
Trio de jovens responde por quatro crimes em dois dias
O Tribunal iniciou ontem o julgamento de três jovens que, em 2024, praticaram quatro furtos em Coimbra no espaço de dois dias. Na altura dos factos, dois tinham 17 anos e um 16 anos, andavam fugidos de uma instituição de reabilitação de toxicodependentes, de Palmela, e queriam regressar. Sem dinheiro para comer ou comprar bilhetes de volta, optaram por assaltos em vez de pedirem ajuda à PSP. Atuaram sempre em trio, mas só dois compareceram no julgamento, sendo reconhecidos pelas quatro vítimas - três adolescentes e uma senhora -, eventualmente escolhidas por convicção de que não ofereceriam resistência.
Nas quatro situações, pelo que se percebeu em audiência, usavam camisolas com capuz. No primeiro caso, na tarde de 15 de outubro de 2024, abordaram um jovem junto à Escola D. Maria. Depois de lhe bloquearem a passagem, disse em julgamento, retiraram-lhe o telemóvel e auriculares, de valor superior a 600 euros, e ficaram com o cartão da escola, advertindo-o para não ir à Polícia. Se o fizesse, relatou, disseram que iam à escola «bater-lhe». Foi ainda obrigado a desbloquear o telemóvel e a apagar aplicações de localização.
Na manhã do dia seguinte abordaram um jovem na Rua Miguel Torga, quando manuseava o telemóvel. Em declarações ao Tribunal, a vítima disse que inicialmente não percebeu o que queriam e ainda lhes deu dois euros, mas foi agarrado e retiraram-lhe o telemóvel, de valor a rondar os 150 euros. Pela hora de almoço desse dia, na Rua Padre Estêvão Cabral, nas imediações da Segurança Social, abordaram uma mulher que estava sentada num banco a falar ao telemóvel, com a carteira ao lado, encostada ao corpo. Um dos arguidos agarrou na carteira e fugiram os três para a Avenida Fernão de Magalhães. A carteira seria abandonada junto ao Mc Donald´s , sem documentos pessoais, cartões de crédito e algum dinheiro, mas com a chave do seu automóvel. A testemunha foi a única que não reconheceu nenhum dos dois arguidos presentes.
A quarta vítima foi outro adolescente, ainda nesse dia 16. Abordado pelas 18h00 na Rua Jerónimo Baía, ficou sem o telemóvel, avaliado em 600 euros, sob ameaça de levar «um murro» se não o fizesse, relatou em Tribunal. Ficaram também com auriculares sem fios e um relógio, avaliados respetivamente em 120 e 250 euros, e uma nota de cinco euros que tinha na carteira. O telemóvel estava bloqueado, tentaram aceder mas não conseguiram e o jovem não facilitou a senha. «Ao vir embora chamaram-me e devolveram o telemóvel», testemunhou a vítima.
O relógio tinha um localizador e, após queixa à PSP, os três jovens foram detidos ainda nesse dia, nas proximidades da Quinta da Maia, com os artigos furtados (excepto dinheiro e um dos dois telemóveis subtraídos), que seriam restituídos aos proprietários.
Os três arguidos estão acusados pelo Ministério Público (MP) de quatro crimes de roubo em co-autoria, «fazendo uso da sua superioridade numérica», pela ameaça «contra a vida», ou ainda pela subtração, atingindo as vítimas «na sua integridade física». Na primeira audiência do processo, julgado por Tribunal Coletivo, uma das vítimas disse, em resposta a questões colocadas pela procuradora da República, que levou «um empurrão, único contacto físico», enquanto outra disse que a agarraram com força. As outras duas disseram que foram abordadas, cercadas, mas não relataram agressões.
A magistrada do MP requereu dados ao Instituto dos Registos e do Notariado sobre o arguido ausente, incluindo fotografia, para apresentar às vítimas em próxima audiência, na perspetiva de reconhecimento, «relevante para a descoberta da verdade». Em 2024, a sequência dos crimes causou alarme social.
Dinheiro para comer e regressar a Palmela
Na audiência ouviram-se as gravações prestadas às autoridades pelos dois arguidos presentes, após a detenção. Admitida a fuga da instituição de Palmela e os crimes, disseram que vieram para Coimbra, cidade de um deles, com a ideia de ficar em casa de um amigo, o que acabou por não acontecer. Negaram que vieram com o intuito ou plano de roubar e assaltar, o que aconteceu porque tinham fome e a perspetiva de conseguir dinheiro com a venda de bens furtados, o que não lograram. Sem lugar onde ficar, argumentaram que queriam voltar para a instituição de Palmela, mas não tinham dinheiro para os bilhetes de comboio. Pedir ajuda à Polícia, uma das possibilidades, estava fora de questão, com um deles a explicar que já o tinha feito uma vez.











