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Crianças demonstram literacia económica revela estudo do Miguel Torga

Numa amostra de 236 crianças, com um média de idade de cerca de 15 anos, de dez escolas de cinco concelhos do distrito de Coimbra, 83% ouviram falar da crise económica

As crianças estão informadas sobre a crise e demonstram literacia económica, revela um estudo sobre as vivências familiares durante a crise do custo de vida, apresentado hoje, em Coimbra, pelo Instituto Superior Miguel Torga (ISMT).

Intitulado “Vivências familiares durante a crise do custo de vida – Olhares das crianças sobre os impactos no bem-estar”, a investigação é estruturada nos desafios económicos vividos desde 2020 e marcados por um aumento do custo de energia e alimentos e pressões inflacionárias, agravadas pela invasão à Ucrânia.

Numa amostra de 236 crianças, com um média de idade de cerca de 15 anos, de dez escolas de cinco concelhos do distrito de Coimbra, 83% ouviram falar da crise, segundo o coordenador do estudo, Manuel Menezes.

“Isto vai contrariar discursos onde dizem que as crianças encontram-se alheadas, que tem uma parca literacia financeira e económica. O que o nosso estudo demonstrou claramente é que eles têm uma elevada consciencialização, uma elevada literacia económica”, afirmou.

A maioria das crianças que participou no estudo, que é promovido pela EAPN-Portugal (Rede Europeia Anti-Pobreza), é portuguesa, mas há também crianças de outras nacionalidades, como brasileiras ou francesas.

Segundo o coordenador, o grupo é “relativamente privilegiado em termos de capital educativo, de capital social e de património”, mas estas características “não impedem, no entanto, a identificação a espaços de alguns sinais de vulnerabilidade que persistem em segmentos específicos”.

Manuel Menezes apontou que a “maioria não reporta redução de despesas”, mas há algumas sinalizações: 10,3% de dificuldades no pagamento da energia e 20,8% em atrasos em rendas ou prestações.

“Esta menor representatividade dos impactos materiais não nos pode levar a concluir que os impactos não foram significativos. Também pode ser interpretada como capacidade de resiliência das famílias”, afirmou.

A amostra sinaliza ainda uma “ansiedade geracional”, com as crianças a terem uma “preocupação significativa” com o seu futuro. “Mais de 50% das nossas crianças evidenciaram esta ansiedade, receios com questões económicas, financeiras, e receios com a doença e a morte”, explicou o coordenador, para quem o apoio psicossocial é uma questão que deve ser tomada em consideração.

A investigação indica que as crianças “aspiram uma estabilidade financeira”, mas 18% priorizavam a saúde própria e familiar. Entre as crianças, 13% preocupam-se com problemas globais, o que evidencia, segundo o docente, “uma maturidade emocional e cívica”.

Para Manuel Menezes, o estudo deixa a mensagem que escutar as crianças “é um imperativo ético” e uma “ferramenta essencial que enriquece a compreensão dos diferentes fenómenos sociais”.

“O modo como elas percecionam o seu bem-estar e das suas famílias é o barómetro da saúde e da coesão das nossas sociedades. Não podemos minorar este facto”, apontou.

Dezembro 12, 2025 . 20:15

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