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Lampreia vai ser recuperada se todos tiverem paciência suficiente

A quantidade de espécimes presente nos rios tem vindo a diminuir ao longo dos últimos anos. Existe uma possibilidade de recuperação, mas há, também, uma grande palavra-chave para que tal aconteça: Paciência.

Pensar na região de Coimbra, principalmente na sua tradição gastronómica e cultural, é pensar na lampreia. Uma iguaria típica nos pratos de muitos municípios que, ao longo dos últimos anos, tem vindo a “desaparecer”. Em 2025 a situação tomou proporções drásticas e foi implementada a primeira translocação da lampreia marinha na Bacia do Mondego, um trabalho que junta diversas entidades para combater o desaparecimento da espécie neste rio e iniciar um projeto fundamentado para outras regiões.

Poderia ser considerado um problema apenas português, mas a realidade é multinacional. Portugal, Espanha e França, consumidores e “casa” de lampreias, encontram-se todos em escassez, e por vários motivos.

«Um dos principais desafios, e dos que não conseguimos controlar, é a mortalidade em alto mar», revela Pedro Almeida, professor da Universidade de Évora (UE), um dos parceiros deste esforço.

Segundo o especialista, o presente ano deu uma oportunidade extraordinária aos espécimes lançados ao Mondego na passada semana: as cheias. «As cheias têm um papel fundamental nos rios, são um elemento de renovação», que em 2026 presenteou o ecossistema com «uma feliz coincidência», porque «a enchente coincidiu com [o regresso] da reprodução de 2018». O ciclo natural da vida das lampreias é de cerca de sete anos, contabilizando cinco anos em estado larval, elvins, que depois contam com dois anos de atividade em alto mar e regresso para a desova.

«Um casal de lampreias consegue desenvolver entre 70 a 100 mil ovos. Claro que depois sobrevivem apenas alguns milhares», mas o facto de algumas pessoas aproveitarem este momento para apanhar ambos os espécimes diminui exponencialmente a esperança de sobrevivência e de aumento das populações.

Largada Lampreia Em Coimbra 3

«É preciso ter paciência. É um claro exercício de paciência», relembrou Luís Filipe, vereador da Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Com um ciclo de vida deste género, apenas se podem ver resultados dentro deste espaço temporal, ou seja, «não é por termos feito uma ação semelhante no ano passado que os resultados se sentem neste», justificou também Raúl Pedro Almeida.

A realidade que se avizinha é negativa, e preveem-se «três a quatro anos muito maus, mesmo muito maus», como ocorreu em 2025. Segundo as informações avançadas por José Lopes, técnico da Região Metropolitana de Coimbra - Comunidade Intermunicipal, o Açude-Ponte já contabilizou, em anos passados «10 mil e 20 mil espécimes, sendo possível aferir que, no ano em que se contaram 20 mil lampreias nesse local, o Mondego teria cerca de 80 mil. No ano passado, contámos 300», número «extremamente preocupante», principalmente pela previsão de que se repetirá.

A lampreia é um dos «elementos identitários da região», que anualmente desenvolve «muitos certames que a têm como prato favorito»

Em 2024, por exemplo, o Festival da Lampreia de Penacova foi cancelado devido à escassez e, em 2025, muitos festivais do mesmo género optaram por utilizar alternativas para manter os pratos de lampreia, mas sem esta iguaria.

«Uma dose de lampreia, cuja quantidade varia de local para local, custa em média 50 euros. Estes preços são difíceis de manter tanto para restaurantes, como para consumidores», adiantou Vítor Norinho, da empresa Irmãos Norinho, que trabalha em conjunto com as restantes entidades para capturar e devolver ao rio as lampreias.

«Todo o processo de proteção é importante para nós, é do nosso puro interesse. Para a nossa economia, para que as gerações futuras tenham acesso à lampreia», explicou Vítor Norinho.

«O que estamos a fazer hoje só dará resultado se todos ajudarmos e daqui a sete anos. Podemos ter uma ideia sobre a situação graças à monitorização», mas ainda é muito cedo para perceber.

Para além da questão económica e gastronómica, há ainda o problema da biodiversidade e da natureza, que também beneficia desta recuperação de espécimes. «Foi identificada a necessidade de recuperar a bacia do rio Mondego no que toca a estes animais», existindo um trabalho de simbiose com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que também é parceira deste processo de reabilitação e translocação. Esta ação faz parte do projeto financiado e articulado com a Comissão Europeia, que prevê «fazer a reabilitação de sistemas ribeirinhos».

Largada Lampreia Em Coimbra 1

Dentro daquilo que é o sistema do rio Mondego, considerado de «grande biodiversidade», afigura-se como um “investimento” útil e promissor. «Temos uma responsabilidade [grande], já não há muitas populações em bom estado, de lampreia, sável, até da própria truta. O Mondego é um rio absolutamente excecional aqui em Portugal e deve ser acarinhado. É também necessário compatibilizar os usos. Temos muitas intervenções, não é um rio selvagem, mas está demonstrado que é possível ter biodiversidade, exploração económica e, simultaneamente, outros usos que também são feitos aqui no rio» sublinhou Pedro Almeida, também diretor do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

Para o futuro, a única coisa que resta é esperar e manter o bom trabalho realizado, tanto nas medidas de translocação como de vigia, monitorização e controlo, que ficam também a cargo da Guarda Nacional Republicana, que controlará as margens do rio, para impedir pesca excessiva.

Largada Lampreia Em Coimbra 2

Monitorização e controlo conjunto para ter sucesso

Os ciclóstomos (lampreias) que são agora largados no rio vêm diretamente do mar e preparam-se para terminar o seu ciclo natural de vida. Para se chegar ao objetivo de aumento da população, primeiro é necessário garantir que a espécie se encontra o mais protegida possível, mas isso apenas é possível com cuidados e atenções redobradas por parte de todos os intervenientes. Neste caso, é imperativo a participação de todos, desde locais, a pescadores, passando pelas forças de segurança.

«Foram delineadas e delimitadas zonas santuário ao longo de todo o rio Mondego, locais de interesse identificados como “os preferidos” para as larvas das lampreias», explicou Pedro Almeida, professor da Universidade de Évora (UE) e um dos responsáveis pelo projeto.

Para garantir o maior sucesso possível destas ações, a Guarda Nacional Republicana (GNR) foi alocada para apoiar as margens do rio, fazendo fiscalização de modo a impedir a pesca excessiva, fora da temporada permitida ou em zonas delimitadas. «É um trabalho fulcral para que as movimentações possam ter sucesso», identificou o perito.

Como cada casal pode ter entre 70 a 100 mil larvas, a pesca pode prejudicar fortemente as chances de sobrevivência dos ciclóstomos, que, por si só, já têm uma chance de sobrevivência bastante baixa.

«Num momento normal, sem a escassez que enfrentamos atualmente, dos 70 a 100 mil exemplares apenas alguns milhares sobrevivem. Se tirarem os dois progenitores essas chances ficam ainda mais baixas», identificaram os especialistas presentes na primeira sessão de translocação.

Para além da proteção através das ações da GNR, existem ainda as monitorizações controladas pela UE, que pretendem garantir uma análise mais clara a cada ano.

«Utilizamos três tipos de monitorização, com os pescadores profissionais, ou seja, os seus registos de captura, feitos voluntariamente; depois temos a contagem no Açude-Ponte, onde temos uma janela de monitorização que é vigiada com uma câmara 24 horas desde 2013; e aqui com pesca elétrica [método que utiliza um campo elétrico na água que atordoa os peixes para depois serem capturados], temos locais de amostragem definidos e todos os anos fazemos essa amostragem e comparamos o tamanho de cada uma e a quantidade em que aparecem. Isto dá-nos uma ideia de como é que a dinâmica populacional está a evoluir» adiantou Pedro Almeida.

Existindo a oportunidade de recuperar a situação atual, Luís Filipe, vereador da Câmara Municipal de Coimbra, indicou ainda que, apesar de não ser uma ação de fiscalização, os municípios também estão preparados para tomar algumas medidas que vão dar apoio.

«Do lado dos municípios entendemos que também temos alguma culpa, principalmente pelas intervenções que fazemos nas margens que podem afetar a população das larvas. Neste entender, e para o futuro, vamos trabalhar para evitar as obstruções nos rios e adaptar as intervenções para que não sejam feitas em alturas críticas ou de modo destrutivo para os espécimes do rio Mondego», assegurou o vereador.

Iniciativa apenas se prevê “dar frutos” em 10 anos

A proteção destes ecossistemas aquáticos começou em 2025, ano em que se realizou a primeira translocação de lampreias marinhas. A ideia nasceu após a perda forte de população de lampreias em 2024, o que motivou uma candidatura europeia que levou ao financiamento por fundos europeus em 100 mil euros.

Os santuários desenvolvidos foram identificados, já em 2025, mas como o ciclo de vida de cada lampreia é de sete a oito anos, os frutos deste investimento só se vão começar a sentir dentro de cerca de 10 anos, ou seja, em 2035.

No ano passado, a iniciativa translocou as primeiras 29 lampreias em Penacova, no seu Parque de Merendas da Rebordosa. O que se continuou a realizar, ao longo do ano, foram ações a montante, com perto do mesmo número de ciclóstomos, com o objetivo de aumentar a esperança de chegarem ao seu destino, os santuários.

Tendo em consideração os maus anos verificados, as preocupações dos especialistas continuam a firmar-se até, pelo menos, 2029, esperando-se perto de quatro anos de “maus resultados” no que toca à lampreia. Se este panorama se confirmar, poderão existir consequências a nível económico para os pescadores, restauração e consumidores, tanto pela falta de “produto” como pelo consequente aumento do preço de mercado.

«Neste momento uma dose de lampreia ronda os 50 euros, mas a verdade é que os relatos que vamos recebendo já nos mostraram que há locais a praticar preços ainda maiores», identificaram Vítor Norinho, representante da empresa Irmãos Norinho, e José Lopes, técnico da Região Metropolitana de Coimbra - Comunidade Intermunicipal.

Uma das razões que está ligada à génese deste problema foram os incêndios de 2017, como já tinha sido identificado em 2024 por Pedro Almeida, professor da Universidade de Évora e um dos responsáveis pelo projeto, que levaram a uma seca prolongada nas populações de lampreia.

«A falta de água, associada ao escorrimento de cinzas dos fogos para o leito dos rios e diversas formas de poluição, doméstica ou industrial, matam um número elevado de larvas. Além disso, muitas das larvas que conseguem alcançar os estuários acabam por sucumbir devido à sua debilidade, sem conseguirem alcançar o mar», explicou o perito, ainda em 2024.

Os impactos que ainda se fazem sentir na atualidade derivam de vários anos de má gestão, de seca prolongada e de pesca extensiva (em muitos casos ilegal), que, pelo ciclo de sete anos de vida, ainda hoje se fazem sentir.

Com os processos naturais do ecossistema e apoio deste novo projeto, a vida das lampreias pode ganhar um novo ímpeto, mas a palavra de ordem mantém-se sempre a mesma: paciência. Sem paciência e «calma nas épocas de pesca» e nas «revitalizações das margens», o sucesso destas iniciativas não vai existir. «Um dos problemas que não conseguimos controlar são os predadores no mar e as mortes por causas naturais. Se controlarmos aquilo que conseguimos já estaremos a aumentar as chances de virar a situação»

Abril 20, 2026 . 09:00

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