
ESTeSC vai ter “modelo único e disruptivo em Portugal” na área das terapias
A Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra vai continuar a ser a sua casa nos próximos quatro anos. Com que espírito dá continuidade a esta missão?
Com o mesmo espírito de inconformismo, da busca permanente da excelência, da busca permanente em sermos melhores em tudo aquilo que fazemos, quer na parte do ensino, da investigação, quer na parte da relação com a comunidade. E, portanto, em jeito de balanço, foram quatro anos de que toda a comunidade, pelo trabalho que desenvolveu, deve sentir-se muito orgulhosa. Foi uma transformação radical, quer em termos de infraestruturas, quer físicas, quer laboratoriais. Assumimos aquilo pelo qual nos candidatamos no primeiro mandato: colocar a escola para fora dos muros que a rodeiam e acho que isso foi bastante visível e patente naquilo que foi a nossa atividade. Nos próximos quatro anos estaremos, mais uma vez, ao lado dos estudantes, para os estudantes, sem esquecer o essencial, que são as pessoas.
Do mandato anterior, que feitos recorda?
Em primeiro lugar, a renovação dos espaços. Tentamos dar vida à escola, promovendo uma maior humanização e interação entre as pessoas, colocando-as mais próximas com a criação de espaços de trabalho abertos e comuns o que, no século XXI, até é bom do ponto de vista mental. Falta-nos apenas requalificar um espaço, o que irá acontecer, se tudo correr bem, durante o próximo semestre. Vamos criar também um novo espaço para os alunos. Uma escola para se desenvolver não pode viver à custa da invenção de espaço, tem que o criar o que irá acontecer com o novo edifício no parque B, depois de, em conjunto com a Escola Superior de Enfermagem da Universidade Coimbra, ficar pronto o novo parque de estacionamento o que deverá acontecer até final de abril.
De resto, tudo o que fazemos aqui tem no aluno o objetivo final. A escola existe porque existem alunos, não é porque existam funcionários, docentes ou não docentes. Melhorar as condições da escola tem de ser a nossa prioridade de investimento e, neste sentido, temos a necessidade urgente de criar um espaço que seja climatizado, onde os alunos possam interagir e trabalhar sem ser numa biblioteca. Falo do Student Lounge que arranca este mês e deverá estar pronto até junho.
E a nível formativo propriamente dito?
Em todos os cursos, oito atualmente, tivemos também como missão associar a cada licenciatura um mestrado, facto importantíssimo para o financiamento. Porque o modelo de gestão da instituição tem que ser garantido através de ações formativas, de investigação e de prestação de serviços à comunidade. Neste sentido, é grande motivo de orgulho termos sido escolhidos pelo grupo internacional IGHS, com sede em Coimbra, para colaborarmos na formação no Hospital Internacional de Omã. Esta parceria vai estender-se ao Dubai, ao centro que o grupo está a preparar. Atualmente, contamos já com 26 cursos de formação avançados no Dubai para reforçar as competências desses profissionais públicos.
"Assumimos aquilo pelo qual nos candidatamos no primeiro mandato: colocar a escola para fora dos muros que a rodeiam e acho que isso foi bastante visível e patente naquilo que foi a nossa atividade"
Que projetos gostaria de ver concretizados no próximo mandato?
Nos próximos quatro anos, resolvida a questão das infraestruturas e do investimento em equipamentos laboratoriais e remodelação dos espaços, obviamente que o nosso foco vai ser muito mais conceptual no que diz respeito à oferta formativa, no que diz respeito à reorganização dos cursos existentes e naquilo que é para mim algo disruptivo na história desta instituição que é a abertura do polo da escola no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro, Rovisco Pais, que vai arrancar já em setembro deste ano. O curso de Terapia Ocupacional já foi acreditado e em setembro, se tudo correr bem, teremos os primeiros alunos a ter aulas neste campus que, como disse, é disruptivo porque pela primeira vez haverá uma instituição pública onde os alunos vivem, estudam, divertem-se, comem, investigam e têm aulas práticas. Um modelo único em Portugal de uma instituição pública.
Vamos começar pela Terapia Ocupacional mas já começamos a dar os primeiros passos no sentido de, em 2028, podermos ter Terapia da Fala e posteriormente Ortoprotesia. Este é um projeto até 2030 no qual é muito importante destacar o papel fundamental dos representantes da Câmara Municipal de Cantanhede e da ULS de Coimbra. Esta foi uma ideia apresentada por mim, mas agora é um sonho conjunto entre as três instituições em criar algo diferente e único em Portugal no âmbito das terapias.
Porquê o foco nesta área?
Portugal, ou qualquer país da Europa, está a envelhecer à velocidade de luz e portanto a necessidade de cuidados na população mais envelhecida passa muito pela área das terapias. Mas o motivo principal não é esse. Nós continuamos a ser a Escola Superior de Tecnologia de Saúde de Coimbra, havia a do Porto e a de Lisboa mas mudaram de nome, passaram a ser apenas escolas superiores de saúde. Nós vamos manter a nossa essência porque nesta área há 18 profissões que são reguladas, das quais 12 formamos cá. Das que não temos, e que são determinantes para nós, integram a área das terapias, nomeadamente a Terapia Ocupacional e a Ortoprotesia. Associado a isso, está um outro fator determinante.
Tenho para mim que o sistema de ensino superior em Portugal só faz sentido se estiver associado ao tecido social e económico da região. Portanto, sendo o Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro uma estrutura única em Portugal, faria sentido criarmos cursos associados a esta área. Criar em Coimbra um cluster na área do ensino, da investigação e da prestação de cuidados na área das terapias faz todo sentido. Há aqui, efetivamente, algo que é mesmo disruptivo para a cidade, para o país, o facto de concentrarmos no mesmo campus o ensino, a investigação, a prática clínica e a transferência de conhecimento. Este é nosso maior desafio para o próximo mandato entre outros que temos porque há desafios determinantes não apenas para a nossa escola mas para todo o ensino superior em Portugal.
Considera que o mérito dos jovens é reconhecido?
Esse é um dos problemas no país e que tem a ver com a captação dos jovens porque estamos a assistir ao que tecnicamente se chama de compressão salarial. Ou seja, há progressivamente, e bem, o aumento do salário mínimo, mas os restantes salários não sobem. O que significa que o salário mínimo se aproxima cada vez mais do salário médio, levando os jovens a pensar se vale a pena prosseguir os estudos se, do ponto de vista salarial, não vão ter grandes vantagens. Considero que este é um desfio para o país, de adaptar-se e reformular-se no sentido de reconhecer o mérito. Nós temos jovens fantásticos. Claro que os melhores são os que estão e saem da ESTeSC porque desenvolvem uma matriz identitária muito própria, muito solidária e muito humana. Tenho um orgulho enorme dos nossos alunos. Mas depois o mercado não reconhece essa competência, e é por isso que depois a maior parte quer emigrar. Nos países ricos com mania de pobre, ser competente vale a pena. Num país pobre com mania de rico, queremos igualar tudo e as pessoas não são todas iguais. O sistema não tem capacidade de premiar quem tem mérito e por isso o país tem que se reinventar, porque não podemos continuar presos no passado, onde ganham todos igual, independentemente de serem competentes ou incompetentes, trabalharem muito ou pouco. O país tem de encontrar um modelo para fixar os jovens, e esse modelo tem claramente a ver com o reconhecimento do mérito e das competências.
“A cidade de Coimbra não tem capacidade para duas instituições de ensino superior”
Referiu desafios determinantes nos próximos anos, não só para a ESTeS como para o ensino superior em Portugal. Quer dar alguns exemplos?
O país vive um pouco como a avestruz, com a cabeça enterrada na areia à espera que a tempestade passe, e a tempestade não vai passar. Para termos uma ideia da dimensão do que estamos a falar, no século passado Portugal esteve muito próximo dos 200 mil nascimentos, no primeiro ano deste século, em 2000, registou cerca de 160 mil, e desde essa altura até agora caminhamos vertiginosamente para menos de metade desse valor. Sendo que o pico máximo da diminuição foi em 2021, nascendo apenas 79 mil crianças em Portugal. Se o sistema de ensino superior foi alimentado sempre acima dos 100 mil nascimentos, neste momento estamos na curva de descida vertiginosa que terá o seu pico em 2038, o que significa que os responsáveis políticos e institucionais deveriam reorganizar a oferta formativa, a rede e o número de instituições, nomeadamente na cidade de Coimbra.
Quer explicar?
A cidade de Coimbra não tem capacidade para ter duas instituições de ensino superior e, em muitos casos, com oferta formativa replicada. Eu espero bem que haja bom senso, que haja capacidade de diálogo, porque nós, enquanto administradores ou gestores da coisa pública, temos a obrigação de zelar não apenas pela nossa instituição, mas olhar pelo todo. E se isto não for feito, Coimbra vai desaparecer do mapa em termos de ensino superior. E porquê? Porque o ensino superior está a regionalizar-se. Costumo dizer que se colocarmos o compasso em Coimbra e abrirmos até Aveiro e fizermos uma circunferência, a cidade Coimbra está cercada por instituições de ensino superior, o que não é mau se tivéssemos população. Mas Coimbra, enquanto região, a grande CIM, não tem capacidade de alimentar duas instituições.
Este é um primeiro problema que é urgente o país refletir de forma séria e objetiva. Há muitos que acham que a fusão ou a integração, seja o que for, que é um retrocesso, mas claramente não é um retrocesso. Qualquer país desenvolvido da Europa já o fez. Qualquer país rico com mania de pobre já o fez. Um país pobre com mania de rico continua a dispersar e a gastar recursos, cujo retorno de investimento é nulo.

“O sistema de ensino público” em Portugal “está-se a canibalizar”
Na articulação que diz ser necessária entre instituições do ensino superior, o que faltará para que tal aconteça?
O sistema de ensino público está-se a canibalizar, e este processo de canibalização do sistema destrói-o. A questão da autonomia do ensino superior é para mim algo muito importante, mas ela só é verdadeira quando é exercida com responsabilidade. Exercer com responsabilidade significa que a oferta formativa das instituições, ponto um, tem que responder às necessidades do país, ponto dois, tem que responder ao tecido social e económico onde se insere. Ter um curso A numa região B onde já se sabe, a priori, que nos próximos 40 anos esta região B não vai conseguir fixar nenhum dos alunos que sai do curso A não é claramente algo de aceitável num país com 900 km de norte a sul e 300 km de Espanha até ao mar. Podem perguntar: mas não é importante ter ensino superior na região? É muito importante. Mas para que este ensino superior seja importante para desenvolver uma região tem que fixar lá pessoas, porque senão só desenvolve o mercado do arrendamento e dos bares noturnos. E com a remodelação que houve de Bolonha, a passagem pelo ensino superior ainda é mais curta. Os nossos cursos, felizmente, continuam a ser de quatro anos. Portanto, o país tem de acordar para esta realidade demográfica. Não estamos a preparar o país para as gerações futuras e a ESTeSC quer estar na linha da frente dessa preparação. Essa vai ser uma das nossas lutas durante o próximo mandato, bem como a questão do financiamento.
Depois da inauguração dos laboratórios INNOV2CARE, há mais algum investimento previsto nesta vertente?
Em número redondos, no último mandato investimos cerca de 4 milhões de euros em equipamento e infraestruturas, a maior parte financiada por programas do PRR e contamos, até junho deste ano, investir cerca de mais de 500 mil, sobretudo em equipamento de simulação adicional ao do INNOV2CARE, para o qual só nos deram uma verba de 600 mil euros que já está toda executada. Gerir esta escola do ponto de vista tecnológico é uma tarefa muito, muito difícil, porque vamos passar a ter nove licenciaturas diferentes, cada uma com a sua especificidade do ponto de vista tecnológico, umas que precisam de alguns milhares de euros e outras de centenas de milhares de euros. Um gestor público que se preze, mesmo que lhe seja dado esse dinheiro, não pode desatar a investir em tecnologia sem garantir que tem capacidade de a manter. Ou seja, por cada milhão de euros que eu investir em equipamento tenho que garantir 120 mil euros por ano adicionais ao meu orçamento para o manter.
Ora, como provavelmente toda a população sabe, a dotação orçamental que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação dá ao ensino superior, no caso concreto da minha instituição, apenas chega para pagar 75% dos salários. Ou seja, nós temos que, através da receita própria - que vem das propinas, das taxas dos alunos, do projeto de investigação e de prestação à comunidade - arranjar dinheiro para pagar o resto do salário e as despesas correntes. Não é uma tarefa fácil e o país também tem que olhar para isto e perceber que modelo de ensino superior quer. Quando se dispersa demasiado o investimento por instituições, que depois se canibalizam umas às outras, há a necessidade de tomar uma decisão. Não o fazer, tem um custo enorme e irrecuperável para a sociedade. É com base nessa esperança da melhoria do financiamento que eu vejo a evolução do sistema de ensino em geral, e desta escola em concreto, cuja história foi sempre feita com base em sangue, suor e lágrimas de todos os docentes, não docentes e dos próprios alunos que têm uma envolvência notável em tudo isto.

"Mensagem de esperança no futuro"
Toma hoje posse. Faz-se acompanhar da mesma equipa?
Sim. Em equipa que ganha não se mexe.
Que mensagem gostaria de deixar?
Uma mensagem de esperança no futuro. A escola está bem do ponto de vista das infraestruturas, do ponto de vista tecnológico, do ponto de vista dos recursos humanos, está bem naquilo que é a sua oferta formativa, está bem naquilo que são os seus clientes, ou seja, os alunos. Claro que temos consciência de que não há escolas perfeitas, nem há escolas que não cometam erros.
Todas as escolas cometem erros, sendo que as melhores são aquelas que cometem menos, e as que dizem que não cometem erros são normalmente as que cometem mais. Portanto, nós somos uma escola que está, do ponto de vista da gestão, bem organizada e que tem um bom funcionamento, apesar de termos metade dos funcionários que outras outras instituições de ensino superior têm com o mesmo número de alunos.
É por isso que quero deixar aqui uma nota de apreço aos funcionários que fazem um esforço titânico para termos os melhores serviços na resposta aos nossos estudantes com o menor número de pessoas. Fazem um esforço titânico para que isto funcione e por isso é a minha mensagem hoje é de esperança, dizendo que face a todo o investimento que tem sido feito e face a todo o trabalho que foi e vai ser desenvolvido, o futuro da escola só pode ser promissor.
Este será o meu último mandato e por isso quero deixar muito claro que o meu empenho e dedicação nos próximos quatro anos - e de toda a minha equipa - tem como objetivo deixar um legado dos quais todos se possam orgulhar e que possam, se assim o entenderem, continuar
a desenvolver nesse sentido.











