens talvez. A reação, principalmente dos jovens, foi imensa e acho que começaram a acompanhar mais o Tio Jel», o que levou a um novo fenómeno: «tenho pais da minha geração que aparecem nos solos com os filhos», sempre com curiosidade sobre quais as diferenças do “digital” para o stand-up.

Mudanças através dos anos
Há cerca de 14 anos Nuno Duarte abraçou o desafio de curador do Palco Comédia do festival de verão Nos Alive. Com isto, apareceram novas responsabilidades e um novo olhar para o panorama da comédia nacional. «É uma plataforma incrível para dar uma oportunidade ao público de conhecer a malta da comédia. Mas é um desafio enorme, porque um [palco de] festival não é um teatro», o que obriga a um tipo de preparação diferente dos próprios comediantes convidados.
Com este processo, indica que Portugal tem «nomes em destaque» e que a comédia nacional tem, efetivamente, «um futuro». «Acompanho vários [humoristas] e acho que o Diogo Batáguas, o Guilherme Geirinhas, o Pedro [Teixeira da Mota], o Tiago Almeida, o Rodrigo Correia, entre outros, têm muito para oferecer. É difícil não destacar o Diogo [Batáguas] porque ele esteve no início do Palco Comédia e tem sido um convidado regular, o seu crescimento e confiança em palco é inacreditável», presa Nuno.
Coimbra com Jel
Para além da passagem por Coimbra, pelo curso da Faculdade de Letras (que acabou por se ver obrigado a trocar por Lisboa, por questões profissionais), Jel visitou a cidade dos estudantes em vários momentos. «Vim de propósito de Lisboa para ver o Iggy Pop na Queima das Fitas», conta, enaltecendo a ligação conimbricense com a «música alternativa». «Fui muitas vezes ao States onde vingava a música alternativa e aquele ambiente mais underground e caótico. Coimbra sempre teve esse lado, até mesmo com a RUC [Rádio Universidade de Coimbra] onde, há uns anos, bastava estar lá uma pessoa um pouco mais alternativa e ouvia-se logo músicas que não passavam em mais lado nenhum», característica que se “perdeu” com a aparição do streaming.
Ainda sobre a Queima das Fitas, Jel admite que nunca lá atuou… por falta de convite. «Pessoal da Associação Académica de Coimbra, estamos abertos a propostas, pode ser uma oportunidade de reunir os “Homens da Luta”, nunca se sabe», desafia.











