
Academia de Música de Coimbra cria “uma sala de afetos” na Lousã
O grupo Academia com Vida – Lousã reúne-se há oito anos num espaço de ensaio criado na Lousã pela Academia de Música de Coimbra, num modelo que junta prática musical regular e convívio, com participantes de diferentes idades e percursos. A lógica é simples: aprender, repetir, ganhar confiança e, pelo caminho, criar rotinas que aproximam as pessoas — dentro e fora da música.
A própria sala acabou por ganhar um “nome” através de quem a vive. Quando foi lançada a pergunta “se esta sala tivesse um lema”, Henrique Mendes respondeu sem hesitar: “a sala dos afetos”. É uma expressão curta, mas resume bem o tom geral: um grupo onde o ambiente conta tanto como a técnica, e onde o compromisso se constrói com presença, entre apoio e boa disposição.
Essa ligação também se sente na forma como o grupo se identifica com a Lousã. Ana Henriques, ao ser desafiada a escolher uma música para tocar, apontou “A Canção da Lousã”, num momento espontâneo que reforça a componente local do projeto — a música como ponto de encontro, mas também como forma de pertença.
A experiência dentro do grupo é descrita, por vários elementos, mais como conquista emocional do que como meta artística. Para Rui Abreu, a maior vitória desde que entrou foi «a alegria, o convívio, o carinho e o amor». A frase é direta e ajuda a explicar por que motivo este tipo de formação se mantém: porque o ensaio não é apenas um exercício musical, é também um momento de comunidade.
Sem perder essa dimensão, o trabalho sob a direção dos professores Luís Neves e Tiago Catela existe — e é dito com frontalidade. Quando se fala de falhas e de margem de melhoria, Júlio Sales resume o pensamento que lhe surge de imediato: «tenho que treinar muito mais». É um retrato claro da atitude que sustenta o grupo: há leveza no ambiente, mas há responsabilidade no processo. E essa combinação aparece também noutra intervenção, com um tom mais bem-humorado, mas muito objetivo. Isabel Vinagre, ao falar do que faz quando pega no instrumento, diz que a primeira reação é tocar e «tentar fazer magia», mas acrescenta o essencial: procurar «fazer música para todos», com alegria, sem «ofender os ouvidos» do colega — uma forma simples de dizer que ouvir o outro e tocar em conjunto é parte central da aprendizagem.
São imagens práticas, fáceis de reconhecer: a música não fica “guardada” na sala — acompanha quem participa, fica na rotina e cria continuidade
As histórias pessoais ajudam a perceber a importância deste tipo de projeto em fases diferentes da vida. Joaquim Santos contou que gostaria de ter aprendido guitarra aos 10 anos, mas que só aos 60 começou. Mais do que um detalhe curioso, é um exemplo concreto do que o grupo permite: retomar vontades antigas, recomeçar com apoio e descobrir que a aprendizagem pode acontecer em qualquer idade, desde que exista espaço e regularidade.
A música aparece ainda como prolongamento do dia a dia. Fátima Francisco sintetiza essa ideia numa frase que funciona como lema paralelo: “Música é vida. Faz-me viver”. E Laurinda Francisco descreve o que acontece depois do ensaio: vai para casa a pensar nas músicas que cantou e «vai a cantar pelo caminho». São imagens práticas, fáceis de reconhecer: a música não fica “guardada” na sala — acompanha quem participa, fica na rotina e cria continuidade.
Houve também momentos de humor a confirmar essa proximidade, e outros de maior densidade. Num segmento mais longo, entrou-se em temas como família, netos e valores para o futuro — com uma mensagem centrada na dedicação, na alegria e na importância de manter referências. E, quando o assunto foi o desânimo, a resposta foi pragmática: não cair no marasmo, agarrar-se ao que se gosta, sair de casa, conviver, manter-se ocupado. A frase ficou dita de forma simples: “há que sair do sofá” — não como slogan, mas como orientação prática para não deixar a vida encolher.
A dinâmica do grupo inclui ainda margem para conversa franca sobre organização, repertório e ritmo de aprendizagem. A ideia de que “puxar uns pelos outros” faz parte do caminho surge como regra implícita: há espaço para elogio, mas também para dizer o que é preciso ajustar, sem perder o respeito e o objetivo comum.
Ao fim de oito anos, o Academia com Vida – Lousã mantém um traço constante: a música como prática regular, mas também como ferramenta de ligação entre pessoas. E, na forma como foi descrita por quem está lá dentro, a sala de ensaios não é apenas um local de trabalho — é, literalmente, “uma sala dos afetos”.











