
“Desafio do Paracetamol” do TikTok pode ser fatal
A “competição” é viral, nasceu no TikTok e pode matar. Ninguém sabe como surgiu mas já tem inúmeros seguidores, e as consequências podem ser trágicas: os adolescentes são incentivados, no desafio viral do TikTok, a ingerir doses excessivas de paracetamol. Quem aguentar mais tempo até ser hospitalizado, ganha. A competição, que já se espalhou por vários países, é perigosa, pode causar lesões graves e pode mesmo ser fatal.
Até ao momento, no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), não há conhecimento de nenhum caso relacionado com esta situação, mas Dulce Diogo, coordenadora da Unidade-de-Transplantação Hepática de Adultos, e Nuno Silva, médico intensivista e sub-especialista em doenças do fígado, realçam os perigos de aderir a esta desafio.
Todos os fármacos, e não este em particular, têm uma dose máxima de segurança. «Caso haja, efetivamente, uma situação de toxicidade, as primeiras horas em termos de tratamento são fundamentais», advertem os especialistas, ao Diário de Coimbra. Como tal, «aguentar o máximo possível em casa pode determinar completamente o prognóstico».
Os médicos sublinham que o paracetamol, como todos os fármacos, «é seguro» mas tem doses máximas que não devem ser ultrapassadas». «Tomados mais do que as doses recomendadas pode levar, no limite, a uma transplantação. «Implica que a pessoa já esteja gravemente doente», advertem.
Em casos limite, a situação pode levar à falência hepática e à necessidade de um transplante
Inicialmente a intoxicação é silenciosa e não dá grandes sinais até ser uma situação grave, mas pode levar a sonolência náuseas, vómitos e esse «é o grande problema». Os jovens não dizem aos pais e quando começa a sintomatologia há um período «em que fármacos podem ajudar e reverter a situação», que normalmente é até às 8/10 horas da toma excessiva.
Os alarmes já “soaram” em Portugal, com o registo de uma jovem intoxicada após tomar 10 gramas do fármaco, em Lisboa. Em Coimbra, há registo de dois contactos para orientação em que o paracetamol é um dos fármacos envolvidos, mas não quer dizer que haja uma relação direta, até porque são situações em adultos e este desafio foi “desenhado” para adolescentes.
O paracetamol, na dose de 500mg é de venda livre, mas o de 1 miligrama já não é de venda livre, «exatamente para impedir que haja tantas doses em casa das pessoas», sublinham Dulce Diogo e Nuno Silva.
Há também as situações de sobredosagem acidental, por exemplo, quando as pessoas estão engripadas e tomam vários medicamentos. Prolongam a toma no tempo o que leva a que, por vezes, aconteça.
Em casos limite, a situação pode levar à falência hepática e à necessidade de um transplante. «Há um tratamento que ajuda a diminuir os efeitos tóxicos do paracetamol, que não é eficaz a 100%, mas que limita pouco esses efeitos tóxicos e pode, em alguns casos, fazer com que haja uma melhoria e a pessoa não chegue à necessidade de transplante ou a uma falência hepática aguda grave. Podemos ter um tratamento que implica vigilância apertada, dos primeiros dias até a função hepática melhorada e ficar com a certeza de que a pessoa vai ficar livre de problemas de função de hepática.», explicam os médicos.
Os medicamentos não são para brincar
«Se os medicamentos estão em casa, não os vão comprar. Não devem ter em quantidades elevadas, pois o potencial de ser lesivo maior», acrescentam.
Embora haja muitas pessoas que se automedicam, procuram a informação correta, também há um grupo de pessoas que não procuram a informação correta e que se automedicam de forma não adequada, não procurando sites credíveis ou informações credíveis. «Deve haver essa consciencialização que as pessoas devem procurar a informação correta para cuidar de si e, em muitas ocasiões, não seria preciso ir ao hospital. Podemos nos automedicar e, por isso, é que existem medicamentos de venda livre. E também temos o farmacêutico para dar um conselho. Mas devem procurar sites credíveis e locais adequados para obter informação», referem.
Numa altura em que na vizinha Espanha há registo de vários casos de jovens, entre os 11 e os 14 anos que necessitaram de tratamento devido ao desafio, os especialistas sublinham a importância de esclarecer pais e crianças, de que a «a medicação pode ameaçar a vida».
É certo que há tratamentos mas estes podem não resultar e não há “fígados à espera” para transplantar quando é necessário. Além disso, dizem, quando há indicação de transplante pode também «haver algum perigo». «A indicação para transplante explica que probabilidade de morte dessa pessoa é sobre 80%, se não fizermos nada. Com o transplante reduz-se isso para 20%». Ou seja, o transplante confere um benefício mas a situação é grave e pode mesmo não haver um órgão disponível e, além disso, o transplante não resolve todos os problemas. Importa, por isso, reforçar, que é «uma situação muito grave que pode ter consequências para o resto da vida, em que se pode ficar com complicações mesmo que não seja transplantado, mas fica para o resto da vida se houver uma lesão hepática. Em casos extremos pode levar à morte.












