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No teatro da vida, todos temos um papel a desempenhar

Em apenas três minutos, utentes do Farol mostraram, no Dia Mundial do Teatro, como uma peça pode ser espaço de vivências, partilha, inclusão, terapia e afirmação pessoal

Rui Carolo, José Rodrigues, Rodrigo Cruz, Afonso Restelo, João Miguel e Ana Paula Rainha não subiram ao palco, mas transformaram o refeitório num espaço cénico. Não faltou o público, a música e, naturalmente, um grande aplauso final. Aconteceu ontem à tarde, nas instalações do Farol – Centro de Alojamento Temporário, com o Dia Mundial do Teatro a ser assinalado com a apresentação de uma pequena peça, de apenas três minutos, mas grande no significado, na mensagem, na realização pessoal de cada um dos atores do grupo “Vidas em Palco”, que nesta estreia contaram com a participação de Ana Paula Raínho, animadora da instituição.

Especial porque, contrariamente ao que é habitual, a peça “veio de dentro”, uma criação de Aristides Borges, recentemente aposentado que no Farol encontrou um teto e também a inspiração que a atividade profissional, como formador na área da cozinha, pastelaria, restaurante e bar não lhe permitiram. Agora, com tempo, descobriu novas capacidades que desconhecia. Pinta francamente bem e é um apaixonado pelas artes. Inclusive pelo teatro.

«Numa noite escreveu a pe­ça», conta Cristina Justina Dias, diretora da instituição. Três páginas escritas à mão com uma «letra muito bonita». «Os sonhos não são para cortar! Ademais este, perfeitamente realizável», adianta a diretora, lembrando que a instituição tem um grupo de teatro e se habitualmente leva à cena uma peça no Natal e outra em maio, no aniversário, nada impedia que o Dia Mundial do Teatro fosse oportunidade para mais uma encenação.

E assim foi. Os ensaios começaram em janeiro, sob a orientação de Ana Paula Raínho, em média três vezes por semana. Ontem viu-se o resultado, demonstrando que «o teatro começa nas pessoas» e nas suas histórias, mesmo que nunca tenham feito pisado um palco, nem sequer na escola, tenham dificuldades em ler ou assumam ter medo, como fizeram três dos atores. Tudo porque, «no teatro não é preciso ser perfeito, é preciso ser verdadeiro!», fez notar o narrador. Mais, «o teatro vive-se!». «Se respiram, já estão a representar; se sentem já fazem teatro; se vivem já têm um papel». Juntos, de cabeça erguida, os cinco utentes do Farol, a animadora e o autor da peça, “reivindicam” o seu lugar, o seu valor, o seu poder-fazer, porque, «no teatro da vida todos temos um papel!». Uma mensagem fortemente aplaudida pelos residentes da instituição e por alguns utentes da Unidade de Cuidados Continuados, que também assistiram à peça.

«Mais um momento brilhante», elogiou a diretora, para satisfação dos atores. Particularmente feliz estava o autor da peça. «Espero que cada um de nós encontre aqui um lugar», pois «todos temos um papel» e «todos temos valor», dizia-nos Aristides Borges.

Uma História Real De Inclusão No Farol Fig 7

Porto de abrigo para pessoas vulneráveis

CAT O Farol – Centro de Acolhimento Temporário, é uma valência da Cáritas de Coimbra, que funciona no Tovim desde 2005 e acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade. Pessoas sem teto, que vivem na rua. Algumas saíram de hospitais ou de estabelecimentos prisionais e não têm retaguarda familiar. Transversal é a falta de trabalho, com a idade – 45 aos 54 anos – a não facilitar a integração no mercado. «A falta de casa será o principal problema, mas não é o único», refere a diretora, que sublinha as «muitas vulnerabilidades», designadamente em termos de saúde e também a grande fragilidade económica comum a todos os utentes. São 73/74, entre homens e mulheres, tantos quantos a capacidade da instituição, que ali têm o seu teto, fazem as refeições, têm acesso garantido à medicação prescrita e a possibilidade de se envolver em várias atividades, de que o atelier de teatro é um exemplo.

Ferramenta de inclusão

Ferramenta O grupo de teatro do Farol, “Vidas em Palco” foi criado em 2012 e tem-se mantido sempre ativo, e com alguns atores como “pilares”, embora com alterações. Cenários e adereços também são ali preparados, nos ateliers de atividades ocupacionais e a peça tanto pode resultar da criação dos utentes, numa espécie de oficina de escrita, como ter a assinatura de nomes consagrados do mundo do teatro. «Este grupo amador, sem formação na área, utiliza as suas experiências de vida para subir a palco e mostrar como a força de vontade pode produzir peças excecionais», refere Cristina Justina Dias, que lembra que o grupo já fez atuações fora de portas, noutras valências da “casa-mãe”, a Cáritas de Coimbra, e também nos concelhos vizinhos de Góis, Pampilhosa ou Condeixa.

A diretora sublinha as enormes potencialidades do teatro, que vão muito além da componente lúdica. «Comporta todos os elementos capacitadores para uma vida social ajustada», tendo em conta que envolve «aprendizagem, treino, trabalho em equipa, comunicação, afirmação pessoal e de grupo». Permite ainda «perceber que é possível mudar de papéis» e apresenta «um extraordinário potencial de inclusão social», salienta.

Cristina Dias reconhece que, muitas vezes, não é fácil combater a «desmotivação» dos utentes, ultrapassar a sua «vontade de nada», mas o teatro tem-se revelado uma ferramenta útil, como espaço de «aprendizagem», de «uso construtivo do tempo», de «compromisso», de «inclusão social» e de «dignificação».

Março 28, 2026 . 10:00

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