
Pedra de Ançã com artigo na revista Geoheritage
Um novo estudo publicado na revista GeoHeritage traz para o centro das atenções o Calcário de Ançã, a pedra que moldou artisticamente Coimbra e que, em 2024, foi oficialmente reconhecida como IUGS Heritage Stone, um dos mais importantes selos internacionais atribuídos a recursos geológicos com valor cultural excecional, como refere a Junta de Freguesia de Ançã em nota enviada ao nosso jornal.
O trabalho, assinado por David Martín Freire-Lista (IGME-CSIC, Espanha), Fernando Figueiredo e Maria Helena Henriques (Centro de Geociências da Universidade de Coimbra, Portugal) analisa de forma aprofundada a geologia, história, utilização artística e desafios de conservação desta pedra singular, extraída há séculos no concelho de Cantanhede.
Segundo os autores, o Calcário de Ançã - especialmente a sua variedade mais fina, conhecida como Pedra de Ançã - foi determinante para a afirmação cultural e arquitetónica de Coimbra desde a Idade Média. Presente em igrejas, mosteiros, esculturas, fachadas e elementos decorativos, a pedra está intimamente ligada ao conjunto classificado pela UNESCO como “University of Coimbra – Alta and Sofia”.
Durante séculos, mestres escultores como Mestre Pêro, Diogo Pires - o Velho e o Novo, Jean de Rouen e Claude Laprade escolheram esta rocha pela sua capacidade de permitir esculturas finas, detalhadas e com excelente preservação da cor. O artigo destaca que muitos dos maiores tesouros artísticos de Portugal - desde túmulos medievais a portais renascentistas — só foram possíveis graças às propriedades únicas desta pedra.
Mas o estudo também chama a atenção para a outra face do Calcário de Ançã: a sua elevada vulnerabilidade ao desgaste, devido à alta porosidade e fraca resistência mecânica. Ao longo dos séculos, centenas de esculturas e fachadas sofreram degradação acelerada causada por água, sais, fungos, poluição e ciclos de gelo-degelo. A equipa reúne os avanços científicos mais recentes sobre diagnóstico e conservação, incluindo novas técnicas de consolidação por biomineralização.
Outro ponto sensível abordado é o futuro da própria pedra. Embora as pedreiras históricas de Ançã ainda conservem reservas suficientes para restauro, a extração da camada mais fina e nobre da Pedra de Ançã exige desmontes complexos, levantando desafios para a sustentabilidade deste recurso geocultural.
Para os autores, o reconhecimento internacional da IUGS reforça a necessidade de proteger este património único: “O Calcário de Ançã não é apenas uma pedra— é uma peça fundamental da identidade cultural, artística e arquitetónica de Portugal” — afirma David Freire- Lista.
A publicação sublinha ainda o papel da Universidade de Coimbra na valorização deste legado, bem como o potencial do Calcário de Ançã para iniciativas de geoturismo, educação geocientífica e conservação do património.











