
Confraria dos Enófilos da Bairrada: Alma bairradina dá vida ao vinho
“Candeia que vai à frente alumia duas vezes”, reza o ditado. Foi isso que aconteceu com a Confraria dos Enófilos da Bairrada. A mais antiga confraria do país nasceu antes da criação da própria Região Demarcada e foi mesmo uma das entidades que se empenhou na sua constituição. Vivia-se o ano de 1979, o ano em que as duas instituições viram a luz do dia.
Carlos Campolargo, grão-mestre da Confraria, recorda esses tempos de fermentação que juntaram algumas das figuras de proa da região da Bairrada. Gente com o saber do vinho nas veias, uma herança alimentada por sucessivas gerações, que sentia a necessidade de fazer alguma coisa para promover e defender os néctares da Bairrada. Destaca, entre muitos, Dias Cardoso, da Estação Vitivinícola da Bairrada, Nelson Neves, das Caves Aliança, o sr. Vigário, das Caves Messias, as Caves São João, entre «tantos e tantos outros», figuras de proa que «lideravam o negócio do vinho na Bairrada».
Todavia, nesta pleiade de notáveis houve uma personalidade se distinguiu, regista o grão-mestre. «Foi graças à vontade e à tenacidade do sr. Luiz Costa (1928-2012) que a Confraria foi criada», sublinha. «Seria o mais conhecido dos enófilos da altura e conhecia muito bem os vinhos franceses», adianta. Uma experiência bebida nas regiões de Champagne, Bordeaux e Borgonha, onde o empresário se inteirou da realidade e do papel desempenhado pelas confrarias báquicas. Um modelo que entendeu se ajustava na perfeição e que permitiria dar um outro ênfase e mais projeção à sua amada região da Bairrada.
«Fomos sempre um guia que norteou os bairradinos no amor pela sua terra e aqueles que, não sendo da Bairrada, se querem juntar a nós para honrar o vinho»
Luiz Costa, o timoneiro das Caves São João, rodeou-se então de um «grupo de amigos e de pessoas que se reviam neste grande objetivo» e deram início às necessárias diligências, que frutificaram no dia 11 de junho de 1979, com a assinatura, no Cartório Notarial de Anadia, da escritura da constituição oficial da Confraria dos Enófilos da Bairrada. Os objetivos ficaram estatutariamente definidos, consagrando a «defesa, prestígio, valorização e propaganda dos vinhos da Bairrada».
«Não perdemos nunca mais o norte. Fomos sempre um guia que norteou os bairradinos no amor pela sua terra e aqueles que, não sendo da Bairrada, se querem juntar a nós para honrar o vinho», afirma Carlos Campolargo, também ele herdeiro de uma cultura de sucessivas gerações ligadas à produção de vinhos.
Nesse mesmo dia, 11 de junho, a Confraria dos Enófilos reforçava o apelo à criação da Região Demarcada da Bairrada. Um processo que, de acordo com o grão-mestre, teve momentos mais “turvos”, com uma clara divisão de opiniões. «Uns eram a favor, outros contra». Para os primeiros, era importante que «sendo esta uma região importante para o comércio de vinhos e para as caves, que produziam vinho e também já usavam o método champanhês» se promovesse esse reconhecimento como Região Demarcada.
Já do outro lado, as vozes contra argumentavam com o facto de o crescimento do negócio de vinho não ter resposta assegurada na produção da região, o que obrigava os comerciantes a recorrerem a outras regiões para reforçarem o respetivo stock e darem resposta às necessidades do mercado. «Muitas pessoas entendiam que com a demarcação a região não tinha possibilidade de ser economicamente sustentável», esclarece o responsável, lembrando que com o leitão aconteceu a mesma coisa, pois a denominação de origem protegida esbarra com o facto de a produção local não assegurar a resposta que o mercado exige. «Só havia uma solução, que precisava de coragem e foi o que a Confraria fez», enaltece. Confraria que, qual candeia que vai à frente, iluminou o momento da decisão e sobretudo «o caminho da Região Demarcada da Bairrada», instituída oficialmente a 28 de dezembro de 1979, com a publicação da respetiva portaria (n.º 709-A).

Um “terroir” que se diferencia
«Um enófilo não preza só um “caldo” de vinho, preza todos os aromas e sabores e a sua especificidade», considera Carlos Campolargo, para quem a «especificidade» da Bairrada está na sua «pequena história, que não é assim tão antiga», data do século XIX e sofreu com as mais diversas pragas e doenças, desde o míldio, oídio, filoxera ou escoriose. Maleitas à parte, o «verdadeiro ouro da Bairrada, a especificidade do nosso vinho radica menos na uva e mais no solo, no clima e no trabalho do homem».
Solos de natureza argilo-calcária, refere o grão-mestre recordando que, antigamente, a região tinha muito fornos onde se cozia o calcário para fazer a cal, destinada à construção. «Este solo argiloso e calcário dá uma acidez especial ao nosso vinho, que lhe confere uma frescura única», salienta. «É em cima desta acidez – a que se junta o baixo teor alcoólico - que recai o reconhecimento e a aptidão das nossas uvas para a produção de espumantes, com a fermentação em garrafa, de um vinho que já foi previamente fermentado», faz questão de sublinhar, numa pequena lição sobre a forma como se produz o espumante, técnica que começou por ser testada, a nível nacional, precisamente na região da Bairrada, em 1890, e viu a certificação consagrada em 1991. «Nos espumantes somos líderes nacionais», acrescenta, orgulhoso, apontando as seis a sete milhões de garrafas produzidas anualmente na Bairrada. Espumante que tem conquistado o público e que cada vez mais «se bebe porque sim e porque não!», adianta, bem humorado.
«Alma bairradina» de todos quantos tratam da vinha e acompanham o crescimento e maturação das uvas
«A terra tem estas características» e o clima, «influenciado pelo Atlântico», evita que o calor excessivo “abrase” os vinhedos, que se estendem ao longo de cerca de dez mil hectares da região, que abrange oito concelhos: Águeda, Anadia, Aveiro, Cantanhede, Coimbra, Mealhada, Oliveira do Bairro e Vagos. Mas, no entender do grão-mestre, natural de Mogofores, Anadia, que se licenciou em Direito mas nunca tirou «o olho da adega e da vinha», a mão do homem é o factor fundamental desta singular equação. «O homem soube compreender estas características», diz, e entende que a expressão francesa, “terroir”, usada quando se fala de vinhos, já de per si inclui «o homem como cuidador da vinha».
E para Carlos Campolargo é esta «alma bairradina» de todos quantos tratam da vinha e acompanham o crescimento e maturação das uvas que dá o toque verdadeiramente diferenciador aos vinhos da região, néctares que são a «expressão da alma bairradina». A grande maioria dos produtores, engarrafadores e vitivinicultores, bem como as adegas cooperativas, são associados da Comissão Vitivinícola da Bairrada , instituição criada em 1986 que funciona como guardiã da qualidade dos vinhos da região, assegurando a sua certificação e autenticidade como vinhos DO Bairrada e IG Beira Atlântico.
Particularidades da mais antiga Confraria do país
A Confraria dos Enófilos da Bairrada assume-se como a mais antiga do país e manteve--se sempre em atividade, afirmando-se como grande defensora da alma bairradina» e naturalmente dos vinhos e espumantes da região. Uma Confraria que apresenta um conjunto de particularidades, designadamente pelo local onde realiza os seus capítulos, desde o primeiro, em 1979, no ano da fundação, até aos dias de hoje, sempre no Palace Hotel do Bussaco. Um espaço de grande nobreza, em perfeita sintonia com o cerimonial de entronização no “Vinum Baerradium”.
Capítulo que se realiza sempre no último sábado de novembro e onde são entronizados como confrades de honra personalidades de referência nacional. Uma longa lista, que conta com cerca de meia centena de personalidades, entre as quais figuram antigos presidentes da república, como Mário Soares (falecido) ou Marcelo Rebelo de Sousa, atores como Ruy de Carvalho ou homens da ciência como Carlos Fiolhais.
Ao contrário da grande maioria das confrarias, os Enófilos da Bairrada não têm “pin´s” e mantêm o traje, inspirado no gabão de Aveiro, de cor preta e feito em burel, sem qualquer adereço. «Temos muita honra em manter o traje rigorosamente “limpo”», afirma o grão-mestre.
Como Confraria báquica mais antiga do país também não tem padrinhos.
Todos os anos, em maio, a Confraria dos Enófilos organiza o concurso “Os Melhores Vinhos da Bairrada”, um evento que se realiza ininterruptamente desde 1981 e que avalia os vinhos da colheita do ano anterior.

B.I.
Fundação: 11 junho de 1979
Sede: Estação Vitivinícola da Bairrada (Anadia)
Capítulo: último sábado de novembro, sempre no Palace Hotel do Bussaco
Traje: inspirado no gabão de Aveiro, de cor preta, feito em burel, com um bordado alusivo à vinha e ao vinho em dourado
Escapulário: vermelho, que segura a tabuladoura (colher de provar o vinho) feita em metal
Confrades efetivos: várias centenas
Confrades de honra: cerca de 50











