
Lousã evocou 100 anos da “primeira” viagem turística à Serra
Professor da Faculdade de Direito de Coimbra, Adrião Forjaz de Sampaio (1810-1874) deixou num pequeno livro relato de uma encantadora subida à Serra da Lousã, a 8 de julho de 1838, sentindo mais do que recompensados os difíceis caminhos da altura por paisagens de uma beleza inesperada.
Um século depois, a Câmara e a Comissão de Turismo da Lousã resolveram comemorar o acontecimento, pioneiro da propaganda turística de uma das principais atrações do concelho, reeditando “Viagem à Serra da Lousã, em Julho de 1838” e organizando uma excursão pelos locais descritos no folheto de Forjaz de Sampaio, com destaque para o alto da serra (Trevim e Santo António da Neve), Fábrica do Penedo (Papel do Prado), Ermidas e Castelo de Arouce.
A iniciativa foi anunciada no Diário de Coimbra de 12 de julho de 1938, informando que estavam abertas inscrições para a viagem comemorativa que teria lugar a 17 desse mês, domingo, com excursionistas de Coimbra e da Lousã. A organização oferecia aos convidados transporte desde Coimbra, com partida às 9h00 do Parque da Cidade, prevendo-se piquenique e almoço na «primeira pensão de repouso na serra, na aprazível vivenda de Alfocheira», gerida pelos proprietários da pensão Tivoli da Lousã.
Poços da Neve da Serra da Lousã forneciam Lisboa, refrescando no estio “as gentes do Paço e os alfacinhas opulentos”
«Quatro rápidas e confortáveis camionetas», em que seguia um repórter deste jornal, além de vários automóveis particulares, levaram os excursionistas de Coimbra rumo à Lousã, onde foram recebidos na Câmara Municipal, à porta da qual os aguardavam «um mar de homens com muitas senhoras à mistura» e duas bandas de música, a Filarmónica Lousanense e a Filarmónica da Fábrica do Papel do Prado, tocando «de cada um dos lados do edifício».
No «rico salão nobre, pejado de gente», o presidente da Câmara, Pedro Mascarenhas de Lemos, deu as boas-vindas aos visitantes e explicou as razões da iniciativa, recordando a «trabalhosa viagem» de Forjaz de Sampaio, na altura por «terras e montes sem estradas». Desde então a Lousã progredira muito, completara-se na década de 20 a estrada da serra, ligando esta vila a Castanheira de Pera e tornando acessíveis ao automóvel «pontos onde, noutros tempos, dificilmente se podia ir, e só a pé ou a cavalo».
No entanto, admitia, apesar da fábrica de papel – «uma das melhores do país» – e de outras «indústrias florescentes», o concelho era pobre e necessitava, por isso, «do bem que o turismo lhe pode trazer».
Discursos feitos, subiram os excursionistas ao píncaro da serra, por «uma das mais pitorescas e impressionantes estradas do país». «Que beleza! Que deslumbramento!», exclamou o repórter, observando do “altar do Trevim”, a 1.200 metros de altitude, paisagens de perder de vista. No mesmo local, Amorim Girão e Raul Miranda, da Universidade de Coimbra, falaram aos visitantes das belezas e aspetos geológicos da Serra da Lousã, sem esquecer Santo António da Neve e «a sua mais interessante curiosidade», os Poços da Neve.
Ao prolongado almoço em Alfocheira, «muito bem apresentado e melhor comido, em ambiente alegre e de perfeita camaradagem, à sombra de árvores frondosas», seguiu-se a visita às Ermidas da Nossa Senhora da Piedade e ao Castelo. Ali, foi orador Vergílio Correia, professor da Faculdade de Letras e diretor do Diário de Coimbra e do Museu Machado de Castro, que chamou a atenção para a necessidade de preservar aquela «joia esquecida da arquitetura militar medieval».
Antes do regresso a Coimbra, os excursionistas tiveram ainda oportunidade de apreciar as instalações de «um dos mais importantes estabelecimentos industriais do país», escutando com interesse uma palestra de Álvaro de Lemos sobre a história e funcionamento da Fábrica do Papel do Prado.
(Pode ler hoje esta e outras histórias e curiosidades na edição impressa do Diário de Coimbra. No nosso site estão também disponíveis mais de três centenas de páginas de memórias dos primeiros anos do jornal)











