
Exposição retrata censura à literatura do Estado Novo
«Este livro de contos é, de um modo geral, bastante mau, porque aproveita a mais pequena oportunidade para focar a questão social». Assim escrevia, em 1947, o capitão Borges Ferreira a propósito de “Sábado Sem Sol”, livro de autoria de Romeu Correia, visado e proibido pela censura do Estado Novo. Também “O Canto e as Armas”, de Manuel Alegre, distribuído para leitura em 1971 mereceu a reprovação da censura, «por grave inconveniência política», tal como “Pigalle”, de Nita Clímaco, classificado como «um pseudo-romance da mais extrema imoralidade».
Estes são apenas três exemplos de obras publicadas durante o Estado Novo e que fazem parte da exposição “Este livro de reles estofo”, com materiais do Arquivo Ephemera, de José Pacheco Pereira, ontem inaugurada na Casa da Escrita, em Coimbra.
Como recordou o professor e investigador na sessão de inauguração, ao contrário do que acontecia com a imprensa, a edição de livros não estava obrigada à censura prévia, acontecendo, muitas vezes à posteriori com as obras já editadas.
Por isso mesmo, quem visitar esta exposição - patente até 30 de abril - encontra também obras e o respetivo despacho, que depois de visadas, mereceram a autorização, como é o caso de “Seara de Vento”, de Manuel da Fonseca, com a indicação de que «é de deixar publicar, pois é do mesmo género explorado pelos Fernandos Namora, Aquilinos, etc., etc,», assinava Fernando Salgado.
É com orgulho que José Pacheco Pereira fala da sua coleção privada que caminha para «sete quilómetros de estantes», dispersa por diferentes locais, como Marmeleira (Rio Maior) e Barreiro, num espólio que ultrapassa 200 mil títulos de livros e brochuras, jornais, fotografias, discos, entre outros artigos.
«Nalguns casos permite conhecer melhor a História de Portugal», salientou, com a certeza: «sabemos coisas da vida dos portugueses que não vemos em lado nenhum. Há muito material que as pessoas, às vezes, não ligam», referiu, sublinhando que há material que «retrata a vida quotidiana».
No que denomina de “Arquivos dos Césares”, destaca, por exemplo, que no arquivo pessoal de Sá Carneiro, havia «um espólio que foi escondido».
Entre os 450 espólios da Ephemera, Pacheco Pereira recorda também «o espólio cheio de surpresas» de Vítor Crespo e lembra que há discos de António Calvário que foram proibidos. Na exposição na Casa da Escrita dá-se destaque especial a obras de mulheres escritoras e da corrente neo-realista.
Entre os livros e as mensagens nas paredes, em exibição estarão também o documentário "Lápis Azul" de Rafael Antunes bem como o filme com o mesmo nome e do mesmo











