
Dia do Farmacêutico: uma profissão que pode fazer a diferença na saúde
Hoje é Dia de São Cosme e São Damião, padroeiros da profissão farmacêutica, tendo sido adotado, desde 1989, como Dia Nacional do Farmacêutico. A sessão solene comemorativa decorre no Cineteatro Paraíso, em Tomar, organizada pela Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos (SRSRA-OF).
No âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico é incontornável questionar: quais as maiores preocupações da classe profissional?
A maior preocupação dos farmacêuticos é, desde logo, poder servir os cidadãos de forma plena, aportando ao cuidado do doente toda a capacidade científica e técnica que a profissão comporta. Para isso, é necessário que sejamos chamados a participar nos espaços de decisão, sejam eles políticos, estratégicos ou de gestão em saúde. Muitas vezes, a perceção é a de que os farmacêuticos estão “arredados” dessas mesas, apesar da gestão do medicamento representar uma fatia significativa da despesa em saúde. Excluir quem melhor conhece o ciclo do medicamento, os seus efeitos e potenciais problemas relacionados com o seu uso, e ligar estes conhecimentos a cada doente, não é apenas um erro técnico; é um desperdício de recursos e de conhecimentos.
Sendo um setor relevante, ainda que silencioso, no serviço e sistema de saúde, passa a ideia de que os farmacêuticos são “arredados” da decisão política… e porventura da gestão da prática hospitalar, quando os medicamentos são uma despesa considerável…
Pois, é justamente isso a que me referia. É uma perceção infelizmente real. O farmacêutico tem sido, demasiadas vezes, afastado das instâncias de decisão política e de gestão, apesar de deter o conhecimento mais profundo sobre aquilo que representa uma das maiores fatias da despesa em saúde: o medicamento. Esta exclusão não é apenas injusta para a profissão, é ineficiente para o sistema.
Porque a questão é esta: a racionalização da despesa hospitalar não se faz apenas com cortes ou comparando tabelas de preços. Faz-se com ciência, com capacidade de avaliar a eficácia e a relação custo/benefício de cada medicamento, de gerir o seu uso racional e de antecipar riscos. Quem melhor do que o farmacêutico para aportar essa visão? O que falta, muitas vezes, é vontade política para integrar esta competência na governação da saúde.
Quando os farmacêuticos estão envolvidos na decisão - e há disso muitos exemplos - os resultados são claros: maior eficiência, mais segurança para os doentes e melhor aproveitamento dos recursos públicos. O silêncio a que a profissão tem sido remetida é, em si mesmo, um custo, e um custo que não podemos continuar a pagar.
"Quando os farmacêuticos estão envolvidos na decisão - e há disso muitos exemplos - os resultados são claros: maior eficiência, mais segurança para os doentes e melhor aproveitamento dos recursos públicos"
Há colaboração interdisciplinar?
Sim, e é inevitável que exista. A saúde faz-se em equipa. O farmacêutico não substitui médicos, enfermeiros ou outros profissionais, mas completa-os. Acrescenta rigor científico, capacidade de análise, conhecimento sobre terapêutica e segurança no uso do medicamento. Há bons exemplos de colaboração interdisciplinar em hospitais, em cuidados de saúde primários e até em projetos locais. O que precisamos é de alargar essas práticas e estruturar melhor a integração do farmacêutico em todos os níveis do sistema de saúde.
Que papel pode ter o farmacêutico na promoção e combate à iliteracia na saúde?
Um papel central. A farmácia comunitária é, para muitos cidadãos, o ponto de contacto mais próximo e mais frequente com o sistema de saúde. Temos uma rede capilar, distribuída por todo o território, que poderia ser ainda mais aproveitada para ações de educação para a saúde, prevenção da doença e acompanhamento dos doentes crónicos. O combate à iliteracia em saúde não se vence apenas com campanhas mediáticas: vence-se na proximidade, na relação de confiança, na repetição diária de gestos e esclarecimentos. É aí que o farmacêutico faz a diferença. Se a isto acrescentarmos o facto de, diariamente, entrarem nas farmácias portuguesas mais de meio milhão de pessoas, imagine o potencial de intervenção que existe neste domínio.
"A farmácia comunitária é, para muitos cidadãos, o ponto de contacto mais próximo e mais frequente com o sistema de saúde"
Populações envelhecidas e polimedicadas, automedicação, depressões transversais às idades e com peso crescente nos jovens. A proximidade das farmácias comunitárias não é um potencial desperdiçado na formação das populações e nos serviços de saúde?
Precisamente! Tal como eu dizia, o potencial é enorme, e infelizmente muitas vezes desperdiçado. As farmácias já desenvolvem múltiplos serviços, desde a medição de parâmetros clínicos à administração de vacinas, passando pela revisão da medicação, pela preparação individualizada da medicação, entre muitos outros. Mas podiam fazer muito mais se houvesse um enquadramento legal e contratual que valorizasse esse trabalho. Com uma população cada vez mais idosa e polimedicada, precisamos de um acompanhamento regular, próximo e especializado. Ignorar esta realidade é colocar em risco a sustentabilidade do próprio sistema.
Com está a correr a transição digital no setor?
Muito bem. O desenvolvimento tecnológico tem, hoje em dia, um impacto muito importante no setor da saúde, o que se tem revelado fundamental para agilizar processos e permitir uma gestão mais eficiente dos recursos.
O setor farmacêutico não é exceção, antes pelo contrário. Eu diria que, em todos os domínios do setor farmacêutico, temos sido pioneiros na implementação de soluções que envolvem a integração de tecnologias digitais para aumentar a eficiência, precisão e inovação em todas as áreas, desde a investigação e desenvolvimento de medicamentos até a gestão da cadeia de distribuição e envolvimento com os doentes. Essa transformação é impulsionada pela inteligência artificial, Big Data e telemedicina, entre outros, e no essencial o objetivo é o de criar uma indústria mais ágil, mais centrada no doente/cidadão e focada em caminhar progressivamente para os cuidados personalizados e para a monitorização contínua da saúde das pessoas.
Ao nível da farmácia comunitária, por exemplo, a transição digital tem vindo a transformar estes locais em espaços de saúde mais integrados, com serviços diferenciados de prestação de cuidados de saúde, de aconselhamento e de acompanhamento personalizado, nos quais o ato da dispensa de medicamentos, embora quase sempre presente, está arredado do foco principal da intervenção do farmacêutico.
"A transição digital tem vindo a transformar estes locais [farmácias comunitárias] em espaços de saúde mais integrados"
Tecnologia e investigação alimentam a esperança de melhores cuidados. Mas vai-se percebendo que as inovações, mormente de medicamentos, não serão para todos…
Esse é um dos dilemas éticos do nosso tempo. Vivemos tempos em que a ciência nos dá respostas extraordinárias, desde terapias celulares a medicamentos biológicos altamente específicos. Mas estas inovações chegam ao mercado com custos incomportáveis para sistemas públicos de saúde, mesmo em países desenvolvidos.
A questão não é apenas técnica ou financeira: é profundamente ética e política. Que sentido faz produzir soluções de ponta, capazes de salvar vidas, se depois ficam acessíveis somente a uma minoria, e sem que muitas vezes se perceba o critério dessas escolhas? O desafio do futuro não é apenas inovar, é democratizar o acesso à inovação e, entretanto, encontrar regras claras para o acesso. Há que responder às exigências da justiça social e da sustentabilidade.











