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“É preciso reflorestar o pensamento coletivo sobre Direito”

Investigação | Hannah Linhares tem 29 anos e é natural de Aracaju, Sergipe, no Brasil. É investigadora no Instituto de Investigação Interdisciplinar do Centro de Estudos Sociais e investiga sobre “traduções” dos Direitos Humanos na Arte

Diário de Coimbra Como é que chegou a este tema de investigação?

Hannah Linhares Desde que comecei a minha formação em Direito que tinha muitas questões, na área dos Direitos Humanos, por exemplo. Comecei a perceber que talvez fosse possível fazer perguntas de maneira mais interdisciplinar. O Direito é uma ciência jurídica que às vezes está muito ensimesmada e onde se “acha” que a lei pode resolver tudo e chegar a todos os lugares. Isto abriu-me muito mais questões do que respostas. Na perspetiva dos Direitos Humanos, comecei a perceber que quando falamos de “ser humano”, é preciso ir buscar respostas que sejam interdisciplinares, que vão além daquilo que a ciência jurídica propõe, mesmo que não seja, necessariamente, para trazer respostas, mas que seja para a fazer as perguntas certas. E foi aí que eu comecei a perceber e a trabalhar com a arte. Vinha de uma família que sempre gostou muito de literatura, onde sempre ouvi muita música, li muita poesia, foi um caminho pessoal, do que me deixava mais confortável, e me fez procurar essa interlocução entre arte e Direitos Humanos. Na faculdade, um professor desafiou-nos a trazer um desenho animado que falasse sobre alguma coisa dada em sala de aula, e depois uma música. [Nessa pesquisa] conseguiu-se discutir os temas. Percebi que dava para fazer uma conexão. Então comecei a trabalhar o tema. Foi importante ter conseguido encontrar esta ponte de uma coisa que me traz muito prazer e uma reflexão que realmente faz sentido para mim.

Qual foi o primeiro momento em que a fez pensar nesta ligação Arte-Direito?

A atividade na faculdade. Foi aí que me dei conta. Foi a partir de uma música que chama “Cota Não é Esmola”, da Bia Ferreira, uma artista que eu adoro, brasileira, e que por acaso atua muito aqui em Portugal. Recomendo muito! Foi a partir da música dela que realmente deu aquele “estalo” de perceber, “Ok, mas tudo isto que está aqui são conceitos de Direito, noções jurídicas”, e aparece quando o Brasil estava a discutir a questão das quotas raciais para ingresso nas universidades. [O tema] fazia parte de uma discussão, política e humanitária, que se estava a desenvolver contemporaneamente, e era uma obra de arte. Eu lembro-me de ver o vídeo e ver a reação das pessoas enquanto ela tocava e cantava, é brilhante. Percebe-se que as pessoas estão a entender o que está a ser cantado, que dá um “estalo” também na cabeça das pessoas! E eu percebi que nos sensibiliza. E podemos utilizar essa sensibilidade para refletir sobre as coisas, para discutir.

Falar em Direitos Humanos na atualidade é uma tarefa fácil?

Não. Estamos a viver num mundo em mudança e a investigação, sendo de Direitos Humanos e sociedades contemporâneas, passa por analisar os comportamentos [atuais]. As nossas sociedades estão a trazer-nos diversas reflexões na política, na economia, no próprio Direito, que não são fáceis de serem encaradas, discutidas ou analisadas. Então tem sido um processo difícil. Há sempre muita coisa a acontecer e é preciso, não só acompanhar, mas também pensar sobre isso. É difícil e às vezes é desanimador, mas estamos a tentar fazer um “pouquinho” do que se gosta e eu acho que a parte da arte traz essa “leveza” para o meu trabalho… O caminho da pesquisa e da investigação, e acredito que os meus colegas, investigadores e professores, concordem, não é necessariamente fácil, mas o processo de investigação em si é muito prazeroso.

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Fevereiro 18, 2026 . 08:20

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