Areaclientedc
Última Hora
Pub Dc Aecoimbra 20260528
Pub Dc Rfm Somnii 20260527
Legua Dc
Pub

“O sistema dual não faz sentido no século XXI”

A Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Politécnico de Coimbra assinala hoje 46 anos, numa altura em que se prepara para abrir um novo pólo, no Hospital Rovisco Pais. O presidente Graciano Paulo alerta para urgência de se avançar para a união entre Politécnico e Universidade. “É o momento de acontecer”

Diário de Coimbra O reitor da Universidade de Coimbra referiu recentemente a necessidade da UC e do Politécnico se unirem. Também o professor Graciano Paulo, na tomada de posse, defendeu a união entre as duas instituições. É esse o caminho?
Graciano Paulo Gosto muito de música e utilizo sempre chavões de músicas para fazer referência a alguma coisa. Lembro-me que escrevi o título da música dos “Deolinda”, que é “Se é para acontecer que seja agora”. Quando se faz algo de forma proativa aquilo que se faz fica sempre melhor do que sempre de uma forma reativa. E, parafraseando o senhor reitor, “vai acontecer mais cedo ou mais tarde”, então eu diria, se é para acontecer, então que seja agora, porque este é momento de acontecer.

Lamenta que ainda não tenha acontecido?
Já devia ter acontecido há mais tempo. E no caso concreto da área da saúde, temos tudo a perder em sermos a única escola de ensino superior fora do cluster do ensino da saúde na cidade. Naquilo que depender de mim, farei tudo o que estiver ao meu alcance para convencer os decisores que temos que estar onde estão os outros e estarmos juntos no mesmo cluster, porque será bom para nós, enquanto instituição, é bom para a cidade, para a região e para o país.

Sente que as outras escolas do Politécnico estão no mesmo sentido?
Cada escola irá obviamente responder por si. Isto não é uma questão de ego individual, nem uma questão de olhar para dentro de cada instituição. Quem exige essa mudança é quem paga tudo isto, que são os contribuintes. No respeito pelos contribuintes, temos que, claramente, fazer a mudança. E o país teima em fazer mudanças, normalmente, erradas. Fizeram as fusões nas freguesias e foi, claramente, um erro, porque ninguém teve coragem de fazer as fusões onde deveriam ser feitas, que era nas câmaras municipais, nomeadamente no interior. Fizeram fusões nos hospitais de uma forma atabalhoada. E no ensino, foi criado uma plantação de cogumelos pelo país, que não contribui nada para a melhoria do sistema.

Mas, mantendo o Politécnico e Universidade?
Quando se quer diferenciar algo que é igual, mudam-se os nomes. Portugal vive num problema de semântica. E o problema do ensino superior não é um problema de semântica, é um problema de sistema. Eu não posso ter duas carreiras de docentes quando as competências de cada um são exatamente as mesmas, só mudam os nomes às categorias profissionais. Não posso ter licenciaturas, mestrados e doutoramentos num sistema e, depois, a um chamar universidade e a outro chamar politécnico. Não posso ter num sítio onde chamam faculdades e noutro sítio onde chamam escolas. Faço um apelo à tutela, que retire do famoso RJIES, o problema semântico.

 

O sistema dual não faz sentido no século XXI. Só os “velhos do Restelo” é que o querem tentar manter, não porque achem que ele é necessário, mas por querer que algo que é igual seja diferente

No que respeita à revisão do RJIES, este é um dos pontos que mais o preocupa?
A mim preocupa-me, porque a visão que o RJIES tem do sistema é uma visão redutora. Claro que há problemas históricos. Se olharmos para a evolução do ensino superior em Portugal, provavelmente, naquele tempo era o possível, mas nós não podemos achar que o sistema deve ser dual e dizer que temos que ter um ensino superior universitário e temos que ter um ensino superior politécnico, dizer que o ensino superior politécnico está mais ligado, digamos, às profissões e às empresas e à indústria, mas depois ter no sistema universitário cursos que também têm muita ligação à prática, à empresa e à indústria. Eu até costumo dizer que não há ensino mais politécnico que a Medicina. Forma para uma profissão no terreno. O sistema dual não faz sentido no século XXI. Só os “velhos do Restelo” é que o querem tentar manter, não porque achem que ele é necessário, mas por querer que algo que é igual seja diferente. Vou parafrasear Jorge Sampaio, que utilizou a frase: “o que seria de Portugal se fosse um país organizado?”. Eu reforço essa frase: com a qualidade de recursos humanos que nós temos, com a qualidade das instituições que nós temos, com a qualidade dos jovens que formamos, o que seria de Portugal se fosse um país organizado?

A Escola Superior de Tecnologia da Saúde é das que mais tem crescido no contexto do Politécnico de Coimbra. É, inclusivamente, das instituições da cidade com cursos com médias mais elevadas. É um orgulho?
Para mim, o motivo de orgulho é qualidade daquilo que fazemos. O resto é a chamada propaganda do sistema. Eu não vivo daquilo que são as notas das entradas, porque não somos nós que definimos as notas de entrada. Nenhuma faculdade, nenhuma instituição de ensino superior define as notas de entradas. Quem define as notas de entradas são os exames do secundário, não são as faculdades. O que acontece com as notas é que os alunos que nos procuram, por acaso, podem ter maior média do que os outros. Não é isso que me motiva. Aquilo que motiva esta comunidade é termos alunos a escolhermos em primeira opção. Esse é outro indicador muito importante.

Por norma esgotam as vagas, ainda que o ano passado tenha sido atípico. Em 2026/27, há novamente alterações no acesso...
Foi um ano atípico que o governo, de alguma forma, corrigiu com a alteração de poder haver novamente apenas uma prova de entrada. Mas, não podemos esquecer que continua algo que foi introduzido o ano passado que para a conclusão do secundário, as notas dos exames que antigamente eram só para acesso ao ensino superior, contam. Nós temos dois problemas graves. Um: o menor número de candidatos por força da diminuição da natalidade. Dois: o menor número de candidatos, porque o número de reprovação no secundário está a aumentar. Isto associado ao facto de o Governo, neste ano, ter feito uma coisa que, apesar de ser positivo para o país, é negativo para a Coimbra, que é permitir que as instituições de ensino superior aumentem 5 % das vagas. Toda a gente pode achar que isto é excelente, mas é excelente para Porto e Lisboa. Para as outras instituições de ensino superior isto é um problema grave, porque se já há dificuldade em preencher as vagas que existem, se aumentarmos as vagas em 5%, um maior desafio vamos ter.

Há quem diga que exigir apenas um exame pode conduzir ao facilitismo...
Claro que o facilitismo nunca é a solução para nada. Temos que olhar para o sistema de ensino português como se de uma casa se tratasse. E uma casa tem os alicerces, tem o rés-do-chão, vamos chamar o 1.º ciclo. Acho que o 1.º e 2.º ciclo, no âmbito do ensino não superior, a sua divisão não faz sentido. O que faria sentido era um primeiro ciclo longo, diria, até ao 6.º ano. Depois, até ao 9.º ano e ao 12.º ano. Isso é o rés-do-chão de um edifício que devia estar bem alicerçado. Um segundo andar seria o do ensino superior ao nível das licenciaturas. E, depois, um terceiro patamar de mestrado e o último andar dos doutoramentos. Nós temos este edifício em Portugal construído. Só que temos um problema. Alguém se esqueceu que a comunicação entre estes andares, ou deveria ter uma escada ou um elevador. Não pode haver facilitismo, mas também não posso ter um modelo em que, eu olho para os 12 anos de ensino, os condenso e tornam-se a opção de vida destes jovens em duas horas. Não posso ter uma permanente mudança de planos curriculares desde o 1.º até o 12º ano de uma forma completamente desestruturada, desregulada. Devíamos repensar o sistema como um todo, olhar para que competências precisamos que os nossos jovens hoje tenham em cada um desses ciclos de ensino. E olhar para a matéria que é dada e lecionada, sobretudo, do 10.º ao 12.º ano e perceber que há lá muita coisa que não faz sentido nenhum, e assim como olhar para coisas que são dadas no 1.º ciclo completamente absurdas.

 

P6 Graciano 18 Net

Sem nenhum tipo de falsas modéstias, somos, claramente, a escola superior de tecnologia da saúde do país e até diria da Europa, do ponto de vista de equipamento tecnológico, melhor equipada

A escola tem várias obras em curso. Qual o ponto de situação?
A escola fez um investimento colossal no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência, a vários níveis. Estamos a terminar a reformulação dos nossos laboratórios. Sem nenhum tipo de falsas modéstias, somos, claramente, a escola superior de tecnologia da saúde do país e até diria da Europa, do ponto de vista de equipamento tecnológico, melhor equipada. Até junho, ficará tudo concluído, para nos tornarmos mais eficientes, do ponto de vista energético, com a mudança de toda a estrutura da iluminação, com produção de energia elétrica, com a mudança de toda a parte da caixilharia de janelas e por um revestimento também de cortiça em todo o nosso edifício. Sem falar de toda a parte do aquecimento e arrefecimento central. Vamo-nos livrar do consumo de gás natural, ainda por cima, nesta altura, que disparou mais uma vez o preço. A única coisa que temos é limitação de espaço e esperamos que com o novo PTRR consigamos, finalmente, levar a bom porto o início do polo 3, que é o do parque de estacionamento.

Qual a previsão?
Neste momento, temos projeto, temos a ideia, falta-nos o dinheiro. A par disso, temos a joia da coroa: abrir já em setembro, o primeiro curso de terapia ocupacional, que vai funcionar no Rovisco Pais. Esse é outro desafio que temos pela frente, mas é também uma abordagem disruptiva do ensino superior, porque vamos, pela primeira vez, fazer um campus onde o aluno vive, estuda, diverte-se e trabalha...e investiga. O plano era abrir em 2026 terapia ocupacional, depois abrir a terapia da fala, depois abrir a ortoprotesia e, em 2030, ter todo o conjunto das terapias a funcionar no pólo do Hospital Rovisco Pais. Já não é um sonho, vai acontecer. Claro que temos uma missão difícil pela frente.

A nível da oferta formativa é a novidade do ano?
Em termos de licenciatura é. Vamos aumentar o nível de mestrados, vamos ter já o mestrado na área da nutrição e vamos submeter mais mestrados, no âmbito de cada um dos cursos que aqui temos. O final de 26 vai ser uma época muito difícil. Temos de olhar para a oferta formativa que temos neste momento e vamos ter que a reorganizar, à luz dos novos tempos. Significa que não podemos continuar a ter tantas horas de aulas, vamos ter de reformar a fórmula como ensinamos, a quantidade de horas que temos alunos dentro das salas de aulas. Os tempos são diferentes, os jovens são diferentes, as formas de ensinar têm que, obrigatoriamente, ser diferentes. A questão é reforçar o contato com os aspetos mais laboratoriais, mais clínicos e diminuir o número de contato daquilo que é mais teórico.

É uma necessidade que também vem do feedback que os alunos vão dando?
É uma evidência, é uma constatação. O ensino superior tem esse problema. Ele é muito lento a adaptar-se. Nós, felizmente, temos uma comunidade que é muito ativa, muito desperta para estas coisas. A tecnologia está no nosso código genético e na saúde, como deve imaginar, a tecnologia evolui à velocidade da luz. A realidade de há um ano atrás muda de um ano para o outro, razão pela qual lançámos o desafio ao seu ministro, quando cá veio, em dezembro, inaugurar os laboratórios que tem que olhar para o financiamento da área da saúde e repensá-lo, porque um aluno das tecnologias da saúde tem que ter um financiamento superior aos outros alunos da saúde, por causa da tecnologia que lhe está associada.

Obteve resposta a esse desafio lançado ao ministro?
Ficou sensível, ele disse que durante 2026, depois da aprovação do RJIES, era algo que estava já na agenda dele.

 

A empregabilidade dos nossos alunos é 100%. Se não for 100%, não é por não haver emprego ou por não haver emprego/trabalho, mas tem a ver com opções dos jovens. Os jovens hoje têm uma leitura do mundo diferente.

Relativamente à empregabilidade, quais são os indícies da escola?
A empregabilidade dos nossos alunos é 100%. Se não for 100%, não é por não haver emprego ou por não haver emprego/trabalho, mas tem a ver com opções dos jovens. Os jovens hoje têm uma leitura do mundo diferente. O mercado português na área da saúde não é um mercado que seja atrativo, portanto, eu espero que a ministra da Saúde perceba que, se quiser atrair jovens para o Serviço Nacional de Saúde, vai ter que alterar drasticamente as carreiras. O país merece carreiras diferentes e já nem é uma questão do valor. É também, mas já não é só questão do valor do salário. É a questão de reconhecer ou não reconhecer o mérito. Portugal não pode continuar a ser um país em que tem as carreiras onde o mérito não conta, o que conta é ser-se velho ou ser-se mais velho.

A escassez de recursos humanos é um problema transversal às instituições de ensino superior. Qual o panorama na ESTES?
Do ponto de vista dos trabalhadores do corpo técnico, temos uma equipa jovem, motivada, temos conseguido reforçar, ou pelo menos garantir que não se percam lugares. Na parte dos docentes, a situação é ligeiramente diferente, porque, durante a próxima década, 60 % do corpo docente vai-se aposentar. Estamos bem cientes disso, mas estamos naquela fase complexa, que é de perceber o que é vai acontecer ao ensino superior, porque eu reafirmo aquilo que disse em janeiro, 2038 vai ser o pico da crise, porque em 2021, pela primeira vez na história deste país, nasceram menos de 80 mil crianças. E é por isso que a tal união inteligente que eu falava faz sentido, porque temos recursos que poderíamos partilhar. Todos os anos, vamos ter concursos para entrada na carreira docente, mas felizmente, temos um modelo que nos ajuda. É que contamos com muitos professores convidados. Para nós, é fundamental, porque são pessoas que estão ligadas ao exercício, estão ligadas à prática clínica, estão nos hospitais, nas empresas, nas clínicas, na indústria. Um desafio que eu lançaria, quer ao senhor ministro da Educação e Inovação, quer à senhora ministra da Saúde, era criar um mecanismo como tem a medicina para nossos docentes fazerem acumulação de trabalho clínico nos hospitais.

O Dia da Escola é marcado por vários momentos, entre os quais a homenagem a Jorge Veloso, ex-presidente da União de Freguesias.
É um dever institucional que temos para com ele, porque enquanto presidente da Junta, foi incansável no apoio a esta escola. Recordo quando foi o Covid, quando tomamos posse, fizemos aqui um centro de colheita Covid e era ele próprio que fazia a recolha das amostras no final do dia das pessoas que tinham testado positivo. Sempre que tínhamos um problema qualquer aqui no campus, ele era o primeiro a dizer sim e a apoiar-nos imediato. Depois vamos ter homenagem ao Dr. José Alexandre Cunha, que, como chairman da IGHS, teve um papel fundamental na internacionalização da escola. Depois vamos também fazer o reconhecimento público dos embaixadores ESTES: Dr. João Ferrão e o sr. Paulo Caseiro. Merecem pelo que fazem no seu dia a dia. |

Março 18, 2026 . 08:30

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
95 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right