
Fotografias trazem à luz do dia a fauna das grutas
Pela lente do fotógrafo António Luís Campos, o ecossistema da gruta de Vale Telheiro, em Loulé, que vive na escuridão, e longe dos olhares de quase todos os humanos, veio à luz do dia. As cerca de 20 fotografias podem ser agora vistas e apreciadas na Science Photo Gallery, no UC Exploratório, inaugurada ontem pelo fotógrafo conimbricense e pela investigadora Ana Sofia Reboleira, uma das responsáveis pelos avanços científicos na investigação e descoberta de novas espécies de fauna cavernícola dentro desta caverna e outras espalhadas pelo país.
Classificada como hotspot mundial de biodiversidade cavernícola, a gruta Vale de Telheiro é um verdadeiro tesouro nacional pela biodiversidade presente num habitat adverso, envolto em escuridão, onde as concentrações de dióxido de carbono são muito superiores ao meio ambiente na superfície e o oxigénio é cada vez mais escasso. Condições essas que o fotógrafo que trabalha para a National Geographic teve de enfrentar para fotografar não só as espécies troglóbias [animais que vivem no interior de cavernas ou em águas subterrâneas], como acompanhar o trabalho da equipa de biológos e espeleólogos como Ana Sofia Reboleira.
«O desafio principal é mesmo chegar lá dentro, porque falamos de cavidades muito estreitas, de difícil acesso. Depois fotografar num ambiente que é hostil, com muita lama, sem luz e à procura de animais minúsculos e em segurança torna tudo ainda mais desafiante», explicou o fotógrafo, que mesmo habituado à natureza, foi a primeira vez que enfrentou um ambiente tão diferente. Entre 2019 e 2024 fez duas expedições à gruta e conseguiu fotografar espécies tão pequenas, muitas delas com menos de um centímetro, como o pseudoescorpião, centopeias ou pequenas aranhas.

«Estamos a falar de espécies que vivem num ambiente sem qualquer luz, não têm pigmento e que eram desconhecidas», realçou a investigadora, dando ênfase às condições adversas dentro da gruta. «Entrar dentro da caverna é como fazer mergulho a seco», disse. Em cada expedição é preciso levar máscara e botija de oxigénio que permite a permanência de humanos na cavidade, por outro lado, a monitorização constante do ambiente permite agora constatar que está cada vez mais tóxico e com níveis de dióxido de carbono muito altos que poderão ser causados pela própria atividade biológica, contaminação ou alterações no ecossistema. Mas para esta questão «só daqui a 10 anos é que poderá haver uma resposta», salientou a investigadora.
No mesmo grupo de investigação que nos últimos anos tem realizado expedições ao interior desta gruta, está um investigador de paleomagnetismo da Universidade de Coimbra, que tem recolhido exemplares de estalagmites que vão permitir estudar o campo magnético da terra ao longo de milhões de anos.











