
Lojas da Baixa fechadas, bens salvaguardados e otimismo apesar do alerta
O alerta chegou ainda na noite de quinta-feira e fez logo “soar os alarmes”. Coimbra podia viver uma cheia centenária. O risco era que a Baixa, Santa Clara e as zonas envolventes podiam ficar inundadas.
Algumas pessoas, em situações de fragilidade, foram aconselhadas a sair de imediato das habitações, e foi mesmo recomendado que os habitantes destes locais preparem-se uma mala que levasse artigos para estarem três dias fora de casa.
Ao mesmo tempo que terminava a intervenção de Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, os comerciantes da Baixa rumavam às lojas para retirar e por a salvo tudo o que era possível. Já depois da noite ter caído, e com a chuva de volta, na rua Adelino Veiga o movimento era intenso.
Do interior dos estabelecimentos comerciais saíam vários produtos, outros eram colocados em lugares mais altos e outros ainda em espaços onde a água supostamente não chegaria.
Ontem de manhã, na Corina Sapataria, havia pouco mais do que prateleiras vazias. A proprietária Ana Brito contou ao Diário de Coimbra que foi uma «noite em claro» para poder retirar e «colocar em carrinhas» os produtos – sapatos, botas e carteiras -, que ali vende. «Foram para a zona de Santa Clara, num local onde a água não chega», partilhou.
«Começámos a tirar o que tínhamos em baixo, carregamos para carrinhas, e passámos outros para o piso superior», confirmou a comerciante, garantindo que esteve junto à loja até às 3h00, hora em que ainda havia «muita azáfama na rua».
«Todos os comerciantes estavam por aqui ontem à noite», disse, contando que a grande maioria elevou os seus produtos para evitar que se ficassem danificados, enaltecendo «a solidariedade» que se sentiu entre os comerciantes.
«Depois de salvaguardarem os seus bens, vieram perguntar se era preciso ajudar», realçou, emocionada, Ana Brito, que teve a ajuda de amigos e familiares para salvar o que é possível da invasão das águas.
«Ao fim de tantos anos, ver a loja vazia em meia dúzia de horas...», lamentou a comerciante.
Ana Brito elogiou o «alerta importantíssimo» da Câmara Municipal de Coimbra, para prevenir em caso de cheias. «Não podemos estar à espera que a água suba», rematou.
Ontem de manhã já os lojistas tinham grande parte dos artigos a salvo, que retiram ainda na noite de quinta-feira
A Baixa estava despida de pessoas e tinha mais montras vazias e muitas portas fechadas. Os sacos de areia à porta de muitos espaços comerciais, mostravam que as indicações foram cumpridas e que a prevenção estava a ser levada à risca.
No Largo do Paço do Conde, o cenário era idêntico. À porta da Ourivesaria Silva, há 30 anos instalada naquele sítio, recordavam-se cheias de outros tempos, - «há nove anos chegou aqui, a meio desta montra», diziam-nos – e elogiava-se o que tem sido feito nos últimos dias. Jorge Silva, proprietário da ourivesaria, e Fernanda Cardoso, funcionária, contaram-nos várias histórias de tempos antigos e em que a água pela cidade não era uma novidade. A ourivesaria é uma das mais antigas da cidade (já esteve instalada noutro local) por isso a questão das cheias não é nova.
Mas, ontem, parte da montra já não tinha nenhum artigo exposto. Tinha tudo sido retirado na véspera e ontem de manhã. E estavam preparados para “salvar” mais artigos da loja caso fosse necessário. Serenos e prontos para o que viesse. Foi este o cenário que aqui encontrámos e que era dominante nas zonas que podiam vir a ser mais afetadas.
A Praça do Comércio também não tinha movimento. Um ou outro espaço comercial de portas abertas, mas a maioria de portas fechadas. As esplanadas que ali existem recolhidas, e um cenário que fez recuar aos tempos de pandemia em que quase ninguém andava na rua.
No Largo da Portagem a exceção eram os elementos dos bombeiros e da proteção civil que ali estavam com as viaturas preparadas para o que pudesse vir.
As pessoas não se viam e o tráfego automóvel era quase nulo. Por um lado, a falta das aulas levou logo a que houvesse menos viaturas a circular, por outro muitos serviços e espaços comerciais – de todas as áreas de negócio – optaram por não abrir e, finalmente, também os transportes dos SMTUC registaram uma forte diminuição de autocarros na rua.
O movimento era pouco. Ruas vazias, sacos de areia nas portas, montras despidas e lojas fechadas. As pessoas acataram as indicações e, quem pôde, ficou mesmo em casa. As escolas fecharam todas, as públicas e as privadas, e isso ajudou a que fosse um dia atípico também no que ao movimento diz respeito.
Loja do Cidadão fechada apanhou todos de surpresa
Movimento esse que junto da Loja do Cidadão também era bem menor do que o habitual, porque este espaço de atendimento estava encerrado ao público, surpreendendo muitos dos que ali se deslocaram e que foram informados pelo Diário de Coimbra.
À porta do edifício, poucos minutos depois de a autarquia ter emitido a informação em relação ao encerramento da Loja do Cidadão, eram várias as pessoas apanhadas de surpresa com esta decisão, tomada tendo em conta a previsão de cheias na Baixa de Coimbra.
Daiane Silveira, natural do Brasil, mas atualmente a residir em Carregal do Sal, veio de propósito para uma marcação que tinha às 11h00. Ficou surpreendida ao ver as portas fechadas. «Não estava à espera e fico preocupada por não saber como se vai resolver e como vai ser feito o próximo agendamento. Tenho já trabalho e pretendo regularizar a situação», afirmou ao nosso Jornal. «Não faço ideia quando agora será», lamentou.
De perto chegou Laurinda, residente em Coimbra, que ali se deslocou para tratar de um assunto na Segurança Social. Ficou igualmente surpreendida pelo facto do espaço estar encerrado ao público, mas assumiu que com facilidade ali podia regressar. «Não é um assunto urgente e depois volto cá», confidenciou.
Uns mais insatisfeitos do que outros, os que pretendiam ir à Loja do Cidadão tratar de assuntos e não conseguiram lamentaram não haver, pelo menos um aviso na porta. Aliás, tal levou mesmo a que algumas pessoas ali permanecessem por um largo período de tempo na expectativa que o espaço multiserviços dedicado ao cidadão viesse a abrir.
Nalguns casos, a pior confirmação chegou pelo Diário de Coimbra, informando que a Loja do Cidadão ontem estava fechada e não abriria, como dava conta uma publicação do município de Coimbra nas redes sociais. Pararam a ouvir a informação mas depois seguiram caminho.
A vida não para, mas às vezes é preciso por-lhe um travão. E a situação prevista para ontem a isso o obrigou.












