
Tornar a Mata Nacional do Bussaco um “desígnio nacional”
Nasceu ao lado da Mata, que conhece bem, e como vereador e deputado sempre lhe mereceu uma atenção crítica. Isso não impediu que nas primeiras semanas, após tomar posse, a 15 de maio, o novo presidente da Fundação Mata do Bussaco mergulhasse a fundo no terreno, onde os problemas se sentem e balizm soluções. Uma verdadeira “roda vida”, marcada por dezenas de reuniões com as mais diversas entidades. O resultado é um diagnóstico real da situação e um plano de requalificação. O objetivo é «colocar o Bussaco no mapa», transformar a Mata num «desígnio nacional», assume Gonçalo Breda Marques que, depois de duas décadas em Lisboa, está de volta à Mealhada, empenhado em fazer a diferença. «Não quero ser mais um presidente da Mata do Bussaco, quero mesmo fazer diferente», diz.
«Tenho andado numa verdadeira correria contra o tempo», confessa. Contactos com os mais diversos organismos a nível nacional, regional e local, reuniões com entidades. «Temos um património extraordinário, único, que tem de ser cuidado e não foi isso que aconteceu», afirma. «Falta muito investimento», sublinha o presidente, que aponta particularmente o património edificado, onde, «ou há um investimento sério e continuado ou degrada-se muito rapidamente». Uma situação que, «incompreensivelmente», é a realidade do Bussaco. «O Estado, o poder central, regional e local têm de ter uma atenção muito maior a este património, sob pena de a sua degradação ser mais acentuada», alerta.
Para chamar a atenção, Gonçalo Breda Marques fez apelo aos muitos conhecimentos e contactos reunidos ao longo de uma carreira de mais de 20 anos de ligação à Administração Pública, e mostra-se satisfeito com a recetividade e bom acolhimento que teve nas dezenas de reuniões com autarcas da Mealhada, Penacova e Luso, secretário de Estado do Ambiente, ICNF, Baldios, Proteção Civil ou beneméritos. Recetividade igualmente da parte dos ministérios da Economia, do Ambiente e da Defesa, do Turismo, do IPDJ e de algumas universidades e politécnicos. «Estou numa corrida contra o tempo para colocar o Bussaco como prioridade nacional e ter no Bussaco as melhores práticas do mundo em matéria de gestão florestal», sintetiza
Práticas que assentam na «vigilância, na prevenção, na biodiversidade e na substituição de espécies». «Esta não é uma mata qualquer, tem provavelmente uma das maiores coleções dendrológicas da Europa, com cerca de 250 espécies», faz notar. Um bosque sagrado, construído ao longo de mais de dois séculos pelos monges Carmelitas Descalços que ali criaram um refúgio verde, com espécies vindas de todo o mundo. «Provavelmente terá sido a primeira reserva natural do mundo», embora, à época, o conceito não existisse, mas existiam “boas práticas”, como «uma bula papal de 1643 que excomungava quem abatesse uma árvore dentro deste perímetro». Mais uma particularidade do Bussaco, cuja Floresta Relíquia parece retirada de um conto de fadas, que o presidente quer dar a conhecer ao país e ao mundo.
«A maioria das pessoas não conhece o Bussaco», diz, lamentando que, mesmo na região, os mais velhas «conhecem o Bussaco», mas «os mais novos conhecem o mundo, já foram ao Brasil ao México, mas não conhecem a Mata, que está aqui ao lado e é um dos locais mais bonitos do mundo». Por isso, um dos projetos é fazer protocolos com os municípios de todo o país, para promover a visitação, envolvendo particularmente os estudantes e a população mais velha.
Património
enorme e singular
O monges Carmelitas Descalços foram também os obreiros de uma boa parte do património edificado, designadamente o Convento e a Via Sacra. «É outro património enorme, único no mundo», sublinha, lembrando que se trata de uma réplica rigorosa da Via Sacra de Jerusalém. Um valioso património religioso que representa um potencial enorme em termos turísticos. O mesmo acontece com o Palace Hotel, uma obra do arquiteto italiano Luigi Manini, mandada construir por D. Carlos. O pavilhão de caça e residência de verão dos últimos reis portugueses foi transformado (1920) no mais icónico hotel de charme do país e um dos mais premiados a nível internacional.
Um espaço nobre, requintado, onde continuam a existir os quartos do rei e da rainha e por onde passaram nomes grandes, como Agatha Christie, Miguel de Unamuno, Cole Porter entre muitos outros. Gonçalo Breda Marques recorda que a romancista inglesa passou longas temporadas no Bussaco e terá ali escrito algumas obras, o que representa um verdadeiro cartaz turístico para os fãs, mas «pouca gente sabe disto», lamenta, recordando, ainda, outras histórias do Bussaco, nomeadamente a célebre batalha, que travou a terceira e última invasão das tropas francesas de Napoleão. Uma memória que o Museu Militar mantém viva e em cuja capela «eram tratados todos os feridos, tropas portuguesas e inglesas, mas também francesas», numa tarefa assumida pelos monges, que de todos cuidavam, sem olhar em que lado da barricada estavam.
O Museu Militar representa, naturalmente, outro atrativo para potenciar a atratividade da Mata e promover a sua situação, tornando-a num ativo turístico de referência e ultrapassar os 300 mil visitantes registados em 2025, 39% dos quais estrangeiros. «Temos que saber promover o Bussaco, temos que ser profissionais», considera. Esse é o caminho a seguir, a par e passo com a recuperação, para dar dignidade a este património.
Percorrer um caminho para atingir a sustentabilidade
Depois de concluído o programa de requalificação o Bussaco pode reunir condições para ser auto-sustentável, nomeadamente com os proventos resultantes das casas de alojamento local. Antes é manifestamente impossível. «As receitas só dão para sobreviver, não dão para fazer», esclarece o presidente. Receitas provenientes da loja e do bar, das visitas guiadas à mata, das visitas ao Convento e das entradas na mata, com estas últimas a representarem a fatia mais gorda. Ressalve-se que quem se desloca a pé não paga, mas as viaturas ligeiras pagam 7 euros, as motos 3 e os autocarros 50 euros. Gonçalo Breda Marques nota as «reclamações» que este pagamento tem suscitado e que se prende, em sua opinião, com o facto de as pessoas pensarem que «o dinheiro vai para Lisboa», o que não é verdade. «Todo o dinheiro das entradas é investido na Mata», afirma. Essa informação consta agora de um “flyer” que passou a acompanhar o bilhete.
Outra das fontes de receita decorre da concessão do Palace Hotel, situação “em aberto”, uma vez que o concurso internacional, lançado pelo Turismo, foi ganho por uma entidade que não o grupo que desde 1920 gere a unidade. O concessionário entendeu que tinha direito de preferência e terá avançado com um recurso para o Supremo Tribunal. A situação é particularmente importante para a Fundação, que recebe atualmente uma renda de cerca de 50 mil euros, quando o novo concurso estabelece 400 mil euros. «Só essa diferença garantia-nos alguma saúde financeira», faz notar. Além desse valor, o contrato define um «investimento muito grande para recuperar o Palace e também o Chalet de Santa Teresa», atualmente em ruínas.
Gonçalo Breda Marques defende que o Orçamento de Estado deveria contemplar uma verba para o Bussaco, proposta que, em sua opinião, «facilmente colhia o apoio de qualquer grupo parlamentar». Seria uma receita anual, fixa, importante para resolver questões pontuais, pois atualmente a queda de uma árvore de grande porte representa uma “dor de cabeça” para o parco orçamento. O presidente lembra que numa única rua no Porto há duas fundações, cada uma das quais recebe 10 milhões euros/ano do Estado. «Nós só precisamos de uma ínfima parte disso», diz.









