Areaclientedc
Última Hora
Nova Data Légua
Pub Dc Projetosaprovados 20260720
Pub

Série histórica inspirada na vida e na obra de Bissaya Barreto

O historiador João Pinho é o promotor da ideia, que ao fim de anos e anos de maturação ganhou “pernas para andar”. Da ideia inicial de um filme passou-se para o projeto de uma série

O fascínio vem de longa data, dos tempos de menino, quando João Pinho escutava, encantado, as histórias que o avô contava sobre Bissaya Barreto, de quem foi amigo.

A semente cresceu, desabrochou e deu frutos, com o historiador a entusiasmar-se com a personalidade multifacetada e a obra invulgar que desenvolveu.

Uma fotobiografia, publicada no âmbito das comemorações dos 50 anos da Fundação Bissaya Barreto representou mais um passo nesta jornada de descoberta. Seguiu-se, em 2023, uma tese de doutoramento, centrada na atividade do médico.

Mas o desfecho está longe de concluído.

O próximo desafio passa pelo grande ecrã, com uma série inteiramente dedicada à figura e obra de Fernando Baeta Bissaya Barreto Rosa (1886-1974).

Entusiasmado, o historiador, que há 25 anos se dedica com particular ênfase à investigação da história local e regional, fala do caminho de descoberta que empreendeu em torno da figura do médico, professor da Universidade de Coimbra, cirurgião de referência.

Aliás, foi essa a temática que escolheu para o doutoramento em Estudos Contemporâneos. “A Atividade do Médico e Cirurgião Bissaya Barreto nos Hospitais da Universidade de Coimbra, 1911-1956 – Contributos para a História da Medicina e Cirurgia em Portugal” é o título da tese, que revela «duas facetas relevantes» de Bissaya Barreto, como médico e cirurgião, explica.

«Sozinho fez mais cirurgias do que os colegas juntos», faz notar o investigador, destacando a «descentralização da cirurgia», que denomina como «cirurgia de província», que levou Bissaya a calcorrear toda a região, para operar nos mais diversos locais, desde Guarda, Estarreja, Leiria, Santa Comba Dão, Mealhada ou Figueira da Foz. «Pelas minhas contas, durante este período fez 35 a 40 mil cirurgias».

Um número «fantástico» que atesta o «grande cirurgião» e o médico «muito organizado, muito metódico e disciplinado».

A investigação em redor do médico e do cirurgião “tropeçou”, naturalmente, no homem. Uma personalidade inquieta e inquietante. Licenciado em Matemática, Filosofia e Medicina pela Universidade de Coimbra, foi carbonário, maçon e republicano convicto.

Empreendedor e homem de visão larga, foi deputado, amigo e conselheiro de Salazar, mas foi como presidente da Junta da Província da Beira Litoral que deixou a sua marca, com uma obra social de referência, onde o cuidar do outro constitui a pedra de toque, com a educação e a saúde como pilares essenciais.

João Pinho lamenta o esquecimento que rodeia essa obra ímpar e, de rompante, lembra que Bissaya ergueu 24 Casas da Criança, quatro hospitais, três sanatórios, um centro hospitalar, um hospital-colónia dedicado à doença de Hassen, deu atenção especial à saúde mental, criou colónias balneares e campos de férias, refúgio para idosos, institutos maternais, bairros económicos entre outras realizações.

«É uma máquina assistencial única, sem paralelo na Europa», elogia, e faz notar que existem documentos que comprovam que Inglaterra chegou a «defender a implementação deste sistema» no seu território.

Muitas facetas e muitas “estórias”

«São muitas facetas de um homem que viveu 87 anos», refere João Pinho, que confessa «alguma perplexidade» em perceber como «conseguiu ele gerir tudo isto», além de ser «conselheiro de Salazar» e «uma espécie de agente secreto» responsável pelas relações internacionais, que participou, durante a segunda grande guerra, em negociações com os aliados, “falou” com a Rússia e esteve nas negociações da Base das Lajes, nos Açores.

«Além desta faceta histórica, havia e há um conjunto de “estórias” ligadas à figura de Bissaya-Barreto», refere o investigador, que à proa deste registo coloca, naturalmente, o avô, seu amigo e colaborador próximo e muitos outros, como Viriato Namora, o Dr. Bessa, a D. Sandra e a D. Palmira.

«Fui ouvindo e fui fazendo uma espécie de biografia com essas estórias», conta e não resiste a partilhar a do comboio-foguete, que «não saía da estação de Coimbra sem que ele chegasse».

Era a viagem que habitualmente Bissaya-Barreto fazia à sexta-feira, rumo a Lisboa, onde reunia com António Oliveira Salazar, o todo-poderoso presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo, e o cardeal Cerejeira, o homem forte da Igreja Católica em Portugal. «Era o homem por quem o comboio esperava», diz.

Foram mais de dois anos a juntar este tipo de “estórias”, informação colateral que ajudou a “moldar” o homem, a dar-lhe uma vida própria para além da obra.|

“O homem que não conhecia o rei”

A “estória” do homem por quem o comboio esperava foi a primeira ideia para o título da série. Todavia, aparentemente esta hipótese está posta de lado, em favor de uma outra: “Bissaya Barreto: o homem que não conhecia o rei”. «É apenas uma ideia, um título provisório», esclarece o mentor do projeto.

A “estória” subjacente merece ser contada, pois revela uma personalidade irreverente, contestatária, contra o regime monárquico, já moribundo. Republicano convicto, o estudante da Universidade de Coimbra foi laureado, em 1908, como melhor aluno.

«Quem entregava os prémios era o rei», recorda João Pinho, que refere a imponente cerimónia, realizada na Sala dos Grandes Atos, com a presença das mais diversas entidades civis, militares e religiosas.

Bissaya Barreto, que integrava o grupo dos denominados «intransigentes», um «agitador republicano», foi chamado duas vezes para receber o prémio e duas vezes respondeu: “Eu não conheço o rei!».

«Foi um escândalo na altura», com «a sala em suspenso» perante a «estupefação geral», adianta, lembrando a «coragem» do jovem estudante, que não teria mais do que 17/18 anos, e afrontou o regime monárquico com a mesma irreverência com que Alberto Martins, presidente da Associação Académica, irá “pedir a palavra”, 61 anos depois, num gesto contra o Estado Novo.

Da ideia de um filme ao projeto de uma série

A imensidão de “material” recolhido deixou o investigador num “beco sem saída”.

Isto porque se a ideia inicial era produzir um filme, um documentário que apresentasse as múltiplas facetas e permitisse dar a conhecer Bissaya Barreto e a sua obra, depressa percebeu que um filme sabia a pouco, não chegava.

Adepto confesso das séries históricas, entendeu que Bissaya-Barreto “encaixava” na perfeição num registo desta natureza, uma «série histórica, à época».

Seguiu-se um novo passo, já este ano, contactos com realizador, produtor e atores.

«A entidade que mais rapidamente se associou à ideia e viu que tinha potencial foi a Cineway», sublinha João Pinho, referindo-se à incubadora de projetos audiovisuais de Coimbra. «Acolheram muito bem a ideia», diz ainda, confiante que «tem pernas para andar».

A história e as “estórias” reunidas por João Pinho deram lugar a um guião, entretanto já convertido em “roteiro” e «já temos o filme esboçado em cenas» e definido um total de oito episódios.

O realizador António Ferreira – que assinou “Pedro e Inês” (2018), “Respirar Debaixo d’ Água” (2000) e “A Bela América” (2021), com cenas filmadas em Coimbra - «está recetivo à ideia», adianta e há um cartaz de cerca de duas dezenas de atores, «que diariamente estão nos nossos ecrãs», que também «estão disponíveis».

«Agora segue-se mais uma caminhada difícil, porque é preciso apresentar candidaturas para obter fundos», a primeira das quais para o episódio-piloto, outras de apoio à investigação, realização e produção e desenvolver contactos para criar parcerias, nomeadamente com alguns dos municípios de referência na vida e obra e Bissaya Barreto, a começar por Castanheira de Pera, onde nasceu.

A Fundação, naturalmente, será «um parceiro estratégico», sublinha o promotor do projeto e guionista, que perspetiva «meio ano de gravações», cujo início está dependente das candidaturas.

O episódio-piloto poderá estar pronto «talvez daqui a dois anos», perspetiva.

O investimento, «para ser um projeto muito bem estruturado», «ficará na casa dos seis milhões de euros», bem longe dos dois milhões que João Pinho inicialmente equacionou.

Julho 27, 2026 . 09:30

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

0 Comentários
Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
95 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right