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“Somos todos uma família no fim de aqui passarmos” e essa é uma das grandes motivações no CRPG

O Centro de Reabilitação Profissional está em Coimbra desde final de 2024 e já conta com muitos casos de sucesso. Apoiar pessoas que sofreram de doença agravada, acidente ou AVC e começam a recuperar a vida profissional é um dos objetivos do centro, mas também a criação de laços afetivos e alertas para capacitação empresarial específica

São poucos os profissionais em serviço, mas bons. E, sobretudo, em crescimento.

Abel Duarte, Diana Pedroso, Inês Lima e Joana Fonseca são a equipa que conduz as atividades do CRPG - Centro de Reabilitação Profissional, “casa” da recuperação dedicada ao apoio psicológico e capacitação de clientes que sofreram das mais variadas doenças, nomeadamente oncológica ou acidentes de viação, da quais tenham resultado deficiências ou incapacidades.

«Somos uma entidade que se dedica a dar uma oportunidade a todas as pessoas de recuperarem a sua independência e que sejam reintegrados no mercado de trabalho e na sociedade de forma integra», explicou ao Diário de Coimbra Mónica Salazar, diretora do CRPG.

A chegada a Coimbra foi por motivo de descentralização e veio numa altura de «revisão de portaria, em 2023», que apresentou a oportunidade certa para uma expansão para Coimbra e Lisboa.

"Temos sempre em mente o combate ao estigma e como bandeira os valores de integração"

Segundo a diretora, a movimentação para o centro foi «muito positiva» e «tem funcionado muito bem».

«Houve uma aproximação, porque nós já tínhamos clientes no centro, mas estávamos muito focados no norte do país ainda», principalmente por, até 2023, estarem apenas radicados no Porto, na sua sede oficial.

Em termos de ação efetiva, 2025 afirmou-se como um ano de sucesso no panorama nacional, com resultados de 3.887 clientes ajudados e uma taxa de sucesso na integração acima dos 55%. «Este é um resultado de um trabalho que começou há 34 anos», diz.

Mas que trabalho é este? A equipa de reabilitação dedica-se à análise e apoio especializado a pessoas que, por diversificados motivos, se viram obrigados a parar as suas funções profissionais.

«O nosso primeiro foco passa por perceber o que cada pessoa não consegue fazer e o que consegue, para depois podermos trabalhar na sua recuperação e nos focarmos nas suas potencialidades, naquilo que têm a oferecer».

Em muitos casos a solução é adaptar o local de trabalho ou as funções das equipas profissionais, mas também existem clientes que acabam por dar uma volta de 180 graus ao seu percurso.

«Muitas vezes há interesse por parte das empresas em manter os seus trabalhadores, mas a verdade é que há experiências que os nossos clientes têm que podem, por eles mesmos, fazê-los querer mudar de vida», refletiu Abel Duarte, um dos psicólogos da equipa.

Esta mudança pode nascer de incapacidades físicas ou simplesmente de «experiências psicológicas» onde ocorre uma “epifania”.

«As pessoas pensam no que faziam e percebem que, se calhar, não querem estar ali o resto da vida e optam por utilizar o CRPG como uma oportunidade de mudança», revelou o especialista.

Nas suas sessões de reabilitação, cada processo torna-se único, mas o trabalho é muitas vezes feito em conjunto.

«Criamos grupos parecidos, o que não é difícil porque há quase sempre um objetivo comum: a superação e o regresso à vida normal», detalha Abel. Do seu lado, o foco é a ligação entre o cliente e a entidade empregadora, que se torna bastante importante.

«As empresas têm gosto em adaptar-se e acolher os seus trabalhadores. Sempre que percebemos qual é o objetivo e as potencialidades de um cliente começamos logo à procura do lugar certo», seguindo-se uma reunião com todos presentes para que não restem dúvidas sobre tudo o que cada um poderá fazer para que exista uma “dupla elevação”.

Apesar de «todas as pessoas» serem «perfeitamente recuperáveis», como enfatiza Mónica Salazar, existem sempre dúvidas.

«Do nosso lado sabemos que as pessoas têm um grande potencial e que é importante que recuperem. Isso muitas vezes representa a sua independência», indica, continuando, «as pessoas chegam aqui com muitas dúvidas porque acabaram de passar por uma experiência muito “pesada” psicologicamente».

Este “peso” é, regularmente, impeditivo de encontrar o ângulo certo de recuperação, e é aqui que entra o centro. «Trabalhamos muito a parte da aceitação, da compreensão», que segundo Abel Duarte é «fulcral» para que as pessoas encontrem o rumo certo na reabilitação e não desistam.

«Há um grande número de pessoas que chega até nós vindo de duas ou três desistências em momentos anteriores. Ficamos muito felizes por, ao fim de alguns meses, ver que conseguimos recuperar esses casos e deixá-los prontos para o mercado de trabalho».

Desde dia 21 de abril que há dois novos casos de sucesso, reabilitados, e que se preparam para enfrentar novos desafios, desta vez “sem” o apoio da CRPG. «A Elisabete e o André tiveram as suas dificuldades e enfrentaram-nas connosco e tiveram “alta” agora».

André Teixeira e Elisabete Marques concluíram o seu processo de reabilitação no dia 21 de abril e preparam-se para uma nova etapa

Centro De Reabilitação Avc 4

O sucesso da reabilitação

Elisabete Marques e André Teixeira têm um caminho de vida diferente, mas o destino fez com que se encontrassem no mesmo grupo dentro do Centro de Reabilitação Profissional.

A Elisabete sofreu com doença oncológica encefálica e doença oncológica com complicações derivadas a outras condições médicas, em dois processos delicados, um dos quais ainda em tratamento.

Por outro lado, o André sofreu um acidente de viação grave que lhe causou danos na zona cranial que lhe afetaram o cérebro.

«Foi uma altura muito difícil no que toca ao amor próprio. Sofri um pouco e só aqui é que consegui voltar a aumentar a minha autoestima, com a ajuda desta equipa», revelou Elisabete.

Com as «ideias no sítio», André beneficiou da reabilitação para «organizar a cabeça», que tinha ficado muito afetada.

«Não conseguia elencar ideias, não tinha lógica no pensamento e perdi alguma memória», mas com a ajuda dos terapeutas conseguiu recuperar «quase tudo».

Se, por um lado, Elisabete Marques se mostrou um pouco mais tímida ao nosso jornal, André Teixeira falou como é uma pessoa «animada» e com um espírito de luta muito forte, uma das grandes características que o fez superar este momento menos positivo.

«Sei que há pessoas que têm acidentes menos graves e partem. Estou aqui e tenho de estar muito feliz. Por isso, tive muita sorte», considera, admitindo que agora «é olhar para o futuro» e para onde poderá ir estagiar.

Estas são apenas duas das histórias de sucesso entre as mais de 30 mil que a CRPG já acumula ao longo da sua vida. Graças aos pareceres positivos dos últimos dois anos, o centro em Coimbra vai mudar de localização, para uma «mais central» e com condições «mais qualificadas».

«Queremos acolher mais clientes e aumentar a nossa equipa, ambos já são processos em curso», adiantou Mónica Salazar, que afirmou estarem prontos para passar para a Rua do Carmo no dia 30 de maio.

Capacitar e legislar para olhar para o futuro

A equipa da CRPG tem sido fulcral para ajudar as pessoas, mas também está a trabalhar atentamente e de perto para melhorar o futuro das pessoas com deficiências e incapacidades.

Equipa analisa cada caso a apoiar para poder integrar as melhores técnicas de capacitação

Centro De Reabilitação Avc 2

«Queremos combater o estigma que ainda existe, claro. Mas para isso temos de clarificar legislação e focar na capacitação», um processo que já está com os pés assentes na terra e pronto para “correr”.

«Às vezes as pessoas querem regressar, mas encontram portas fechadas, barreiras, que não sabem como ultrapassar. É importante dar a todos as ferramentas para as ultrapassar», sublinha a diretora.

«Temos como bandeira os valores de integração e os elementos enquadradores em termos de legislação e documentação de referência, como a Estratégia Nacional de Apoio à Pessoas com Deficiência».

No que toca a esta estratégia, Mónica Salazar acredita que está «a haver um esforço grande» por parte do Estado para colmatar as dificuldades das pessoas com deficiência e incapacidades, principalmente numa «perspetiva de desenvolvimento» e não de «assistência».

«Reina o modelo da reabilitação profissional, e isso é muito importante porque de certo modo esse é o modelo dos direitos».

Como visão para o futuro, a responsável adianta que está a ser desenvolvida uma nova metodologia onde a CRPG está a ser uma participante ativa, em parceria com o Instituto do Desemprego e Formação Profissional (IEFP) que visa «uma metodologia de retorno ao trabalho».

«O objetivo é garantir uma metodologia de retorno ao trabalho para pessoas em idade ativa. Já estamos numa fase avançada e temos muita expectativa de que essa metodologia, elaborada no âmbito da Estratégia Nacional de Apoio à Pessoas com Deficiência, possa ser um documento estruturante que, de alguma forma, atualize as medidas públicas e as torne mais coincidentes com as boas práticas relacionadas com o retorno ao trabalho destas pessoas», porque, «as pessoas têm dificuldade em recomeçar a trabalhar porque “ninguém” sa­be muito como o fazer».

Este “ninguém”, na verdade, existe, porém, existe falta de ligação entre as entidades de reabilitação, as empresas e os centros de estágio, estando es­te novo documento preparado para melhorar este elo.

Maio 4, 2026 . 09:00

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