
Gang responde por crimes de extorsão, sequestro e roubo
Quatro arguidos submeteram o senhorio da casa que arrendaram a uma verdadeira “via sacra”, procurando coagi-lo a devolver uma verba que lhe haviam pago. Aconteceu na freguesia de Sanguinheira, concelho de Cantanhede, em março de 2023. Os suspeitos, dois homens e duas mulheres, com idades entre os 24 e os 45 anos, vão sentar-se no banco dos réus, acusados dos crimes de extorsão agravada e na forma tentada, sequestro, roubo, dano, violação de domicílio e acesso ilegítimo. A vítima, que temeu pela vida, teve de receber tratamento hospitalar.
Os arguidos agiram no quadro de um «plano conjunto, concertado e previamente gizado entre si», sublinha a acusação, da responsabilidade do Ministério Público (MP), exigindo ao proprietário da habitação que haviam arrendado, em Casal dos Netos, a devolução de 1.350 euros, valor correspondente ao arrendamento e respetiva caução. Uma situação que aconteceu cerca de duas semanas depois de, «por motivos não concretizados», o casal ter abandonado a residência, deixando ali alguns dos seus pertences.
O contacto começou por ser feito através do telefone, mas já com uma ameaça muito clara, pois a interlocutora dizia ao senhorio que, se não lhe restituísse o dinheiro, iria à casa «com a família toda e partiam tudo». E foi mesmo o que acabou por acontecer, com o grupo a distribuir tarefas entre si para recuperar a verba, «recorrendo à intimidação e força física, batendo-lhe e magoando-o e retirando-lhe bens à força e contra a vontade do mesmo», sublinha a acusação.
O episódio aconteceu no dia 9 de março, com os quatro arguidos a deslocarem-se para o imóvel de Casal dos Netos e um deles a partir a porta da habitação com uma pancada. No interior da casa “retiraram” a vítima, «conduzindo-a ao curral para animais ali existente», onde começaram as agressões, com «murros e bofetadas na cara», sempre com um alerta bem vincado, pois se «apresentasse queixa contra qualquer um deles, o matariam».
De regresso ao interior da habitação, na sala, as ameaças redobraram, desta feita com um dos arguidos a pegar numa «faca de cozinha» e a exibi-la em direção à barriga da vítima, reforçando a ameaça de que «o mataria» se «apresentasse queixa» e exigindo a entrega dos «montantes recebidos a título de rendas e caução».
Segundo o MP, dois dos meliantes conduziram, depois, o senhorio para a marquise, onde «o ataram nos punhos e nas pernas», com «fitas de plástico de polipropileno utilizadas para cintagem», «impossibilitando-o de se deslocar e movimentar», operação a que assistiram os outros dois.
Já liberto das “amarras”, o senhorio foi levado de novo para o exterior da casa, onde voltou a ser agredido à bofetada, para pouco depois ver as suas pernas regadas com gasolina, que se encontrava num jerricã, destinada à roçadora. Em simultâneo, um dos suspeitos ameaçava-o de que lhe «atearia fogo» caso «não procedesse à devolução» do dinheiro. Outros dois apoderaram-se da sua carteira, de onde retiraram 15 euros e um cartão de débito, bem como do seu telemóvel. Neste equipamento fizeram questão de «apagar todos os registos de contacto» entre o senhorio e a titular do contrato de arrendamento, cujo contacto também apagaram da lista telefónica.
Em consequência das agressões a que foi sujeito, o senhorio teve que ser «clinicamente assistido» na Urgência do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra, refere a acusação. Quanto aos arguidos, estragaram a porta, agrediram o homem, privaram-no da liberdade de movimentos, e recorreram a ameaças verbais e a manobras de intimidação com uma faca de cozinha e gasolina, «só não logrando» conseguir os seus intentos por «resistência» da vítima.
Os quatro arguidos estão acusados da coautoria material de sete crimes e a mulher mais nova soma mais um, de extorsão na forma tentada. O julgamento está marcado para o Tribunal Judicial de Coimbra.











