
Girabolhos esteve em obra, mas faltou vontade política
Eis, de novo, o anúncio da Barragem de Girabolhos, a montante da Aguieira, como solução para as cheias do Mondego, a par de intervenções no canal e eventualmente na conclusão de uma obra com 50 anos. Se for como até aqui, e no “até aqui” já passaram duas décadas de cheias, prejuízos, promessas e retrocessos, nem sequer com obra no terreno será para levar 100% a sério. Porque já houve e foram canceladas.
Prevista no Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico (aprovado em 2007), a Barragem de Girabolhos foi adjudicada provisoriamente em 2008.
Em 2010 e 2011 são aprovados dois documentos relevantes: a Declaração de Impacte Ambiental e o RECAPE (Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução).
No relatório de acompanhamento público, também de 2011 e promovido pela Agência Portuguesa do Ambiente, é sugerido que as compensações ambientais previstas no RECAPE fossem geridas pelos municípios.
Segue-se o processo de aquisição e expropriação de terrenos e, em 2015, começa a empreitada de construção dos acessos às Barragem de Girabolhos e também à prevista para a Bogueira. O projeto de aproveitamento hidroeléctrico, com uma central reversível em cada uma das barragens, foi promovido pela Endesa Generación Portugal e Instituto Nacional da Água. Abrangia localidades dos Municípios de Gouveia, Seia, Mangualde e Nelas. Com as obras de construção de acessos no terreno, o PS, liderado por António Costa, torna-se Governo com apoio de PCP e BE, sucedendo a PSD/CDS. E em 2016 decide cancelar a construção das barragens de Girabolhos, já concessionada, e do Alvito (distrito de Castelo Branco, rio Tejo), com a justificação de questões jurídicas e financeiras.
60 milhões perdidos em decisão política
Nessa altura, a Endesa tinha já investido 60 milhões de euros, de um projeto de 500 milhões. Em audição parlamentar, em 2019, o então presidente da empresa, Nuno Ribeiro da Silva, explicou que a alteração dos termos do contrato da barragem tornou-se «fatal» e levou o grupo a suspender o projeto, para limitar os riscos.
«Girabolhos é uma história triste e traumática» e «muito frustrante», não tinha problema ambiental, nem de património arqueológico, histórico «ou o que fosse», lamentou o responsável, ao notar que os municípios envolvidos defendiam o projeto.
Instado a comentar o anúncio da ministra do Ambiente em Coimbra, de que o lançamento do concurso para Girabolhos seria até ao final de março, o presidente da ABBM diz que recebeu a notícia «com agrado», mas o histórico aconselha poucas euforias
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