
“Valores originais” da Europa no cerne da paz
De olhos postos na necessidade de debater um dos temas fraturantes da atualidade, a Universidade de Coimbra (UC), em conjunto com o jornal Expresso, promoveu ontem na Biblioteca Geral um debate intitulado “Universidades e Defesa Europeia: prioridades, dilemas e impactos”.
O “pontapé de saída” foi dado por Amílcar Falcão, reitor da UC, que, com um discurso preocupado, realçou alguns dos temas mais importantes a discutir. «Vivemos um contexto internacional instável, com ameaças híbridas e dualidades, principalmente no que toca ao investimento» indicou, relembrando que «defesa, clima e educação não são agendas separadas», mas competem por financiamento. Reforçando o facto de não se poder separar temas que afetam a sociedade, alertou que «redirecionar investimento para a segurança» implica não esquecer as restantes áreas, como a saúde, a coesão social, a ciência e, sobretudo, a educação.
Lamentando, talvez, uma “falta de visão” da Europa nos últimos anos no que toca à prevenção de um conflito bélico, o major-general João Vieira Borges destacou o progresso europeu. «Durante um longo período de paz a Europa tratou do bem-estar da sua população e não das questões de defesa, e fez muito bem. Mas a história mostra-nos outras coisas». Afirmando ter existido um «trabalho de desenvolvimento sob o “chapéu de chuva” dos Estados Unidos da América», na área populacional, o investimento na defesa foi posto de lado. Porém, os últimos cinco anos trouxeram novidades. «A Europa reestruturou-se e tomou decisões nomeadamente no apoio deliberado à Ucrânia, na crítica àquilo que foi a nova administração americana e na reorientação estratégica para a Mercosul e Índia», decisões positivas que apresentam um «caminho feito com o estandarte dos valores europeus». Este é, segundo o major-general, «um caminho que tem de continuar» lado a lado com a academia pois «o conhecimento é o que constrói esse futuro».
Debate sobre a paz e o investimento na defesa deve passar pelas Universidades
Para Joana Ricarte, investigadora na UC, «é preciso olhar para o projeto europeu» de uma forma ampla, para se entender que «a construção europeia passa por um conjunto de pressupostos políticos, filosóficos, morais, que vão além da guerra como sendo inevitável», o que pode justificar o “desinvestimento” na defesa. «É preciso entender que o investimento na defesa pode ter outras consequências. Se o nosso parceiro ou adversário nos vê a investir na defesa, também o vai fazer. Corremos, assim, o risco de entrar numa “profecia autorrealizável”», equaciona.
Ana Santos Pinto, da Universidade Nova de Lisboa, sublinha que «o investimento não responde ao problema», sendo fulcral discutir medidas de defesa futuras nas universidades.
Referindo a importância da academia, Pedro Góis (docente UC) ressalva a «interseção de todos os ramos» que é a Universidade. «Têm de se recuperar o diálogo entre campo militar, política e sociedade civil. Antigamente acontecia pelo serviço militar obrigatório, que se perdeu, portanto é preciso encontrar uma forma de recuperar esse diálogo».











