
Feira sem Regras: negócio e amizade de braço dado
Apresenta uma banca com panelas de ferro, de três pernas, candeias e candeeiros a petróleo, entre outras “coisas do passado”. «Coisas usadas, antigas», esclarece Albertino Martins, um dos cerca de 300 expositores que ontem marcaram presença na Feira sem Regras, na Praça da Canção, em Coimbra. Nem sempre isso acontece e quanto às vendas, «quero mas não consigo», adianta o expositor, que elogia o certame. «É bom para toda a gente! Há peças que não se encontram no mercado, mas é possível encontrar aqui», diz.
Satisfeito com o dia primaveril, ao som dos “Abba”, Carlos Afonso apresenta uma vasta banca com discos de vinil e cassetes com músicas de outros tempos. Reside na Covilhã e desloca-se todos os meses a Coimbra para participar no certame. «Venho passear, vender e ver os amigos», diz, sem queixas relativamente ao negócio, embora sejam mais os que «vêm para ver do que para comprar». Mas sempre vão levando alguma «relíquia», pois «a música fica sempre bem!», afirma.
Madalena é dos arredores de Coimbra e não perde uma feira. «Faz dia 7 de junho 19 anos que venho a esta feira», conta. Reformada, ganhou tempo para perceber «o excedente» que tinha em casa, «coisas de que não preciso» e que na feira consegue “despachar”. Além das vendas, Madalena refere os «muitos amigos», entre colegas expositores e clientes, que foi criando ao longos destes anos.
Certame é um ponto de encontro, onde expositores e clientes criam relações de amizade
Óscar Mateus prepara-se para abandonar o recinto, já com as compras feitas, e regressar a Fermentelos (Águeda), onde reside. Adquiriu um rádio, peças para a bicicleta e faróis para o automóvel. «De vez em quando aparecem coisas interessantes», considera.
«Estou só a passear e a olhar, para ver se vejo alguma coisa interessante», diz Pierre Jaquemolis, um suíço de passagem por Coimbra, onde tem um filho a estudar. Apesar do sotaque, fala corretamente português, o que nos parece bastante curioso. «Gosto muito de Portugal», esclarece o nosso interlocutor, que faz questão de nos lembrar a verdadeira multidão de portugueses radicados na Suíça, facto que o ajudou na aprendizagem da língua de Camões. A propósito, já é cliente da feira, onde comprou o chapéu que usava.
Feliz estava Bertília Simão, presidente da União de Freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas, que ontem fez questão de assinalar simbolicamente, com um enorme bolo de aniversário partilhado, os quatro anos da Feira sem Regras na Praça da Canção. «É uma feira simples, mas cumpre a sua função e dá alegria ao parque», afirma, referindo os cerca de 400 expositores que já marcaram presença em algumas edições. Ontem, o facto de ser véspera de domingo de Páscoa, limitou o número, que rondou as três centenas, enchendo de colorido toda a Praça da Canção, quase até ao Exploratório.
A autarca local enaltece a fidelidade dos expositores, que «ficam tristes» quando não é possível realizar a feira, devido ao mau tempo, ou durante a Queima das Fitas ou da Feira Popular, que ocupam o recinto.
É uma feira «cada vez mais participada», onde se «vende de tudo» e é possível «comprar coisas a bom preço», refere. «Economicamente é favorável para todos, quem compra e quem vende», adianta. Uma solução boa para a economia doméstica e também para «a vida e a sustentabilidade do planeta», lembra Bertília Simão. «Se houvesse mais reutilização não era necessário produzir tanto e ajudávamos mais o planeta», diz ainda, enaltecendo a «redução do desperdício» associado às boas práticas, princípio essencial da economia circular. Um conceito muito em voga, que importa aplicar. «Não é só apregoar, para nós é fazer!», remata, destacando, ainda, a importância da feira como «espaço de convívio, onde as pessoas se encontram e, mesmo que não comprem, conversam».











