
Milhares de pessoas presenciaram “um dos mais brilhantes” desfiles da Queima das Fitas de Coimbra
Depois do divertido desfile humorístico que a Academia de Coimbra levou a efeito na tarde de 26 de maio de 1936, numa paródia à recriação histórica do cortejo medieval organizado no ano anterior pelo cineasta Leitão de Barros nas ruas desta cidade, como já anteriormente recordámos nesta página de memórias, o cortejo alegórico da Queima das Fitas voltou no dia seguinte a despertar o entusiasmo da multidão.
O Diário de Coimbra relatou com detalhe, na edição de dia 28, o «número mais sensacional da Queima das Fitas e aquele que o público aguarda sempre com a maior ansiedade». «O cortejo de ontem, pode afirmar-se sem sombra de exagero, foi um dos mais brilhantes dos que se realizam todos os anos por ocasião das populares e já tradicionais festas académicas», avaliou.
Na tarde de quarta-feira, os estudantes fizeram desfilar pela cidade «17 carros alegóricos de caprichosas ornamentações e muitos outros com simples legendas», num cortejo «grandioso, cheio do mocidade e de verve». «Os milhares de pessoas que assistiram ao desfile riam a bom rir. A graça esfuziante e delicada, o dito sempre pronto, a nota picaresca, tudo concorreu para que fosse despertada a hilaridade no público», testemunhou o repórter.
O cortejo organizado no Pátio da Universidade pôs-se em marcha pouco depois das 15h00. «Cerca das 16h00, chegaram ao Largo da Feira os primeiros carros. Começou, então, a cerimónia simbólica da cremação dos “grelos” – as fitas estreitas que os quartanistas usaram durante o ano letivo findo», relatou, observando o clima de «entusiasmo indescritível», em que «estalavam as rolhas das garrafas de vinho espumoso».
Reorganizado o cortejo, prosseguiu «por entre alas de milhares e milhares de pessoas», banda de música e gaiteiros à frente, logo seguidos de «um novo quintanista de Letras que, com garbo e aprumo de bom cavaleiro, montava um jumento inofensivo».
Dos carros alegóricos, destaque especial para um dos quartanistas de Letras, numa alusão «oportuna e feliz às futuras obras da cidade universitária», que em breve iriam mudar a face da Alta e cujo estudo fora confiado aos arquitetos Raul Lino e Luís Benavente. «Sobre uma grande quantidade de casas demolidas, erguia-se a Torre da Universidade. Legenda: O novo terramoto de Benavente», anotou o jornalista.
Chamava igualmente a atenção, após o último carro alegórico, «um automóvel, coberto de crepes», em que seguia Castelão de Almeida, tido como o mais boémio e mais famoso “dux-veteranorum” da academia, fundador do jornal satírico O Ponney. O estudante de Direito «largava fitas» nesse ano e exibia no carro «uma legenda simples: “Morri”».
Presenciado ao longo do percurso por «uma multidão de milhares de pessoas», o cortejo seguiu pela Ladeira do Castelo, Arcos do Jardim e Rua Alexandre Herculano, detendo-se na Praça da República para avaliação do júri, que premiou o carro dos quintanistas de Medicina “Glória ao Sacrifício”.
Na Avenida Sá da Bandeira, as «janelas e varandas dos prédios ofereciam um lindo aspeto, delas pendiam colchas de seda e nelas se debruçavam as mulheres lindas da nossa terra e outras que de fora vieram presenciar as festas».
Quando o cortejo chegou à Praça 8 de Maio e desfilou pelas ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges rumo ao Largo Miguel Bombarda (Portagem), onde viria a dispersar, «o entusiasmo atingiu o delírio e entre as janelas e os carros jogaram-se centenas de rolos de serpentinas». «Os estudantes abraçavam-se e confraternizavam com os transeuntes. Estalavam as rolhas das garrafas de vinho espumoso», registou o repórter do Diário de Coimbra.












