
Obra para “ler devagar” vence Prémio Inês de Castro
“A Chuva que lança a areia do Saara” é «um livro tão excêntrico, nada complexo, nada erudito», que a própria autora, Ana Margarida de Carvalho, estranhou o interesse do júri que lhe atribuiu o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2025. Ao receber ontem o galardão, a escritora e jornalista, com outras obras premiadas, reconheceu o livro nas palavras de apresentação, momentos antes, de Isabel Lucas (membro do júri). Sim, o texto por vezes «é duro, como as pedras, inóspito, como as pedras, inclemente, como as pedras», concordou a autora.
Vale a pena transcrever, nesta notícia, parte da sinopse da obra: “Uma carroça afasta-se, lesta, da costa. Na parte de trás, jaz Firmino, feito prisioneiro e condenado, sem saber, a trabalhos forçados numa pedreira escondida no côncavo de um Portugal remoto. Os homens que aí trabalham a pedra, dela querendo extrair um anjo, fazem-no em nome de uma fé sujeita aos caprichos de um pároco ávido de milagres, um artista cego e um burlão de meia-idade, abastado e caprichoso”.
Contextualizado o porquê das “pedras” no discurso de agradecimento, merece também destaque a visão de Ana Margarida de Carvalho que, num mundo virado do avesso, muito demencial e indecifrável, «é importante resistir, parar para ler devagar (…), deixar correr os burburinhos do mundo e poder silenciar-se, como uma pedra».
Antes, Isabel Lucas explicara que a obra se afasta do momento em que vivemos, «em que a literatura é pressionada a ser imediata» e faz precisamente «o caminho oposto, desacelera», é de leitura lenta, da atenção, da dúvida, em que a autora «confia no leitor».
No romance, a associação ao mito inesiano estará, na reflexão de Ana Margarida de Carvalho, na violência, no sentimento de pertença, «no desgosto que não passa e por vezes nem queremos que acabe».
Entre outras distinções, a escritora e jornalista venceu por duas vezes o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e foi galardoada com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Foi finalista do Prémio Oceanos, do Prémio da União Europeia para a Literatura e do Prémio PEN Clube Português.
Consagração para José Rentes de Carvalho
Além desde prémio literário (19.ª edição), o júri, composto, por José Carlos Seabra Pereira (presidente), Isabel Pires de Lima, Isabel Lucas, Mário Cláudio e António Carlos Cortez, concedeu o Prémio de Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro 2025 ao escritor José Rentes de Carvalho, pela longa e notável carreira literária.
Sobre o escritor e respetiva criação falou José Carlos Seabra Pereira, com referências e reflexões sobre diferentes livros, deixando perceber que o universo da obra é atravessado por um certo sentimento de irrealização. Que não é bem de frustração, será mais de “o ainda não”, do vamos “lá ver se sim”. Prestes a fazer 96 anos, o autor fez-se representar na cerimónia pelo editor, Francisco José Viegas.
José Rentes de Carvalho nasceu em 1930 em Vila Nova de Gaia, onde viveu até 1945. Levado a abandonar o país por motivos políticos, viveu no Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque e Paris, trabalhando para jornais e revistas.
Em 1956 passou a viver na Holanda, onde, depois de trabalhar em várias profissões, se licenciou (com uma tese sobre Raul Brandão) e foi professor de Literatura Portuguesa entre 1964 e 1988 na Universidade de Amesterdão.
Dedica-se desde então exclusivamente à escrita e a uma vasta colaboração em jornais portugueses, brasileiros, belgas e holandeses, além de várias revistas literárias.
Escreveu romances, contos, diário, crónica, e guias de viagem ou ensaios
“Num mundo virado do avesso, muito demencial (...) é importante resistir e poder silenciar-se, como uma pedra”
Mito inesiano tem inspirado autores consagrados
O Prémio Literário Fundação Inês de Castro, anual, tem por objetivo galardoar obras publicadas sobre motivos do mito inesiano, podendo abranger temas tão amplos como a paixão, vingança, tragédia, a razão de Estado ou outros aspetos da representação histórica e cultural portuguesa.
Ao longo dos anos, tem distinguido autores e obras de reconhecido valor, lê-se no site da Fundação Inês de Castro, em que surgem como exemplos Jorge Reis-Sá (2024), António Lobo Antunes (2022), Rita Taborda Duarte (2023), Daniel Jonas (2021), Jorge Sousa Braga (2020), Djaimilia Pereira de Almeida (2018), Mário de Carvalho (2013), Gonçalo M. Tavares (2011) ou José Tolentino Mendonça (2009).











