
Apostamos que vai ter bacalhau à mesa esta noite. Mas sabe porquê?
Serão poucas as casas portuguesas em que, esta noite, o bacalhau não esteja à mesa. Cozido, como manda a tradição, mas também assado, confitado... à posta e em caras de bacalhau, arriscamo-nos a dizer que o "fiel amigo" é presença quase tão assídua como a do Pai Natal, com alguns, que até não apreciam tanto, a fazer um esforço para não estragar a magia do Natal à mesa.
O Diário de Coimbra foi tentar perceber, por que, afinal, comem os portugueses bacalhau na noite da consoada e recorreu ao Centro Intepretativo da História do Bacalhau para procurar explicar esta tradição.
De acordo com este organismo, instalado em Lisboa, não é possível especifica, em concreto, a origem do consomo do bacalhau na consoada. «São poucas as referências em obras etnográficas ou mesmo na literatura», avança. No entanto, «o fiel amigo tem vindo a fazer parte da magia natalícia pela nossa história fora» e tal terá tido origem na Idade Média.
«Dado o calendário cristão obrigar a cumprir-se o jejum perto das principais de festividades religiosas e igualmente por ser proibido o consumo de carne neste período, os portugueses começaram a consumir o peixe e, mais tarde, o bacalhau seco, que era de fácil acesso em qualquer parte do país, tornando-se no rei do Natal», explica o Centro Interpretativo que, citando Ramalho Ortigão no seu livro “Natal Minhoto”, se refere à «riqueza de uma mesa de ceia de Natal no Norte do país apesar de, nesta altura, a sua confeção ser mais próxima ao “Bacalhau à Provençal” que também é descrito por Lucas Rigaud, cozinheiro real, em 1780».
«Existem, a partir daí, várias referências a este prato, que passam pelo bacalhau acompanhado por hortaliças descrito por Ferra Júnior; à “A Noite de Natal no Porto” de Assis de Carvalho que revela a proximidade da família nesta altura do ano na companhia do peixe; assim como em 1923, Santos Graça em “O Poveiro”», continua, dando conta que a tradição que hoje é tão portuguesa e que se repete de Norte a Sul do país, ter-se-á iniciado a Norte de Portugal, uma vez que noutras regiões, preferiam uma consoada menos magra com o uso de carnes como o peru ou mesmo o porco, que interrompiam o jejum após a Missa do Galo.
«No início do século XX, a tradição no Alentejo era o porco, no Funchal o porco, uma canja e cálice de vinho na madrugada na consoada, a Norte a acompanhar o bacalhau, um polvo», descreve o Centro Interpretativo, adiantando que só passada a revolução de 1820, os restaurantes e casas de pasto «passaram a generalizar a utilização do bacalhau, tornando-se este quase obrigatório para qualquer refeição social, tertúlia ou convívio».
«A vulgarização desde consumo parece ter surgido após a Segunda Guerra Mundial dado o abastecimento de bacalhau ser regulamentado pelo Estado Novo. Tendo o bacalhau chegado, desta forma a todo o país, também a televisão impulsionou a propaganda do regime que refletia neste prato a humildade e simplicidade que deveria ser a mesma do povo português».









