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Confraria da Cerveja: Sempre loura leve e fresca

É presença obrigatória nos convívios dos jovens, nas tertúlias dos mais velhos, conversas de amigos e à mesa das famílias. De origem milenar, fermentou com o tempo, apurou os aromas e conquistou um lugar especial no coração dos portugueses, que brindam à saúde e à cerveja

Reza a lenda que Lísias, filho de Baco, deus do Vinho, ensinou os povos da Lusitânia a produzir cerveja com cevada e trigo. Com ou sem fundamento, a verdade é que num país por natureza dedicado ao vinho, a cerveja fez história e hoje tem um lugar de destaque na mesa e na economia nacional. Uma bebida cujas origens remontam há milénios, às antigas civilizações da Mesopotâmia e do Egito e que desde há séculos faz parte dos hábitos alimentares e de consumo de muitos milhares de portugueses. Uma cultura em fermentação contínua, sempre com novos aromas, novos produtos, todos eles “depurados” pela Confraria da Cerveja, criada em abril de 2003.

Uma confraria que «nasce do sonho e da vontade de sete ilustres personalidades do setor cervejeiro», representa o «reconhecimento da importância da cerveja enquanto símbolo de convivialidade, partilha e celebração» e uma aposta na «defesa da arte cervejeira enquanto atividade de relevo para a economia portuguesa», sublinha a grã-mestre. Teresa Apolónia traça os principais objetivos da Confraria: «promover a cultura e o património da cerveja em Portugal, defender a qualidade e a imagem da cerveja portuguesa» e «fomentar o conhecimento e a apreciação junto dos consumidores», numa lógica de «consumo responsável e consciente», que procura «dignificar a cerveja como bebida e como produto alimentar».

A cerveja é «sinónimo de convívio, celebração, amizade e inclusão», afirma a grã-mestre, que sublinha a promoção do «consumo responsável» como um dos «pilares» da Confraria. Um trabalho que não recorre às «campanhas no sentido tradicional», mas é feito «pela via da dignificação, valorizando a qualidade e a enorme diversidade de estilos, promovendo a harmonização da cerveja com a gastronomia e educando para a apreciação dos seus aromas e características». A mensagem é muito clara, sublinha: «a cerveja, apreciada de forma adulta e consciente, é perfeitamente compatível com um estilo de vida equilibrado».

 

A «paixão pela cerveja» senta-se à mesa do café e das nossas casas, nas esplanadas, nos restaurantes e não falta em qualquer festa popular

«A cerveja tem um caminho próprio e legítimo à mesa, com estilos adequados a cada momento, prato ou estação do ano», diz ainda, realçando a intervenção no plano gastronómico que a Confraria tem vindo e quer continuar a promover, pois «é aqui que muitas vezes a descoberta acontece».

A «paixão pela cerveja» senta-se à mesa do café e das nossas casas, nas esplanadas, nos restaurantes e não falta em qualquer festa popular. Anima um encontro de amigos, brinda aos momentos festivos, é a companheira das tertúlias de fim de tarde ou das noites longas de convívio. A cerveja é festa, é convívio, é partilha e amizade. Uma frescura leve e “loira” indispensável às férias e aos dias quentes de verão.

E isso tem reflexos diretos e visíveis. «O setor cervejeiro em Portugal desempenha um papel económico significativo, contribuindo de forma substancial tanto para as receitas públicas, quanto para a economia em geral», considera Teresa Apolónia. A grã-mestre sabe do que fala, pois soma mais de 30 anos de experiência na Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, e recorda que, em 2025, o setor entregou ao Estado cerca de «331 milhões de euros em imposto especial de consumo (IEC) e imposto sobre o valor acrescentado (IVA), o que representou um aumento de 6,1 milhões de euros em relação ao ano anterior» e demonstra a «robustez da sua contribuição para as receitas públicas».Em termos de produção, a grã-mestre destaca a «resiliência» do setor e a «consolidação do mercado», com «um ligeiro crescimento de 1,73% ». Já o volume de vendas do mercado interno registou «uma evolução de 0,88%» em 2025.

Teresa Apolónia destaca, ainda, a relevância do setor a nível europeu, com a criação de «mais de 144 mil empregos diretos» e «um impacto económico superior a 52 mil milhões de euros em valor acrescentado, com forte peso na restauração, turismo e gastronomia».

 

Brinde Entronização Confraria Da Cerveja

Os dados referentes ao consumo nos últimos anos «revelam tendências claras e uma dinâmica de mercado em evolução»,

Os dados referentes ao consumo nos últimos anos «revelam tendências claras e uma dinâmica de mercado em evolução», com o volume total de vendas no mercado nacional a registar, em 2025, um «crescimento moderado de 0,88%», que corresponde a «um aumento de 55,35 hectolitros».

Teresa Apolónia enaltece uma «característica distintiva do consumo português» que se prende com a «forte ligação a contextos sociais», com «cerca de 67% do consumo de cerveja a ocorrer fora de casa, no canal HORECA (hotelaria, restauração, cafés)». Em simultâneo, acrescenta, «tem-se observado uma redução do consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens em vários mercados europeus, incluindo Portugal, onde se verifica uma procura por formas de consumo mais moderadas e equilibradas», num reflexo da realidade dos novos tempos e das novas mentalidades.

«Os jovens consumidores atuais são mais informados, curiosos e exigentes», o que se traduz numa procura de «diversidade e qualidade» e representa uma «maior abertura a diferentes estilos de cerveja e a opções de baixo teor alcoólico». De resto, «a alternância entre cerveja com e sem álcool no mesmo momento de consumo é uma prática crescente», o que denota «uma evolução cultural para um consumo mais consciente e responsável», assegura.

 

O que é a cerveja?

A identidade da cerveja define-se pelos ingredientes de base: água, malte (geralmente cevada, mas pode incluir outros cereais), lúpulo e levedura; e pelo processo de fabrico – brassagem, fermentação e maturação. «A interação e a proporção destes elementos, bem como a levedura e a temperatura de fermentação, dão origem à vasta diversidade de estilos», explica a grã-mestre. E são duas as “grandes famílias” da cerveja, a que se pode juntar uma terceira, das cervejas de fermentação espontânea, mas estas «com menos expressão». Assim, temos as cervejas Ale, de fermentação alta, com temperaturas entre os 15 e os 24º ou mesmo mais. Após a fermentação a levedura deposita-se no topo do fermentador e este tipo de cervejas «tem uma maior gama de aromas e sabores, influenciados pela levedura, habitualmente com notas frutadas complexas ou de especiarias».

A outra família é a das cervejas Lager, de fermentação baixa, entre os 8 e os 14.º, com a levedura a depositar-se no fundo do fermentador. Transmitem um «sabor mais limpo, com maior expressão das características transmitidas pelos cereais e pelos lúpulos», esclarece.

Nos últimos anos, o mercado tem sido enriquecido com grande número de cervejas artesanais. Trata-se de um «fenómeno global», no entender de Teresa Apolónia, «impulsionado por uma procura crescente dos consumidores por autenticidade, diversidade de sabores e produtos de origem local». A estes vetores junta-se um outro, no entender da grã-mestre: a «cultura gastronómica», o que significa a «integração da cerveja como acompanhamento sofisticado de refeições», à semelhança do que acontece tradicionalmente com o vinho.
Um movimento que «representa uma notável diversificação do mercado da cerveja, um incentivo à inovação e à criatividade no setor» considera, e plasmado de forma objetiva na «dinamização de pequenas e médias empresas» que começam a emergir no mercado, algumas com notório sucesso. Isto «contribui para uma cultura cervejeira mais rica e sofisticada, desafiando a hegemonia das grandes marcas e educando o consumidor para a complexidade e arte da cerveja», considera a grã-mestre.

 

Entronização Confraria Da Cerveja Em Coimbra

Percorrer o país de lés a lés

A «paixão pela cerveja» reúne atualmente mais de um milhar de confrades e confradezas da Confraria da Cerveja em todo o país. São verdadeiros “embaixadores” da cerveja, com diferentes estatutos dentro da Confraria, desde os de honra (que contribuíram para elevar o setor cervejeiro), mestres (colaboradores de cervejeiras), protetores (amigos da cerveja), e confrade consumidor, categoria criada em 2014 para homenagear um outro elo da cadeira, os consumidores de cerveja.

A Confraria, sendo de âmbito nacional, tem vindo a desenvolver um «percurso descentralizado» visando «alargar a sua presença e influência por todo o território, promovendo a cultura da cerveja e os seus valores junto de diferentes comunidades», explica Teresa Apolónia. Um périplo notório com a realização dos capítulos nos mais diversos locais, seguindo uma estratégia de «aproximar a Confraria dos seus confrades e do público em geral em diferentes regiões, reconhecendo as especificidades locais e fomentando um sentido de pertença e envolvimento nacional», refere a grã-mestre. Um percurso que já contemplou Lisboa, Porto, Santarém, Guimarães, Tomar, Faro, Leiria, Portalegre, Aveiro, Cascais e Viseu.

No ano passado coube a Coimbra acolher, em junho, no Convento de S. Francisco, este evento, que aconteceu no mesmo ano em que as duas marcas icónicas da cerveja de Coimbra, Topázio e Onyx, celebraram 100 anos. Cervejas que, depois de um prolongado interregno na produção, regressaram ao mercado, para gáudio dos muitos apreciadores.

A grã-mestre recorda a «ligação histórica relevante e genuína» de Coimbra ao universo cervejeiro, uma ligação que «vai além do produto em si, estando profundamente enraizada na sociabilidade académica e popular da cidade. Escusando-se a tecer comentários ao projeto liderado pelo empresário Arnaldo Baptista, que ditou o regresso da “cerveja de Coimbra”, Teresa Apolónia considera que o renascimento destas duas marcas é a prova de que «o verdadeiro património cervejeiro não é apenas nostalgia, é uma cultura que se renova, que convida, que reúne pessoas. É precisamente esse espírito que a Confraria da Cerveja quer ajudar a cultivar», remata.

B.I.

Constituição: Abril de 2003
Traje: Capa dourada, como a cerveja e o sol que, debruada a verde, como os campos onde brotam o lúpulo e a cevada. Capa fecha com dois alamares, o número de dedos que se espera que a espuma tenha de altura num copo de cerveja. O chapéu, preto com fita dourada tem uma forma alinhada com as cápsulas utilizadas nas garrafas de cerveja
Símbolos: Crachá em cobre tem a forma de uma caldeira de mosto estilizada e tem impressa a categoria do confrade. Caneca de vidro com tampa em estanho, para permitir apreciar a cor, o borbulhar e a espuma da cervejas
Forqueta de madeira: alusiva ao processo de brassagem da cerveja, é usada pelo grão-mestre ou grã-mestre na entronização de novos confrades e imposição de insígnias
Capítulo: primeiro semestre, rotativo, que pode ocorrer em qualquer localidade do país
Confrades: mais de mil (entre confrades de honra, mestre, protetores e consumidor)

Junho 11, 2026 . 20:15

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