
Confraria dos Bolos, Doces, Aguardentes e Licores: Cabaz de sabores únicos e ancestrais
Licor de café e bolo finto não podem faltar, por alturas da Páscoa, em todas as casas de Ervedal da Beira. São as personagens centrais da mesa, quando as portas se abrem para a visita pascal. Uma bênção levada aos residentes, já “abençoados” com estes dois produtos únicos. A mesa pode comportar outras iguarias, como a aguardente de pera, os matrucos ou o licor de tangerina. Um delicioso cabaz de produtos locais, alguns deles únicos, todos com um toque de genialidade, que a Confraria dos Bolos, Doces, Aguardentes e Licores de Ervedal da Beira assumiu defender, promover e preservar.
«O mais peculiar é o licor de café», assume o grão-mestre, que recentemente assumiu o leme da Confraria. Um «licor único», «muito bom», «muito forte», «uma tradição muito local e característica da povoação de Ervedal da Beira». Tanto assim é que nas redondezas não existe. Distante, na região da Galiza, na vizinha Espanha, existe a tradição de «um licor de café igualmente muito forte», refere José Manuel Escada.
Um produto curioso, tendo em conta que o ingrediente principal, o café - não a bebida tão apreciada pelos portugueses, mas o grão, o fruto que lhe dá origem - não existe no território. Um facto que motiva muitas interrogações relativamente à origem desta bebida licorosa.
A justificação mais provável estará no surto migratório das gentes do Ervedal rumo ao Brasil
A justificação mais provável estará no surto migratório das gentes do Ervedal rumo ao Brasil. Isso mesmo defende o anterior grão-mestre, António Duarte, um dos fundadores da Confraria, baseando-se nos resultados da investigação história feita por um especialista, Fernando Pais, que oferece dados surpreendentes, como o facto de, antes de o concelho de Ervedal da Beira ser extinto, em 1885, e integrado no de Oliveira do Hospital, a povoação de Ervedal tinha três mil habitantes, tão só o dobro da população da vila de Oliveira do Hospital.
Os documentos permitiram ao historiador concluir que entre os seis mil passaportes de pessoas da Região Centro que imigraram para o Brasil, «cerca de uma centena eram do Ervedal». Um surto migratório que aconteceu na altura da chamada «escravatura branca», esclarece António Duarte, o que significa que os imigrantes «trabalhavam dois anos só para pagar a viagem» de Portugal para o Brasil, não auferindo de qualquer salário, tendo apenas direito e acesso a alimentação e a alojamento. Quando esses ervedalenses regressavam ao torrão natal, «traziam o café, produto que era muito conhecido no Brasil, mas que em Portugal era praticamente desconhecido. Na altura, consumia-se cevada», esclarece o confrade fundador.
Os grãos de café torrados exalam, naturalmente, um aroma intenso a café e «alguém teve a ideia de os colocar a macerar em aguardente», adianta António Duarte. Tratava-se, tão só, de replicar um modelo de aproveitamento já com pergaminhos na região, que a população de Ervedal da Beira conhecia na perfeição e usava de forma recorrente, designadamente a utilização de peras secas.

"O uso de café moído torna o processo mais rápido, mas tem o problema da filtragem"
«Cerca de dois anos» é o tempo necessário ao processo produtivo, ou seja, para uma perfeita maceração do grão na aguardente. «O uso de café moído torna o processo mais rápido, mas tem o problema da filtragem», alerta, decorrente da chamada “borra” do café. O açúcar, colocado a gosto, completa a receita deste licor único. «Um produto caro» e que por isso «só se consumia na Páscoa» mas que conquista quem o prova. Uma tarefa que a Confraria assumiu desde a sua criação, em 2013. «Levamos sempre o licor de café connosco quando vamos aos capítulos das outras confrarias e é sempre um sucesso», garantem os grão-mestres. A propósito, António Duarte recorda o empresário Rui Nabeiro, o grande mestre do café, que também se rendeu a esta iguaria e só não integrou a Confraria de Ervedal da Beira na qualidade de confrade de honra porque a morte chegou mais cedo.
Igualmente único é o bolo finto. Com um sabor requintado, macio, diferente em tudo, em nada condiz com a origem humilde e a simplicidade da confeção. «Só se fazia na Páscoa», explica António Duarte, usando as sobras do pão e cozido no forno comunitário. À massa do pão juntavam-se ovos, algum açúcar, pouco, e «muito azeite de boa qualidade». «É o azeite que faz a diferença deste bolo», sublinha o confrade fundador, que salienta o facto de os ingredientes do bolo finto serem produtos que, com exceção do açúcar, «existiam em qualquer casa», num ambiente marcadamente rural, onde praticamente todas as famílias tinham “criação”, com as galinhas a fornecerem os ovos, e também possuíam oliveiras e, naturalmente, azeite de grande qualidade.
O “cardápio” da Confraria de Ervedal de Beira também inclui os matrucos, um biscoito seco, onde o azeite tem um lugar especial

Depois de bem batida, à mão, naturalmente, a massa finta é colocada numa forma tradicional de bolo, com buraco, e coze em forno de lenha. A Confraria dos Bolos, Doces e Licores adquiriu, há três anos, um fogão a lenha, que está instalado na sua sede e onde as pessoas interessadas «podem confecionar o bolo finto ou os matrucos», esclarece ainda.
O “cardápio” da Confraria de Ervedal de Beira também inclui os matrucos, um biscoito seco, onde o azeite tem um lugar especial, mas contrariamente ao que acontece com o bolo finto ou com o licor de café, não tem esse estatuto único, uma vez que é uma receita tradicional partilhada por toda a região da Beira Serra.
Estatuto semelhante apresenta a aguardente de pera. Uma designação «errada» no entender do grão-mestre, que com o preciosismo próprio do investigador que é, faz questão de explicar que se trata, sim, de uma bebida espirituosa ou mesmo um licor (dependendo da quantidade de pera) que resulta da imersão de pera de S. Bartolomeu em aguardente. Num parênteses, convém esclarecer que a pera de S. Bartolomeu é uma variedade de pera exclusivamente consumida depois de seca e característica de uma determinada região que compreende o concelho de Oliveira do Hospital, tratando-se, como tal, de um produto endógeno da região. «A aguardente de pera não é produzida a partir da pera em si», esclarece ainda, com o mesmo rigor científico, José Manuel Escada.
O certo é que a pera-passa “amacia” a aguardente, tornando-a mais doce e mais atrativa, e deu origem a uma bebida tradicionalmente usada no Ervedal e numa franja geográfica da região. O grão-mestre lembra, a propósito, uma pesquisa feito pelo antigo eurodeputado António Campos, natural de Oliveira do Hospital e uma personalidade desde sempre ligada à agricultura e ao mundo rural, de acordo com a qual, nas primeiras décadas do século passado, «o valor do negócio da pera de S. Bartolomeu era «superior ao do Queijo da Serra», hoje um ícone mais do que reconhecido e consagrado a nível nacional e internacional. «As pessoas aproveitavam as peras mais pequenas, mais imperfeitas, para colocar na aguardente, que fica melhor do que sendo simples», esclarece.
O grão-mestre reforça a ideia de que esta técnica de maceração, usada com a pera, foi aplicada aos grãos de café, daí resultando, com a junção de açúcar, o licor de café.
Também muito usado no Ervedal, por alturas da Páscoa, mas igualmente transversal a um vasto território, é o licor de tangerina, também ele feito, à semelhança do de café e da aguardente de pera, praticamente em todas as casas, de forma artesanal e oferecido a familiares e amigos.
Produtos de origem caseira que a Confraria dos Bolos, Doces, Aguardentes e Licores de Ervedal da Beira jurou promover, defender e divulgar. Um projeto formalizado em dezembro de 2013, com a constituição oficial da confraria. Esmeralda Pombo Albuquerque, uma “mulher de armas”, que liderava a Banda Filarmónica de Ervedal da Beira, foi a grande mentora da ideia e a primeira grão-mestre.
Festival ou concurso para envolver a população
Todo este cabaz tem um «potencial enorme em termos de comercialização», reconhece o grão-mestre. «Produtos caros», salienta, de «produção caseira», «com muita qualidade» que, com raríssimas exceções, tão pouco são comercializados o que significa que o acesso está vedado a quem não tiver amigos ou conhecidos em Ervedal da Beira que possam confecionar qualquer destes produtos ou diligenciar junto de terceiros o especial favor da sua produção. Aliás, a própria Confraria tem de recorrer ao saber-fazer de alguns confrades e pedir o apoio dos residentes para reunir o licor de café e o bolo finto de que necessita em quantidades superiores aquando do capítulo, que há dois anos reuniu 43 confrarias, incluindo três espanholas, e mais de 180 confrades.
A verdade é que a Confraria em si mesma não tem a função de criar negócio, sublinha o grão-mestre, mas já deixou mais do que provado que há matéria-prima para isso, particularmente no que se refere ao licor de café e ao bolo finto.
Um «maior envolvimento da comunidade» poderá representar mais um passo nesse sentido, um projeto que José Manuel Escada pretende dinamizar, de molde a criar uma ligação mais forte entre a Confraria e a população de Ervedal da Beira. A ideia, em fase de maturação, está sobre a mesa, no sentido de aproveitar o ano em que não se realiza o capítulo externo para promover um momento de partilha e interação com a população local, que também dê destaque a cada um dos produtos.
A realização de um festival ou de um concurso poderá ser esse “click” para ajudar a trazer para a ribalta as pessoas que não vestem o traje mas têm o know how e são exímias na arte de confecionar os bolos, os licores, os doces e as aguardentes. Uma «abordagem que tem de ser muito bem feita», considera, e que também pretende ter impacto junto das gerações mais novas, cativando-as para «ganharem o gosto por estes sabores e saberes e manter viva esta singular tradição».
Vai um licor de canela?
As surpresas parecem não acabar no baú de memórias das gentes de Ervedal da Beira. Com efeito, a investigação de Fernando Pais permitiu descobrir outras preciosidades na mesa de Páscoa apresentada há 150 anos: o licor de canela. «Estamos a tentar perceber o que é», diz António Duarte, que recorda que várias pessoas do Ervedal da Beira estiveram na Índia, de onde poderão ter trazido a canela, cujo perfume muito peculiar poderá ter inspirado a criação de um licor, usando a técnica já amplamente testada da maceração.
Uma hipótese que faz sentido, mas que ainda não está devidamente fundamentada em termos documentais. Mais adiantado está, isso sim, o processo de testagem deste novo licor, encontrado nas memórias de um passado com século e meio de história. «Estamos a tentar recuperar o licor de canela», confidencia o antigo grão-mestre, entusiasmado com este novo desafio. Mais um exercício, mais um processo de aprendizagem dinamizado pela Confraria dos Bolos, Aguardentes e Licores que perspetiva mais um produto singular para enriquecer o recheado cabaz de Páscoa das gentes de Ervedal da Beira.
BI:
Constituição: Dezembro de 2013
Traje: Capa de burel, verde escudo, em memória do ervedo, os pomares de medronho que abundavam na região e que estarão na origem do nome Ervedal. O chapéu , vermelho, lembra o medronho.
Escapulário: verde e vermelho
Bandeira: verde sobre um fundo vermelho com os símbolos – medronho, licores, doces e bolos
Medalha: ostenta os símbolos: medronho, licores, doces e bolos
Sede: Cantina da antiga escola primária de Ervedal da Beira
Capitulo: Primeiro fim de semana de junho
Confrades efetivos: 35
Confrades de honra: 3
Confrades beneméritos: 2










