
Taveiro reviveu Queima do Judas para “afastar todos os males”
Transportado numa padiola por quatro homens valentes, o morto chegou ao largo da Capela, onde já estava montado o cadafalso, e ali foi colocado, bem à vista de todos. Uma tradição que a população de Taveiro reviveu ontem pela mão do Rancho Folclórico. Falamos da Queima do Judas, uma celebração integrada na quadra da Quaresma, mas que ultrapassa o âmbito religioso e ganha contornos de crítica social.
Isso mesmo explicou Valdemar Pereira, um dos responsáveis do Rancho, que orientou o cerimonial. «É uma tradição antiga», que tem como foco «uma pessoa que tenha feito muito mal ao longo do ano». À semelhança de Judas Escariotes, a personagem “negra” da Bíblia, que renegou Jesus e o vendeu por 30 dinheiros, também aqui está em causa uma “persona non grata”, julgada pela população, na praça pública, no sábado de Aleluia. «Dizem-se as verdades por meias palavras, mas quem está atento à sentença consegue identificar a pessoa», acrescentou ainda o responsável, mantendo o segredo relativamente à identidade deste Judas. «Não é uma pessoa da freguesia, mas está ligado à freguesia», rematou Valdemar Pereira.
José Carlos Varela assumiu o papel de juiz e rapidamente esclareceu o povo, em resposta à questão que lhe foi colocada, que sim, «houve julgamento», com o réu a ser condenado à forca e à imolação. Uma morte “dupla”, necessária para «ver se o mal se vai de vez! desta terra, Taveiro, uma terra com vida, tradição e cultura».
Rancho Folclórico de Taveiro dá vida a uma “tradição antiga” há mais de três décadas
E rapidamente começou a desenrolar o “velho pergaminho” contendo a sentença lavrada, pedindo que «rufem os tambores» para «atrair mais gente» à praça para testemunhar o momento.
«Faltam as carpideiras», fez notar o juiz, que justificou a ausência com o facto de Judas ter «gasto o dinheiro todo na compra de um terreno», nada sobrando para pagar os bons ofícios destas personagens. «Vós sois as carpideiras de Judas. Judas é quem vós quiserdes que seja… podem chorar, espernear», adiantou, começando a leitura da “sentença”, interrompida por mais um pequeno percalço, com o juiz a sofrer uma queda. «Mais uma traição de Judas!», alvitrou, sem hesitações.
«Boa pessoa, mas só quando dá jeito», de «língua bem afiada», «olhar de lado», «capaz de tudo prometer mas não cumprir», «rápido a apontar o dedo, lento a olhar para si» e pronto a por-se de lado «quando as coisas apertam», elencou o juiz, que declarou a necessidade de uma «limpeza geral», para «ver se nasce gente com mais palavra e menos paleio banal!». «Que leve com ele tanto disparate que fez durante o ano inteiro», decretou, dando ordem para atear o fogo e queimar Judas.
Mas não bastava ver arder o boneco de palha, envergando um belo fato preto e sapatos da mesma cor. «Rebente o Judas», exortou o juiz, destacando a importância do «exemplo». «Mereces rebentar pelo muito mal que fizeste às gentes de Taveiro, terra de vida, de tradição e de cultura», sublinhou. E Judas rebentou efetivamente não uma, mas diversas vezes, cumprindo-se a sentença com rigor e uma tradição com décadas, presenciada por uma vasta moldura humana, que se juntou no largo da Capela.
“Pregões” ajudam a identificar quem é o Judas, sem nunca referirem o nome da pessoa em causa
Solução de recurso para “rebentar” com Judas
O “boneco” explodiu, ontem, com a ajuda de foguetes. Uma solução de recurso que o Rancho Folclórico de Taveiro arranjou para colmatar uma falha com a qual vai ter de conviver de futuro. Isto porque, habitualmente, no corpo de Judas, feito de palha sobre uma estrutura de arame, eram colocadas estrategicamente «bombas de foguete», distribuídas pelos dois braços e pelas duas pernas, com uma centrada na cabeça, explica Valdemar Pereira. Todavia, a pessoa responsável por essa construção, que assegurou durante largos anos, já não está entre nós e «não há quem faça», lamentava o responsável do Rancho Folclórico de Taveiro. Todavia, o certo é que a alternativa funcionou, se bem que com alguma demora, e a tradição cumpriu-se, com a queima e rebentar do Judas a concretizar-se no largo da capela, como aconteceu nas últimas três décadas.











