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Confraria do Torresmo Beirão: "Pontapé" certeiro elevou torresmo

Confraria de Vila Franca da Beira pegou na ementa tradicional associada à matança do porco e elegeu os torresmos e o arroz de suã como pratos de referência. O Queijo Serra da Estrela “joga em casa”, pois a freguesia é uma referência na produção desta iguaria.

São obrigatórios na matança do porco. Feitos com a carne da barriga, considerada a mais gostosa, encerram o menu de uma mesa farta, que reúne família e amigos num dia de partilha, confraternização e amizade. Depois de saborear o sangue cozido, muitas vezes com o prato colocado em cima do corpo do animal, o almoço é de festa. Há canja, sopa seca, borrego assado no forno e, para rematar a lauta refeição, surgem os torresmos. É assim em Vila Franca da Beira. Uma tradição que a Confraria do Torresmo Beirão quer preservar, concentrada particularmente no torresmo, mas a “piscar o olho” ao arroz de suã.

Todavia, não foi apenas a tradição que pesou no surgimento da Confraria. As circunstâncias deram um empurrãozinho, com os craques do futebol a assumirem quase todo o protagonismo. Não a equipa cheia de garra da União Desportiva Vilafranquense que, no final dos anos 70, princípios de 80 do século passado disputava taco a taco o Campeonato do INATEL, mas depois disso. Isto porque as dificuldades, particularmente do foro económico, ditaram o fim de uma equipa de primeira linha, trocada por uma de Veteranos, que reunia algumas das “velhas guardas” e outros amantes ativos do desporto rei. Veteranos e amigos juntam-se habitualmente em Travancinha, na emblemática Feira dos Santos, para saborearem os torresmos, feitos na fogueira, numa quinta que, na altura, pertencia a uma família de Vila Franca da Beira.

Mas o tempo passa e não perdoa. As barrigas cresceram, as pernas ficaram mais pesadas, com a bola a tornar-se cada vez mais leve e mais veloz. «Já não conseguíamos!», conta António Simões, um dos veteranos e um dos fundadores da Confraria, cujas rédeas também assumiu até há pouco tempo, com a filha, Carla Simões, a substituí-lo agora ao leme. «Acabámos por pôr definitivamente de lado o futebol», mas mantendo sempre a «terceira parte», ou seja a confraternização à mesa, com os torresmos em posição de destaque.
Os anos foram passando e os encontros mantiverem-se fiéis e inspiraram os convivas para a criação de uma Confraria, que só podia ser do torresmo, a iguaria que alimentou as inúmeras tertúlias. Começaram as diligências para a constituição e no dia 15 de junho de 2015 assistiu-se à assinatura da escritura pública.

Há confrades que aproveitam a visita a Vila Nova da Beira para adquirirem Queijo Serra da Estrela nas várias queijarias artesanais que existem na aldeia

«A nossa finalidade é promover e divulgar as nossas iguarias tradicionais, nomeadamente o torresmo e o arroz de suã», sublinha António Simões, que enaltece as características do torresmo beirão, particularmente daquele que se faz em Vila Franca da Beira. «É parecido ao da Beira Serra», reconhece, mas «há diferenças».

Aqui, a receita preza a simplicidade. A carne é a da barriga do porco, «a mais gostosa», partida em pequenos pedaços que se colocam numa caçoila de barro. Junta-se alho, sal, louro, colorau, pimenta e vinho tinto. «Não convém que o vinho seja muito forte», adverte. Coze em fogo brando, de preferência na fogueira e serve-se acompanhado com batata cozida e grelos. Hoje em dia, e dada a quantidade significativa de torresmo que tem de confecionar para os banquetes, a Confraria opta pela utilização de caldeiras de cobre, uma vez que não há caçoilas de barro com capacidade.

António Simões é o chef de serviço quando se trata de confecionar os torresmos. Uma tarefa que já desempenhava no tempo das tertúlias dos Veteranos e que continuou com a criação da Confraria.

A este prato, a «última iguaria servida no dia da matança do porco», junta-se o arroz de suã. Este só pode ser confecionado depois da “desmancha”, que habitualmente acontece no dia seguinte à matança, uma prática hoje em dia residual, contrariamente ao que acontecia num passado não muito distante. «Matavam-se mais de 100 porcos em Vila Franca, praticamente todas as famílias matavam um porco e algumas mesmo mais do que um», recorda.

Grupo De Confrades Torresmo Beirão
Confrarias reunidas na foto de família, junto ao largo da Capela de Santa Margarida, em Vila Franca da Beira

António Simões faz questão de explicar as particularidades que o conceito de carne de suã envolve em terras de Vila Franca da Beira. «Há quem chame suã à coluna vertebral do porco, mas para nós o osso de suã é o externo». Trata-se da zona do peito, onde entroncam as costelas e existem uma série de «cartilagens e febrinhas que são muito gostosas».

Já os ossos da coluna são uma delícia depois de cozidos. Mas, voltando ao arroz de suã, basta fazer um refogado, com cebola, alho, salsa e um pouco de azeite, junta-se a carne, deixa--se refogar um bocado. «Para ficar mais gostosa, junta-se um pouco de colorau e pimenta» e, naturalmente, sal, explica o confrade. Depois incorpora-se o arroz e deixa-se cozer. Convém que fique bastante caldoso, pois trata-se de um arroz malandrinho, que “corre” no prato e é muito apreciado.

António Simões tem 84 anos, sempre viveu em Vila Franca, não tem dúvidas da importância da Confraria e do seu impacto na vida social e económica de Vila Franca da Beira. Antigamente, recorda, «as festas de Vila Franca eram marcantes, vinha gente de todo o lado, eram um encanto. Agora as festas não têm relevância em parte nenhuma», o que confere uma notoriedade acrescida aos eventos promovidos pela Confraria, particularmente o capítulo. «Hoje em dia, a Confraria é a entidade que mais gente traz a Vila Franca», faz notar. Há dois anos «estiveram aqui mais de 200 pessoas», com confrarias desde o Algarve a Valença e seis da vizinha Espanha.

«É um cartão de visita», com impacto na vida local. «Muitos confrades vêm dormir cá» e há muitos que «vêm por causa do queijo», adianta. Num parêntesis, diga-se que Vila Franca da Beira integra a Região Demarcada do Queijo Serra da Estrela e será uma das freguesias que mais rebanhos de ovelhas tem atualmente em todo o concelho de Oliveira do Hospital. Serão cerca de uma dezena de rebanhos, contabiliza António Simões, «dois dos quais têm queijaria própria» e há uma terceira, que compra o leite e produz queijo e requeijão.

«O nosso queijo é uma referência e temos o privilégio de ter três queijarias artesanais», sublinha, lembrando que a Confraria serve sempre Queijo Serra da Estrela de fabrico local ao pequeno-almoço e ao almoço. «Há dois anos consumimos duas arrobas (30 quilos) de queijo», recorda. A qualidade do queijo não passou despercebida aos confrades visitantes, que aproveitam a viagem a Vila Franca da Beira para se deslocarem às queijarias e levarem Queijo Serra da Estrela – algum do qual é certificado – para as respetivas terras. António Simões conta, a propósito, o caso de um confrade da Pampilhosa da Serra que não teve possibilidade de se deslocar a Vila Franca da Beira, mas «entregou 200 euros a um amigo para lhe comprar e levar queijo».

B.I 

Traje: Inspirado no traje dos pastores, igualmente confeccionado em “serrubeco” (burel), 100% lã, com gola dupla de cor castanha. Chapéu de aba larga, castanho mais escuro, com fita amarelada. O chapéu das senhoras tem a aba mais pequena

Medalha: Apresenta uma caçoila com um porco

Estandarte: Tem as cores da freguesia, amarelo e azul e as insígnias da Confraria

Constituição: 15 de junho de 2015

Capítulo: Segunda semana de junho, de dois em dois anos

Confrades efetivos: 50

Confrades de honra: Dois – José Carlos Alexandrino e António Cheínho (1938-2026)

Sede: Antigo jardim-escola

Padrinhos: Confraria do Queijo Serra da Estrela

Junho 30, 2026 . 20:15

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