
"96 Decibéis”: em tempos de guerra só o amor nos salvará
Catarina e João Pedro estão a assistir pela primeira vez a um concerto dos 5.ª Punkada e daí surge «uma história de amor» entre os dois. “96 Decibéis” é a nova cocriação entre o Teatrão e a Terra Amarela e estreia já esta sexta-feira, Dia Mundial do Teatro, na Oficina Municipal do Teatro, juntando em palco não só os atores Margarida Sousa, Eva Tiago, Paulo Azevedo e Vasco Seromenho como também os 5.ª Punkada e Victor Torpedo.
No meio de um cenário apocalíptico, entre estilhaços, a peça de teatro fala sobre a «necessidade de encontrarmos energia para nos apaixonarmos», como explicou Margarida Sousa, atriz do Teatrão, após o ensaio aberto realizado para a comunicação social, ontem de manhã.
«Num tempo em que há estilhaços de guerra por todo o lado, literalmente, em que temos estes estímulos constantes de nos tornarmos mais individualistas, de pensarmos só em nós, o teatro apela a um lado de generosidade».
O elenco, atores com surdez, outros com mobilidade reduzida, ou com outro tipo de deficiência, têm em palco um espaço de inclusão, mas não é só sobre isso. A peça é um local de inclusão, mas também de reflexão para a necessidade de encontrar um «lugar comum» de amor, respeito, compreensão e tolerância. «Acho que o espetáculo vale muito por isso, pela capacidade e possibilidade de nos juntarmos em palco para celebrar a comunhão e o amor», realçou Margarida Sousa, que na peça contracena com Paulo Azevedo.
A encenação de Marco Paiva vem a ser construída desde 2024 entre conversas com O Teatrão, ao qual se juntaram depois os 5.ª Punkada para dar som a este espetáculo teatral. «Foi um caminho muito rico, porque, de facto, às vezes nas divergências e nas capacidades de cruzar essas divergências encontramos “chão comum”», confessou o encenador da peça. Porém, para Marco Paiva estes espaços de colaboração, de experimentação e de cruzamento «são difíceis de encontrar», por isso, a peça “96 Decibeis” surge como um desafio para todos, mas também como um lugar de transformação para todos.
«Quando vi os 5.ª Punkada a tocar pela primeira vez achei impressionante ver a performance deles e a forma como se expressam em termos musicais e artísticos, porque existe este preconceito e estereótipo e eu próprio também tinha esse preconceito», confessou Vasco Seromenho, ator com surdez profunda. «Não há impossíveis», disse o ator, falando do pensamento de muitos sobre as pessoas surdas não poderem fazer determinados trabalhos, como, por exemplo, o teatro. Mas atores como Vasco Seromenho rompem com esses estereótipos e mostram que são capazes. «Isto é muito importante para aprendermos o que é a empatia, de nos colocarmos no lugar do outro e mostrarmos que também somos capazes de fazer coisas».
De outros palcos, os músicos da 5.ª Punkada “saltaram” para o palco d’O Teatrão para fazer parte do espetáculo e «sair da zona de conforto», realçou Paulo Jacob, coordenador da banda da APCC.
«Ainda bem que existem estas oportunidades, porque é uma forma de repensar um bocadinho qual é
o poder da música e de que forma é que pode servir uma determinada ação ou movimento», disse o músico, explicando o trabalho de sonoplastia desenvolvido pela banda para esta peça do dramaturgo Alex Cassal.
O texto criado foi «escrito para estas pessoas com todas as especificidades, para ser feito neste local e neste tempo histórico», no limiar do apocalíptico.
«Como é que nos dias de hoje não nos rendemos à alienação? Como é que resistimos à derrocada?», questiona o encenador. A peça vai estrear já na esta sexta-feira e estará em cena até 26 de abril para o público em geral de quarta-feira a domingo. Durante este período haverá também sessões para o público escolar.











