
Equipa REDUZ multiplica respostas a quem mais precisa
No coração da Baixa, no Terreiro da Erva, a Equipa de Rua REDUZ, da Cáritas Diocesana de Coimbra, é o porto de abrigo de quem pouco ou nada tem, de prostitutas, de dependentes de drogas ou álcool e de pessoas com problemas do foro mental. Uma comunidade com fragilidades de diversa índole, cerca de 200 pessoas que ali encontram uma mão amiga, uma palavra de conforto, os produtos de que precisam, os medicamentos prescritos, a possibilidade de tomar um banho e fazer uma refeição ligeira. Respostas múltiplas de uma equipa multidisciplinar, constituída por quatro profissionais, que se desdobra num trabalho de proximidade, com rosto humano, que cria laços de confiança, ajuda a apaziguar conflitos e permite emergir algum sentimento de respeito e auto-estima a quem perdeu o norte.
«É um trabalho invisível», afirma Rui Sousa, coordenador do projeto. Mas com reflexos visíveis. A começar pela equipa, que trata pelo nome cada um dos utentes e a acabar nestes, que têm a porta sempre aberta, de segunda a sexta-feira e ao sábado de manhã, e entram sem se fazerem rogados. O “passa a palavra” funciona, com uns a trazerem outros. Acresce o encaminhamento de entidades, os que passam e param para descobrir ou os que são convidados a conhecer o projeto em ações de rua dinamizadas pela equipa. Alguns são presença diária, outros menos assíduos. Em comum têm as vulnerabilidades pessoais, as dependências, as dificuldades económicas e a ausência de retaguarda familiar.
Uma Equipa de Rua diferente, que no último ano acompanhou 750 pessoas. Uma casa virada para a rua com valências próprias, que além da “Redução dos Riscos e Minimização de Danos”, eixo estruturante do projeto, procura «satisfazer as necessidades mais básicas», de alimentação, higiene, roupa e acesso a serviços que de per si não conseguiriam, até pelo simples facto de muitos não terem sequer telemóvel. «Estamos aqui e eles já nos procuram», faz notar Rui Sousa.
Marta Santos, assistente social do projeto, lembra as raízes do programa, que começou em 2002, no Largo do Romal, e em 2005 se instalou no Terreiro da Erva, onde se concentra grande parte do público-alvo: prostitutas, toxicodependentes, sem-abrigo e sem eira nem beira.
A “Redução de Riscos e Minimização de danos” ditou a criação de um espaço onde o «utente possa consumir, mas de forma mais saudável para ele e para a restante população», o que implica acesso a «material assético» e «evitar a partilha». «Fazemos troca de seringas», esclarece. O perfil aponta um público maioritariamente masculino, entre os 45 e os 54 anos, que decresceu no consumo endovenoso, mas cresceu nas drogas fumadas, crack e álcool. Misturas com efeitos «cada vez mais graves em termos de saúde física e mental». O acompanhamento inclui o programa de substituição de opiáceos, com prescrição de metadona ou bupremorfina. Uma médica e a respetiva equipa asseguram consultas de 15 em 15 dias, à quarta-feira. Uma resposta também ela de proximidade.
Entre utentes e equipa há laços fortes de proximidade, respeito e afeto, que criam um ambiente familiar
São sobretudo «pessoas sem retaguarda familiar, em condições muito vulneráveis», diz Rui Sousa, que aponta o desemprego de longa duração, que origina situações de «acentuada insuficiência económica» a que se procura dar resposta, o que não é fácil, tendo em conta a idade e a precaridade, pois são contratos de nove meses e «não há continuidade», sublinha o coordenador, que lamenta que, depois de readquirirem hábitos de trabalho e «ganharem alguma estabilidade», acabam por regressar à “estaca zero”.
As profissionais do sexo, são «mulheres já maduras» entre os 40 e os 55 anos, muitas estrangeiras. Em dois anos a equipa acompanhou cerca de 120, às quais fornece preservativos masculinos e femininos, toalhetes e lubrificantes e testes de rastreio de VIH, sífilis e hepatite.
A Equipa REDUZ também dá resposta a pessoas com insuficiência económica e alguma debilidade intelectual e doença mental associada, sem retaguarda familiar, algumas na situação de sem-abrigo. Mais uma vez são, sobretudo homens, entre os 45 e os 54 anos. Rui Sousa destaca os problemas de saúde mental e a falta de capacidade para lidar com estas situações. «Basicamente não existem respostas», sublinha.
O coordenador prepara-se para acompanhar uma utente ao hospital, para uma consulta de Neurologia. Liliana, a psicóloga, está na rua, a acompanhar uma utente numa ida aos CTT. É um outro tipo de serviço, de apoio psico-social que a equipa assegura. Reminiscências que ficaram do Gabinete de Apoio, extinto em 2015, mas que deixou a sua marca na satisfação de necessidades básicas. Os banhos são um exemplo. Funcionam de manhã, de segunda a sexta-feira e são muito solicitados, com 20 a 25 utentes semanais. «Somos a única Equipa de Rua em Portugal que tem estas respostas», sublinha Rui Sousa.
Da mesma forma, todos os dias, 41 pessoas vão ali tomar a respetiva medicação e mais de meia centena são acompanhadas individualmente por cada elemento da equipa. Boa parte usufrui das refeições ligeiras, pequeno almoço e lanche. O projeto inclui leite, sumo e bolachas para 10 utentes, mas há sempre comida para oferecer. «Uma pastelaria cede--nos bolos todos os dias, diz Marta Santos, e um protocolo com a empresa de máquinas de “vending” permite obter bastante comida. «Há sempre coisas e damos tudo o que podemos a quem sabemos que precisa», afirma.
Os utentes habituais beneficiam, ainda, de iniciativas lúdicas e educativas, que podem não ser mais do que uma tarde de karaoke ou um jogo de cartas. «Passam uma tarde diferente connosco», diz Rui Sousa. Como a equipa é reduzida, estas tarefas são dinamizadas por estagiários, com formação na área de Animação Sócio-Cultural, dos cursos profissionais de Apoio Social, de Serviço Social e de Psicologia.
O projeto, criado há 24 anos, é financiado em 80% pelo ICAD - Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências e os restantes 20% são assumido pela Cáritas. Todavia, o orçamento tem vindo a emagrecer, exigindo uma «enorme ginástica financeira», que obriga a Cáritas a “abrir os cordões à bolsa”, para manter o projeto. «Felizmente, a instituição tem essa capacidade», referem.











