
Lava-Pés na prisão de Coimbra foi momento de “vivência interior” para todos os reclusos
Foi um «momento que toca o coração» para todos os reclusos presentes na Missa do Lava-Pés. Em comunidade, tanto com presos, como com voluntários, a solenidade introspetiva da sessão não passou despercebida a nenhum dos presentes, mesmo aos mais habituados.
«É um sinal muito poderoso», indicou o bispo de Coimbra, Virgílio Antunes. Comparando a missa com a realizada fora do Estabelecimento Prisional de Coimbra, o bispo realçou que as pessoas presentes na prisão encontram-se «longe da família, privadas disso», o que torna único todo o “crescendo” até ao lavar dos pés. «É simbólico do lavar do espírito, digamos assim, um momento solene. Aqui parece que se sente muito mais a solenidade», explicou.
Para os reclusos, a sua situação é de penitência, considerada merecida, de certo modo, mas que se torna mais leve nestes dias. Alexandre, nome fictício, está encarcerado há cerca de oito anos, e apesar de ser «católico não praticante», tem visto nas visitas do bispo, na Páscoa e no Natal, um «conforto». «Sempre que posso, venho visitá-lo e ver a sua missa. Nestas alturas sinto que todas as pessoas deviam participar. Estamos aqui a cumprir o tempo por aquilo que fizemos, mas todos deviam participar nestes momentos. Já que não posso estar com a família, gosto de estar presente nesta celebração», contou o recluso.
Rito do Lava-Pés representa “limpeza” de espírito e não apenas física, dando espaço para a introspeção das ações realizadas por todos
Por sua vez, Ricardo, nome fictício, que se encontra preso há cerca de dois anos, vê na presença do padre Nuno Santos e do bispo Virgílio Antunes, uma situação «muito positiva», principalmente para quem está a «pagar pelos crimes cometidos». «Dá-nos alento e traz-nos esperança porque podemos reconhecer os erros que cometemos e podemos ganhar uma perspetiva diferente do mundo e da sociedade. Temos de pagar pelos nossos crimes, mas acabamos por ser “privilegiados” por termos o bispo a vir ao nosso encontro e estar presentes com as pessoas que passam a palavra de Deus».
A diretora do Estabelecimento Prisional de Coimbra, Paula Sobral, destacou a importância da presença do bispo, principalmente como “símbolo” de «esperança». «Temos uma grande percentagem de reclusos praticantes, portanto é sempre uma alegria. É uma pessoa amiga do estabelecimento, visita várias vezes, uma prova de que não se esquece daqueles que estão fora do convívio social», sublinhou Paula Sobral.
No que toca ao evento de domingo de Páscoa, a diretora relembrou que a prisão é apenas «da liberdade física», sendo permitido o exercício da liberdade política e religiosa. «As pessoas manifestaram a vontade de fazer estes sacramentos junto dos voluntários, o que é muito positivo» enalteceu. Assim sendo, o próximo domingo ficará marcado pela Páscoa, certamente, mas também por dois crismas e um batismo realizado no estabelecimento.
“É um sinal de que a fé cristã está aberta a todos”
Questionado sobre a importância dos crismas e do batismo, o bispo Virgílio Antunes não escondeu que era um momento claro de fé. «Felizmente este é um sinal de que a fé pode brotar dentro de uma pessoa ou várias pessoas que querem continuar este caminho. É um bom sinal, é um sinal de que a fé cristã está aberta a todos, independentemente das circunstâncias em que estão a viver. Há sempre a possibilidade de acolher um sentimento que parte de Deus e por Deus». Sobre a “força” da cerimónia na prisão, o bispo declarou que há um sentimento distinto dos outros. «Aqui há pessoas a braços com uma realidade distinta, problemática, onde existe sentimento de culpa, revolta interior ou sentimento de injustiça. Aqui oferecemos silêncio e a oportunidade de introspeção onde existe um confronto interno que pretende libertar. É com isso em mente que venho aqui».











