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“Entendo que será inevitável a existência de uma instituição de ensino superior única em Coimbra”

Amílcar Falcão entra domingo no último ano como reitor da UC. Ainda sem balanço, está certo de que 2026 vai ser “um ano animado”

Diário de Coimbra - A Universidade de Coimbra assinala dia 1 de março 736 anos. Como perspetiva o futuro da instituição? Alertou, recentemente, para o perigo de se crescer sem estratégia, dizendo que a UC não tem condições para atingir determinados níveis. O que queria dizer em concreto?

Amílcar Falcão - A Universidade de Coimbra, neste momento, tem uma dimensão, temos de trabalhar com esta dimensão e otimizar a forma como temos resultados com esta dimensão. Naturalmente que para nós podermos ambicionar a crescer, temos de consolidar bem aquilo que temos ao dia de hoje. Qualquer instituição, mediante as suas características e a cada momento no tempo, deve otimizar a dimensão que tem. Nós, neste momento, ainda temos espaço para otimizar a dimensão que temos, mas não vamos estar mais 100 anos a otimizar a dimensão. Portanto, alguma coisa terá que acontecer nos próximos largos anos, ou curtos, depende, que nos obrigue a crescer. Mas, esse crescimento tem que ser um crescimento sustentável e com uma estratégia muito precisa. Nós não podemos ambicionar só a ser maiores e ter mais gente. Isso tem implicações financeiras, tem implicações nos rankings, tem implicações na internacionalização, tem implicações em várias áreas e a gestão da Universidade necessita de equilíbrio, bastante equilíbrio. É um equilíbrio bastante difícil de conseguir. Quando há um desequilíbrio nessa gestão, a Universidade ressente-se. Vou-lhe dar um exemplo: se nós agora tivermos que ser obrigados a contratar pessoas compulsivamente e não temos dinheiro para lhes pagar, isto vai implicar um reajuste necessário em muitas outras áreas da universidade. Nós fomos afetados agora pela tempestade, mas podíamos ter sido muito mais afetados. Também obrigaria a reajustar as coisas, não é? Quando foi da pandemia tivemos que fazer muitos reajustes. O que eu quis dizer não é que a universidade não pode crescer, o que eu acho é que para crescer tem que querer crescer. Isso implica uma estratégia, uma visão, uma ambição e um compromisso. Nós não podemos crescer por crescer, só porque entendemos que se tivermos mais cursos, mais vagas, vamos ficar maiores. Isso não existe, isso não é verdade, isso não é assim que funciona. Quando se olha para uma universidade, pensa-se uma universidade pequena quando está abaixo de 20 mil estudantes, de entre 20 mil e 50, média, e a partir de 50, grande. Nós estamos na média, estamos com cerca de 30 mil e, portanto, não estou a ver com facilidade que nós, num período de tempo muito curto, consigamos, ou até tenhamos condições como cidade do ponto de vista geográfico, do ponto de vista do país que temos, na ausência de aeroporto na região de Coimbra, etc., de termos uma universidade com 100 mil alunos. Eu acho que isso seria pensar neste momento errado. Devemos ser conscientes daquilo que temos, conscientes daquilo que podemos. A Universidade tem sempre espaço para crescer e mais do que crescer tem espaço para melhorar.

E esses passos têm sido dados, falava da questão do aeroporto. As acessibilidades são fundamentais para esse crescimento?

Sim. Porque, apesar de nós estarmos do ponto de vista de trabalho, conectados pela internet, digitalmente, nada substitui a presença da pessoa num congresso, numa reunião, em vários eventos, dentro e fora do país, principalmente fora do país. E nós temos a questão do aeroporto, que eu não creio que seja tão dramática quanto isso, mas não deixa de ter a sua influência, além de que falo do aeroporto como exemplo, mas, provavelmente, até nem é o melhor exemplo, porque, para nós, é pior existirem duas áreas metropolitanas que nos estrangulam. E portanto, há aqui um conjunto de fatores que Coimbra tem e que tem de saber lidar. Nós temos de fazer das nossas fraquezas oportunidades e não ficar a chorar por causa disso. Eu acho que esse é o segredo para Coimbra, Universidade e Coimbra, cidade e Coimbra, região.

E que fraquezas são essas?

O envelhecimento da população, a ausência bastante pronunciada de emprego. Hoje em dia, temos pouca industrialização aqui na região, principalmente na cidade e no concelho. A habitação é uma questão crítica. É verdade que temos habitação mais barata do que Lisboa ou Porto, mas, apesar de tudo, a habitação é cara, para a bolsa dos nossos estudantes e estamos a falar numa universidade que vive com 75% de estudantes deslocados. Portanto, há aqui um conjunto de fatores que nós temos sempre de ter em atenção e que temos de saber conjugar. Por exemplo, temos uma refeição social muito barata, porque entendemos que essa é uma forma de apoiar os estudantes deslocados, mas essa refeição mais barata tem custos. Temos a refeição mais barata, mas somos nós que estamos a suportar. O estudante não está a suportar. Mas uma cidade como Lisboa ou Porto não precisa fazer nada disso, porque os estudantes estão lá e vivem lá e a família está lá. Por outro lado, também é verdade que a segurança, as tradições académicas, o prestígio da Universidade de Coimbra dentro e fora do país, também são fatores atrativos. Portanto, temos que saber equilibrar as coisas e conseguir levar por diante a nossa universidade, sempre com o objetivo de sermos mais fortes. Ser mais forte não necessariamente significa ser maior. À mesma dimensão, podemos ter uma capacidade diferente de intervenção e força, digamos assim. Creio que, neste momento, estamos num momento muito interessante para a dimensão que temos. Toda a gente sabe que eu entendo que será inevitável a existência de uma instituição de ensino superior única em Coimbra. Mais ano, menos ano, vai ter que acontecer.

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Fevereiro 27, 2026 . 15:59

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