
Cerdeira: a arte foi tábua de salvação para uma aldeia quase a desaparecer
Uma a uma, as casas de xisto da aldeia da Cerdeira, no concelho da Lousã, foram sendo recuperadas com recurso às técnicas mais tradicionais, renascendo assim do quase desaparecimento para uma das aldeias mais especiais e únicas da Serra da Lousã, onde a criatividade e arte se unem. Aliás, o que distingue esta aldeia das demais é exatamente a componente artística, seja nas oficinas ou nos workshops dinamizados pela Escola de Artes e Ofícios e que todos os anos leva dezenas de artistas de todo o mundo até à Serra da Lousã.
A Cerdeira é, assim, um local muito procurado por artistas plásticos para realizar residências artísticas, workshops e formações com outros artistas rodeados pela serenidade da natureza.
O projeto de recuperação da aldeia abandonada começou nos anos 90, quando a artista alemã Kerstin Thomas descobriu este local perdido na serra e iniciou o seu trabalho de recuperação da aldeia, onde atualmente existe um atelier.
«Este projeto nasceu da necessidade de uma das fundadoras de ter um espaço no meio do nada, onde pudesse ter momentos criativos, e encontrou esta aldeia», começou por explicar Sérgio Alves, diretor-geral da Cerdeira Home Creativity. O projeto, que começou com uma dimensão pequena, «tem crescido ao longo do tempo», dinamizando duas áreas de negócio - a escola de artes e o alojamento nas 10 casas recuperadas.

Inserida num cenário de natureza, a pequena aldeia tem ganhado o reconhecimento de pequenos e grandes artistas que procuram fugir da confusão do dia a dia e “mergulhar” quase num refúgio que, muitas vezes, dá azo à criatividade. O responsável não tem dúvidas que a «estratégia para captar a atenção destes artistas, maioritariamente, vindos do estrangeiro passa pela comunicação junto dos mercados internacionais», nomeadamente, australiano, norte-americano, italiano e japonês. O resultado tem sido o de uma procura «durante todo o ano», fazendo com que não dependam da sazonalidade do destino.
De olhos postos no futuro, a Cerdeira Home for Creativity deseja «crescer e reinvestir», seja na escola de artes, seja na oferta do alojamento. «Sabemos que temos que encontrar um equilíbrio entre território e o crescimento, até porque estamos numa aldeia de xisto e temos as condicionantes físicas», contudo «faz todo o sentido continuar a investir em territórios como o da Serra da Lousã», considera Sérgio Alves.

António, o “guardião” da Cerdeira
Uns ficam uns dias, outros semanas, vão e voltam, mas António Carlos é o único habitante permanente da aldeia da Cerdeira. Há 24 anos tomou a decisão de se mudar para uma aldeia perdida na Serra da Lousã e apesar de não querer contar muito sobre a sua vida - prefere falar da serra e das suas plantações - desvendou um pouco sobre o que o fez apaixonar-se pelo cultivo de plantas aromáticas.
Para o residente, o cultivo das terras é uma verdadeira dança com a natureza, já que sabe que quem escolhe viver numa aldeia deste tipo não enfrenta só a solidão, enfrenta também as intempéries, o risco de incêndio no verão, natureza em bruto e a ameaça constante da população de veados que teima em visitar as plantações de António Carlos. Quase sempre sozinho, o único habitante limpou, reflorestou muitos terrenos em volta da aldeia e assim fez nascer o negócio “Planta do Xisto”.
Lúcia-lima, cidreira, perpétua roxa, alecrim, tomilho e tantas outras espécies aromáticas são algumas das plantas que tomam conta dos terrenos que outrora eram de floresta desgovernada. Foi graças a este “bosque” que o fogo “driblou” a aldeia em agosto do ano passado, sem entrar pelas casas. Afinal, todo o trabalho árduo, à chuva e ao sol, dias a fio, deu resultado. Atualmente, além da venda das plantas aromáticas, António Carlos dedica-se também aos workshops de destilaria e óleos essenciais.

Forno japonês é “ex-libris” para artistas
«Um forno com características únicas». É assim que Sérgio Alves descreve o forno sasukenei - forno sem fumo- instalado na zona do atelier. Projetado por Masakazu Kusakabe, mestre ceramista japonês, o forno sem fumo é um bestseller da aldeia da Cerdeira e um motivo de visitação por muitos ceramistas de todo o mundo interessados em conhecer a peça. A preocupação ambiental e com os incêndios estiveram na origem deste forno.












