
Casa da Esquina leva à cena “Elas são 5 milhões”
É um espetáculo no feminino todo ele protagonizado por mulheres.
Um coro, constituído por 40 vozes, ao qual se junta a voz de cinco atrizes. Um “manifesto” de viva voz, que parte do icónico texto de Maria Velho da Costa, escrito há 50 anos.
Aos quatro milhões de que fala uma das “Três Marias”, somou--se mais um milhão, as mulheres que nasceram e cresceram com a democracia. “Elas são 5 Milhões” é o espetáculo que a Casa da Esquina vai apresentar no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), dia 17 de abril. Mais do que uma “Revolução de Mulheres”, uma chamada de atenção, um grito de alerta para situações reais, que se prolongam no tempo e demonstram que «as lutas pela igualdade continuam na ordem do dia».
Trata-se da reposição do espetáculo apresentado em maio de 2024 no Convento São Francisco, no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Uma reposição, renovada com novidades e um propósito solidário. Filipa Alves e Helena Faria, responsáveis pela dramaturgia e encenação, falam-nos desta versão atualizada que se prepara para subir à cena.
“Elas são 5 Milhões” é o espetáculo que a Casa da Esquina vai apresentar no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), dia 17 de abril
“Elas”, um coro de leitura em voz alta, dinamizado pela Casa da Esquina, que reúne mulheres dos 18 aos 70 anos, dá voz e vida aos textos. Maria Velho da Costa e a “Revolução de Mulheres” mantém-se como o lastro essencial do espetáculo. «É um texto belíssimo sobre a história de vida e das memórias das mulheres portuguesas do século XX», refere Helena Faria, que faz notar a sua plena atualidade, hoje, no século XXI.
«Continuam as situações de pobreza, com as mulheres a ganharem menos, situações de falta de equidade», exemplifica. «Elas são quatro milhões, o dia nasce elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda...», escreve Maria Velho da Costa, um texto que faz parte da memória coletiva, lido e interpretado, entre muitos outros, por Maria João Luís, Mário Viegas, Maria do Céu Guerra.
«Qualquer versão é sempre belíssima», referem as encenadoras e responsáveis pela dramaturgia.
O texto, que este ano perfaz 50 anos de criação, vai ser “entremeado” com outros textos, apresentados pelas atrizes Cláudia Carvalho, Mafalda Canhola, Rita Camões, Teresa Faria e pela própria Helena Faria. Um é sobre Conceição Massano, «uma jovem de 20 anos, presa por ter feito um aborto», diz Helena. «Talvez a única mulher julgada em Portugal por ter feito um aborto e já depois do 25 de Abril, em 1979, salienta Filipa Alves.
Sempre com «o contexto da situação da mulher», surgem outros textos, memórias do trabalho da ceifeira, da mulher traída pelo marido, o “Retrato de Mónica”, com a assinatura de Sophia de Mello Breyner Andresen, e também “Solidão”, um texto que integra as “Novas Cartas Portuguesas” e outros, que apresentam mulheres reais ou ficcionadas. Textos que convidam a fazer uma «reflexão sobre a situação da mulher» e permitem perceber que se o 25 de Abril representou um passo para a sua «valorização», o caminho a fazer ainda é longo.
«Queremos que o mundo seja justo e respeitador de todos os géneros», ressalvam as encenadoras
A encenadoras alertam ainda para «algum retrocesso» a que se tem vindo a assistir, com um crescendo de «preconceitos» a ganharem terreno.
Helena Faria diz mesmo que a «sociedade está a regredir», pois «há imensas conquistas que se estão a perder, pelo medo, pelo preconceito e também por uma materialidade exacerbada». Apesar de tudo, a expressão artística ainda consegue fazer ouvir a sua voz. “Elas são 5 Milhões” é um exemplo.
O espetáculo da Casa da Esquina, com duração de uma hora, é apresentado dia 17 de abril, pelas 21h30 e o bilhete custa 10 euros (8 com desconto), podendo ser adquirido online, através da plataforma Bolt ou na bilheteira do TAGV.
Receita ajuda a recuperar telhado da Casa da Esquina
A Casa da Esquina decidiu este regresso à cena do espetáculo “Elas São 5 Milhões” com o objetivo de angariar receitas para ajudar a recuperar o telhado da casa onde está instalada, na Rua Aires de Campos, em Coimbra, onde dinamiza todos as suas atividades e projetos destinados aos mais diversos públicos. A renovação já era uma necessidade, tendo em conta a «proveta idade» da habitação, e já estava equacionada, refere Filipa Alves. Todavia, o mau tempo que se fez sentir no início do ano na região Centro também ali deixou a sua marca, com o telhado a ficar bastante afetado, o que tornou urgente a sua substituição.
O investimento num novo telhado deverá rondar os 30/40 mil euros, talvez mesmo mais, tendo em conta o aumento significativo do preço dos materiais de construção. Filipa Alves recorda que, antes do temporal, uma simples telha custava 1,25 euros, mas recentemente o preço já subiu para os 2,5 euros.











