
Sopa da Pedra Solidária alimenta quem mais precisa
Virgílio Sousa, da Confraria Gastronómica de Almeirim, acabava de retirar o chispe da enorme panela, onde o feijão, Catarino, ainda cozia. Os enchidos – chouriço, morcela e farinheira – foram retirados antes e começavam a ser cortados. Faltava juntar a batata, aos quadradinhos, deixar cozinhar e a sopa da pedra ficava pronta, aguardando apenas os coentros. Foram 250 a 300 litros da deliciosa sopa, criada pelo restaurante “O Toucinho”, de Almeirim, e não como reza a lenda, pelo frade “pedinchão”. Uma sopa solidária que a Confraria de Almeirim levou ontem a todo o país, em parceria com as congéneres em cada um dos territórios, tendo distribuído entre 1.5000 e 1.800 litros.
Em Coimbra, a Sopa da Pedra Solidária foi preparada em parceria com a Confraria do Arroz Doce, com sede em Almalaguês, e com a solidariedade da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, em cujas cozinhas, e com a colaboração voluntária dos alunos, a refeição foi confecionada. Situação similar aconteceu em Gaia, Estarreja, Almeirim, Amadora, Évora e Portimão, com a confeção de 1.500 a 1.800l de sopa..
Na Escola de Hotelaria, além desta iguaria, a Confraria do Arroz Doce, com a ajuda de parceiros, preparou pataniscas de bacalhau. Um petisco para as cerca de 600 refeições distribuídas, que Ricardo e Joaquim, alunos de Gestão e Produção de Cozinha, fritaram, ontem ao final da manhã. Bacalhau, ovos, farinha, salsa, cebola, pimenta, leite, cerveja e azeite são os ingredientes usados para fazer a “massa” das «cerca de mil pataniscas», explica Dora Caetano, responsável da Confraria do Arroz Doce.

Confrades prepararam 600 refeições com ajuda dos alunos e colaboradores da Escola de Hotelaria
Naturalmente, não faltou o arroz-doce. 10Kg de arroz Carolino, 100% Ariete, que deram corpo ao «arroz doce de Coimbra, branquinho». O leite “inteiro” veio da Quinta da Cioga, a casca de limão condimenta a cozedura e é necessário mexer continuamente. «São duas horas» de “exercício”, necessário para o arroz ficar no ponto certo. Depois, basta juntar o açúcar. O mesmo peso do arroz. Já agora, fique a saber que para 1kg de arroz são necessários 5l de leite! Depois de pronto, o arroz-doce foi distribuído por taças e colocada a canela. Foram 600 taças, tantas quantas as refeições que a Sopa da Pedra Solidária entregou ao Lar de São Martinho, Ninho da Mariazinha, Anajovem, Casa dos Pobres, Casa Abrigo Padre Américo, Casa de Acolhimento do Loreto, Casa de Formação Cristã, Casa Rainha Santa Isabel e Comunidade Juvenil de S. Francisco.
Foi a segunda edição da Sopa da Pedra Solidária. Um projeto inspirado no desafio que, há uns anos, Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras, lançou à Confraria de Almeirim. «Fizemos 1.100l de sopa da pedra para os sem-abrigo de Lisboa», recorda Virgílio Sousa. A pandemia pôs termo à ideia, mas no ano passado a Confraria recuperou-a, em moldes diferentes, assente na solidariedade das confrarias, em sete localidades de Norte a Sul do país, procurando dar resposta a quem mais precisa. O que aconteceu, também em Coimbra.
«Chegamos ao fim do dia de coração cheio», diz Dora Caetano. «Não conseguimos mudar o mundo, mas conseguimos, num dia, mudar o mundo de alguém, levando-lhe a nossa gastronomia tradicional bem confecionada e aconchegante. Isso é solidariedade, é amor ao próximo», remata a responsável da Confraria do Arroz Doce.











