
“A canção é a tentativa de amigar música e poesia”
Diário de Coimbra Sendo poeta – com um livro já editado “Traumatologia dos encontros” – e músico – acaba de editar “Florilégio”, pela editora Jugular - sua obra cruza música e poesia de forma muito marcada. Como nasce uma canção de Pedro Sáfara: da palavra para o som ou do som para a palavra?
Pedro Sáfara Depende da canção. Há canções que nascem a partir de ideias harmónicas, outras de pequenos motivos melódicos. Noutras, surge um poema que então é transformado para conformar-se às exigências formais da canção. Para mim, não há um caminho fixo. Na canção, palavra e som não estão ainda separadas, e uma determina outra. Há ideias musicais que são mais apropriadas à música instrumental e uma certa poesia que cabe melhor no papel. A canção é a tentativa de amigar música e poesia, e cada uma delas tem que ser capaz de abrir mão de si para se adequar à outra.
Que temas ou inquietações atravessam a sua escrita poética e musical?
Para mim, é difícil dizer isto com segurança, pois eu mesmo nunca fiz uma análise temática da minha escrita, musical ou poética. Mas creio que não erro muito se digo que Deus, a Natureza, a Liberdade, o Amor são como que os centros gravitacionais do meu pensar e fazer artístico.
Que lugar ocupa a tradição da canção de autor portuguesa na sua formação artística?
Ainda descubro a música portuguesa, que é bastante vasta, apesar do país ser pequeno. Se fosse mencionar um nome seria, é inevitável, o de Zeca Afonso. Minha história com ele começa quando, quase acabado de chegar a Portugal, indicaram-me Grândola, Vila Morena. Ouvi sem contexto, nada sabia sobre a história do Portugal moderno. Arrepiei-me todo logo no primeiro instante da entrada da voz do Zeca. Eu estava convencido de que ouvia um génio poético e musical de valor universal, talvez um dos maiores compositores de música popular do século XX.
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