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“O suicídio não é um tabu. Devemos falar, não devemos ter medo de falar sobre ele”

Em Portugal, três pessoas suicidam-se por dia. Para ajudar a combater este flagelo foi lançada, a 10 de setembro, a Linha 1411 de Prevenção do Suicídio, coordenada por José Carlos Santos, especialista em Suicidologia e Saúde Mental e professor da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra que fala na necessidade de uma abordagem global num comportamento que é prevenível

Diário de Coimbra Assumiu a coordenação da Linha 1411, criada a 10 de setembro para a Prevenção do Suicídio. Como surgiu e que importância tem esta linha?

José Carlos Santos A Linha 1411 surgiu do envolvimento dos cidadãos. Primeiro houve uma petição na Assembleia da República para a criação da linha. Posteriormente, houve uma discussão no Parlamento e foi aprovado um projeto-lei, da autoria do Livre, por unanimidade para a criação da Linha de Prevenção do Suicídio. Em finais de 2023. A lei foi aprovada em 2024. Começámos a trabalhar na Linha, por via da Coordenação Nacional de Saúde Mental, com a secretaria de Estado da Saúde e com a SPMS - Serviços Partilhados do Ministério da Saúde. A 10 de setembro – Dia da Prevenção do Suicídio - arrancámos com a linha.

Que caraterísticas tem esta Linha e o que a distingue de outras que existem com o mesmo fim?

Um aspeto importante é que funciona 24 horas, sete dias por semana. Depois, é financiada por via do Orçamento de Estado. É outro aspeto relevante. Depois, as linhas que existiam até 10 de setembro em Portugal, na sua esmagadora maioria, estão subjugadas aos princípios dos “B-Frienders” e dos “Samaritanos”, o que implica duas questões. Uma é o duplo anonimato. Ou seja, nem o atendente, nem o apelante, se identificam. Portanto, é uma relação anónima, ninguém sabe quem é quem. Outro aspeto é que são constituídas por voluntários. A esmagadora maioria das pessoas não tem formação em Saúde Mental, nem são profissionais de saúde. Têm formação, dada no recrutamento, mas não são profissionais de saúde. É preciso dizer que essas linhas têm uma importância muito grande e que esta nova Linha não as vem substituir. Vem, quanto muito, complementar e introduzir uma nova ferramenta.

Quais são as caraterísticas e especificidades da Linha 1411?

Nesta nova linha, as pessoas sabem quem é que está a atender e identificam-se. Sendo que podem manter o anonimato e isso não é impeditivo de serem ajudadas. Depois, o atendimento é feito por profissionais de saúde. Numa primeira fase, psicólogos, numa segunda fase, psicólogos e enfermeiros de saúde mental. Neste momento, são os psicólogos da Linha de Apoio Psicológico do SNS24 que asseguram a linha, depois de fazerem formação da Sociedade Portuguesa de Suicidologia e Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental. É especificidade da linha, ser assegurada por profissionais de saúde que podem encaminhar para o INEM, se acharem pertinente. Obviamente que, se há pessoas que optam pelo anonimato, não é possível saber onde é que estão, mas quando se identificam, é possível e tem sido... Preferencialmente as pessoas devem identificar-se. No entanto, desde o arranque da linha, a maioria não se identificou. É opção e não há nenhum stresse em relação a isso. A outra especificidade da Linha é ter um coordenador clínico, que no caso sou eu, uma pessoa que, ponto de vista clínico, gere situações e coordena a equipa.

"Foram atendidas 2.590 chamadas. 3,6% foram encaminhadas. Cerca de 100 pessoas estavam em elevado risco de morrer por suicídio"

A linha começou há menos de dois meses. Já é possível avançar com números?

A linha está numa fase inicial. Começou a 10 de setembro, mas já há números, sim. Até hoje [terça-feira], às 12h38, foram atendidas 2.590 chamadas. Destas, 3,6% foram encaminhadas para o INEM. Portanto, cerca de 100 pessoas, um pouquinho menos, estavam em elevado risco de morrer por suicídio e foram encaminhadas para o INEM. Do ponto de vista do género, 60% são do género feminino e 40% do masculino. Relativamente ao perfil, cerca de 44% está entre os 18 e os 29 anos - estamos a apanhar os jovens, o que é importante - e 25% estão entre os 50 e os 79 anos. Isto é relevante, porque o suicídio em Portugal é sobretudo de gente mais velha. A partir dos 65 anos é onde há mais suicídios. Nos jovens, entre os 18 e os 29 anos, o que é mais comum não é o suicídio consumado, o que significa que apanhamos aqui uma faixa grande de comportamentos autolesivos. E, de facto, os casos mais graves que exigem atendimento são exatamente os comportamentos autolesivos e ideação suicida. São os que têm aparecido na Linha com maior frequência. Há outra questão, que é dos tempos de espera, que é um aspeto importante. Neste momento, estamos com um tempo de espera de 35 segundos. É um indicador que é possível melhorar, mas é relativamente bom comparativamente com outras linhas. Por exemplo, nos EUA é entre 10 e 15 segundos, mas há outras que vão até 10 minutos. Diria que podemos melhorar, mas não nos envergonha, tendo em conta o panorama internacional.

Surpreendem estes números com menos de dois meses desta nova linha?

Relativamente ao número de chamadas, diria que não é surpreendente. E é expectável que venha a subir, por exemplo, no Natal, em que as pessoas se sentem mais sozinhas. Aliás, iremos prever essa situação. Relativamente às faixas etárias, de fato, não esperávamos tantos jovens a recorrer à linha. Estamos a especular, porque não temos dados, mas podem ser vários os fatores. Um é o acesso à informação e acessibilidade à Linha. Outro é o aumento da carga de doença mental nos mais jovens que é significativa, sobretudo no pós-pandemia. O facto de se manter o anonimato, não haver contacto face a face, ser por telefone, facilita que quem geralmente não recorre ao serviço de urgência ou à ajuda de um profissional de saúde mental, por timidez ou estigma, se sinta mais protegido. Porque na Linha não se fazem juízes de valor, não é uma Linha moralista, é uma Linha centrada nos problemas da pessoa, para os resolver e criar comportamentos alternativos ao comportamento suicidário.

Em Portugal há três pessoas por dia a cometer suicídio. Este é um fenómeno a crescer ou a tornar-se mais visível?

Se olharmos para o século XXI, podemos dizer que em Portugal há diminuição do número de suicídios consumados. Esse é um registo importante a ter em conta. Todavia, a velocidade a que se dá essa redução não é semelhante a outras situações de saúde, como mortes por enfarte de miocárdio, determinado tipo de tumores, em que a taxa de sobrevivência tem aumentado… A verdade é que a redução de suicídios não tem acompanhado este ritmo. Depois, Portugal – e não só - continua a ter um número expressivo de mortes por causa não identificada, e algumas, no nosso entendimento, serão mortes por suicídio. Há também a questão da religiosidade, que leva a que haja muitas vezes uma ocultação do motivo e método da morte.

José Carlos Santos

"O suicídio é prevenível. Há um mito de que quem se quer suicidar não avisa, suicida-se de qualquer forma. Não é verdade"

Que importância pode ter esta Linha, tendo em conta que a sociedade associa o suicídio a uma coisa quase inevitável, ou algo que não se previa que acontecesse, ou que aconteceu apesar de terem tentado evitar…

A primeira ideia que é preciso termos é que o suicídio é prevenível. E este é um aspeto muito relevante, porque há um mito de que quem se quer suicidar não avisa, suicida-se de qualquer forma. Não é verdade. O que a evidência diz é que há um período de ambivalência da pessoa antes de passar ao suicídio. A ambivalência é entre a morte e alguém que os ajuda a encarar a vida de outra forma ou modificar a vida. E o telefone pode entrar aqui. O telefone, como um profissional de saúde, uma pessoa de quem está em sofrimento e que, fruto de uma série de alterações, que podem ser de doença mental, não veem alternativa ao comportamento suicida. Por isso, é importante deixar a mensagem que o suicídio é prevenível. Outro aspeto importante é que o suicídio não é uma doença. É um comportamento.Embora, na génese dos comportamentos suicidários e o fator maior de risco seja a depressão, a sintomatologia depressiva, seguida de consumo de drogas, álcool, a esquizofrenia, a doença bipolar. Depois, outro mito que temos de combater é o de que não devemos falar sobre suicídio porque estamos a dar ideias...

Essa é uma questão, efetivamente…

Isso é um mito que existe na comunicação social e entre profissionais e alguns de saúde mental, infelizmente. Quando falamos de suicídio não estamos a dar ideias. A pessoa pode dizer: “não tinha pensado nisso, isso nunca me passou pela cabeça”; mas pode dizer: “falei com várias pessoas e ninguém considera essa possibilidade, mas quero falar sobre isso porque essa é uma ideia que não me sai da cabeça”. Portanto, falar com as pessoas de forma aberta é muito importante. Há pessoas que pensam: “eu não pergunto, porque não sei o que fazer a seguir”. Isso não é problema. Pode não ter ferramentas para lidar, mas pode acompanhar a um profissional de saúde mental, aos cuidados de primários ou à urgência ou ligar para a Linha 1411 e, lá, alguém tem uma resposta a dar. Não deixar a pessoa sozinha e acompanhar a pessoa no sofrimento é importante.

É aqui que a Linha 1411 entra, então?

A Linha entra como mais uma ajuda, mais uma ferramenta para esta pessoa. A Linha não é solução, é uma ferramenta que ajuda na solução, que é global, que é de todos e que extravasa os profissionais de saúde. A prevenção do suicídio não é exclusiva dos profissionais de saúde. O Ministério da Educação tem peso, o da Administração Interna também… Uma série de ministérios têm implicações. A pessoa pode ter ideação suicida, uma depressão, até pode tratar a depressão, mas se voltar para casa e não tiver emprego, se tiver que abdicar de comprar qualquer coisa, de pagar as propinas dos filhos ou de comprar comida para casa, as condições de vulnerabilidade mantêm-se. O que pretendemos é que haja uma resposta global, que incorpora todas as dimensões e obviamente mais uma vez a Linha é uma ferramenta.

Que papel tem a comunicação social nesta questão da prevenção do suicídio?

A comunicação social é muito importante. Há duas formas de a comunicação social estar envolvida. Primeiro, nós devemos falar sobre o suicídio. O suicídio não é um tabu. Devemos falar, não devemos ter medo de falar sobre ele. Aquilo que não podemos é falar do suicídio como falamos de outro assunto qualquer. Ir para a rua perguntar opinião às pessoas e não haver um profissional de saúde, que medeie as opiniões, às vezes irróneas, relativamente ao comportamento suicidário. A comunicação social pode ter um efeito nefasto, o chamado efeito Werther, criado depois do livro Goethe, “As aventuras do jovem Werther”. Ele está apaixonado por uma senhora com casamento de marcado, mas continua a viver aquele romance. No dia em que ela casa, ele suicida-se como arma de fogo. Com este livro, houve uma série de repetições de comportamentos, sobretudo de pessoas que tiveram desavenças do ponto de vista afetivo. O livro foi proibido à data, nos finais do século XIX. Mais recentemente, estudou-se o efeito Werther a propósito do suicídio do Kurt Cobain, dos Nirvana. A carta que ele deixou e que teve um efeito nefasto nos jovens. Há aqui uma identidade, há processos identitários entre a pessoa que morreu e a que passará a estar em maior risco de comportamento suicidário. Isto foi estudado para os jovens. Há também o caso de Robert Encke, um guarda-redes que morreu por suicídio. Na altura, a comunicação social fez diretos e uma série de reportagens sobre Robert Encke, mas ninguém disse que estava deprimido, que tinha faltado a uma consulta da psiquiatria, porque estava num processo de adoção e achou que se fosse ao psiquiatra não conseguiria adotar. Isso também levou a que houvesse uma série de repetições. Portanto, sempre que damos as notícias com pormenores do que aconteceu, com fotografias ou com reportagens no sítio onde aconteceu, estamos a fornecer processos identitários e a contribuir para um aumento dos comportamentos suicidas. Como é que a comunicação social pode ajudar? É com o efeito Papageno da “Flauta Mágica” de Mozart: um moço com uma desventura amorosa, que também pensa em morrer, mas que o grupo de amigos o suporta, dá apoio e ele ultrapassa a crise e passa a ter uma vida de felicidade, porque teve uma boa rede de amigos. O que a evidência nos diz é que sempre que a comunicação social dá um caso de sucesso, de alguém que passou por uma crise suicidária, mas que está mais ou menos equilibrado é bom para as pessoas. Assim, a comunicação social terá um papel importante na prevenção do suicídio.

Entrevista Ana E José Carlos Santos1

"Neste momento, o objetivo é tornar a linha conhecida, deixá-la disponível, diminuir o tempo de espera e aperfeiçoar o funcionamento"

 

Foram os mitos, tabus e o receio que temos de falar de suicídio que fez com que chegássemos à realidade que temos hoje?

Não sei se isolarmos um fator levará a uma diminuição do suicídio. Mas a evidência demonstra que quando há uma série de fatores alinhados, é possível prevenir o suicídio. O suicídio não é uma coisa que se possa isolar num único fator. Tem que ser um olhar global. Quando se criam sinergias no sentido da prevenção, consegue-se prevenir. Quando há medidas de aumento da literacia e cuidados de proximidade, há redução do número de suicídios.

Esta Linha é também uma forma de aumentar a literacia em relação ao suicídio?

A Linha tem como função a intervenção em crise. Se tiver um amigo em crise suicidária, posso ligar e os profissionais dizem-me o que posso ou não fazer, quais as possibilidades que tenho de ajudar. É algo lateral à Linha, que tem a ver com o aumento da literacia, mas a sua intervenção primordial é a intervenção em crise. Breve para encontrar alternativas ao comportamento suicidário.

Os números desta Linha 1411 são já reveladores das faixas etárias mais preocupantes...

Qualquer pessoa que tenha um comportamento suicidário está num sofrimento extremo, que é inadiável, incomportável e interminável. Uma forma de fugir do sofrimento é acabar com a própria vida, porque deixa de sofrer. Muitas vezes esse sofrimentos é fruto de uma doença mental, na maioria das vezes depressão, mas não exclusivamente. Nos jovens, aqui em Portugal não temos muitas situações de pactos suicidas, não é uma realidade nossa. Mas, obviamente, as redes sociais podem contaminar a relação. Nos idosos há a questão da sintomatologia depressiva ser muito frequente, mas agravada com muitas o isolamento.

Que objetivo se pretende alcançar com esta Linha?

Neste momento estamos numa fase muito inicial da Linha. Eu diria que quando a Linha 1411 fizer seis meses, teremos, com maior rigor, o perfil da pessoa que telefona, dos dias da semana em que telefona, das horas do dia em que telefona, de forma a articularmos uma boa resposta. Este é o objetivo da Linha de Prevenção do Suicídio. Toda a evidência demonstra que este tipo de linhas pode evitar comportamentos suicidários, mas neste momento, não consigo dizer qual o impacto. Claro que gostaria que, daqui a seis meses, tivéssemos dados de que diminuiu o número de suicídios em Portugal e que uma das ferramentas que foi utilizada foi a Linha. Mas neste momento ainda é cedo. Tem de haver relatórios de seis em seis meses. Nos primeiros seis meses teremos, certamente, dados com maior rigor relativamente à utilização da linha. Neste momento, o objetivo é tornar a linha conhecida, deixá-la disponível, diminuir o tempo de espera - que neste momento é pouco mas queremos que ainda seja menor - e aperfeiçoar o funcionamento.|

Outubro 30, 2025 . 09:42

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