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Margem esquerda conquistada pelos sabores da lusofonia

Uns podem matar saudades, outros descobrir propostas novas a nível gastronómico, da música ou da literatura. Festival começa sexta-feira nos Jardins do Mosteiro.

Os aromas dos quatro cantos do mundo juntam-se a partir de sexta-feira nos Jardins do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. E não vêm sozinhos. Trazem consigo a música e a dança, as artes e os autores que, em todo o mundo lusófono, escrevem na língua de Camões. É o Festival Sons, Saberes e Sabores da Lusofonia, que durante três dias vai transformar a margem esquerda na catedral da lusofonia.

Trata-se da sétima edição do evento, que apresenta um conjunto de novidades, a começar pela deslocação para Santa Clara. O desafio surgiu por parte da organização do evento, assumida pela Casa de Angola, e o executivo liderado por Bertília Simões nem pestanejou. «Os nossos valores estão alinhados com este festival», afirmou a presidente da União de Freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas, que não tem dúvidas de que a diversidade cultural é «fator de enriquecimento» e o Festival da Lusofonia, «mais do que uma língua comum, é um festival de histórias partilhadas, de culturas que se cruzam, de tradições que se enriquecem e uma ligação que ultrapassa fronteiras e oceanos».

«Valorizamos o nosso património com eventos como este», disse a autarca local, ontem na apresentação do evento, que decorreu no Recordatório da Rainha Santa, empenhada nesta «parceria» com a Casa de Angola e no sucesso do festival, um exemplo perfeito de que «a diversidade não é um obstáculo, mas uma oportunidade para um enriquecimento mútuo».

Festival da Lusofonia, "mais do que uma língua comum, é um festival de histórias partilhadas"

Bertília Simão reconhece que o tempo recorde para a organização, bem como o facto e ser uma estreia, representa um desafio acrescido, mas acredita que tudo vai correr da melhor maneira e o primeiro Festival Sons, Saberes e Sabores da Lusofonia vai ser um sucesso. «Este festival fazia falta e fica muito bem na margem esquerda», concluiu.

Uma mudança que acontece depois de seis edições, realizada equitativamente em parceria com a União de Freguesias de Coimbra e com a Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais, que mantém a «filosofia extremamente simples», salientou Rui Amado, da Casa de Angola. Uma filosofia que passa por «envolver as diversas comunidades imigrantes da lusofonia num projeto coletivo, que permita uma afirmação da sua identidade cultural ao nível dos sabores, dos saberes e dos sons».

Um evento que, naturalmente, “pisca o olho” a todos quantos tiveram ou têm uma relação de proximidade com Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, Brasil e Timor-Leste e que têm aqui uma oportunidade para saborear os aromas da ginguba, do óleo de palma, do coco, da mandioca, do milho, da batata doce e do gindungo, isto só para referir alguns dos condimentos mais usados nesta cozinha de sabor intenso, que conforta a alma, com um caldo de chabéu, uma muamba de galinha, uma cachupa ou uma matapa, entre muitos outros pratos. Ainda para os saudosistas - mas também para os aficionados - uma referência especial às cervejas Cuca (Angola) e Mac-Mahon (Moçambique), presentes no festival, a par e passo com a Práxis, a cerveja de Coimbra, também instalada em Santa Clara.

Como representante luso e com caráter único, o certame conta com a presença de uma barraquinha de farturas, que confere sempre um sentido de festa a qualquer evento.
Igualmente satisfeito com a estreia na margem esquerda, Rui Amado entende que se trata de «um casamento feliz» que promove a cidadania e o convívio, abraça a interculturalidade e contribui para a inclusão. A abertura está marcada para sexta-feira, às 19h30.

Destaque à literatura lusa e no feminino

«Sem qualquer pretensão», o Festival Sons, Saberes e Sabores da Lusofonia pretende, também, ser um espaço com vocação para «dar visibilidade à literatura em português, com vários sotaques». «Já passaram por este festival nomes grandes da literatura lusófona», disse Rui Amado, para destacar, nesta edição e pela primeira vez, o enfoque na escrita no feminino e também numa maior presença de autores portugueses, contrariamente ao que tem acontecido, entre os quais destacou Rita Capucho, Rosa Fonseca, Clementina Matos.

A vertente literária leva ao festival um nome sonante da música, Vitorino Salomé, «uma figura mítica» que vai apresentar o livro “Mancebos Solteiros do Mar”, de José Rodrigues Cardoso, sábado, às 18h30.

Os sons da música e os ritmos da dança apresentam-se ao vivo, em diferentes momentos, incluindo mesmo as batidas eletrónicas do DJ Chimucadas (Angola), a pensar nos mais jovens, e transformar o festival num momento de «convívio de gerações».

Junho 10, 2026 . 11:01

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