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Projeto “educa” famílias a serem ponto forte da saúde mental das suas crianças

Universidade lidera em Portugal programa nascido há 20 anos na Finlândia com impactos positivos na saúde mental das crianças. Psiquiatra Joaquim Cerejeira, coordenador do projeto, explica ao nosso jornal o método “Let’s Talk About Children”

Que a família é fundamental para a saúde mental de uma criança ou jovem é coisa, talvez, do senso comum. No entanto, o que talvez poucos saberão é que, uma família consciente dos seus pontos fracos e fortes e alerta para pequenos sinais, pode contribuir, e muito, para crianças e jovens saudáveis, diminuindo o número de referenciações e reduzindo os custos do país em saúde mental.

Que o digam os finlandeses que, há cerca de 20 anos, têm um método de prevenção de situações que afetem a saúde mental crianças e jovens, através da capacitação das famílias, de modo a que se tornem autónomas na gestão da saúde mental dos seus membros, e o resultado é «uma redução de 25% das referenciações» nas entidades locais de saúde e de proteção de crianças.

Let’s Talk About Children é o nome desse método, uma intervenção psicossocial criada pela psiquiatra finlandesa Tytti Solanus e que, desde 2023, está a ser implementada em Portugal, através de um projeto financiado pela Comissão Europeia e coordenado pela Universidade de Coimbra, que já permitiu, após três anos, capacitar mais de 80 profissionais (professores, médicos, enfermeiros, psicólogos e outros) e chegar a 400 crianças e respetivas famílias portuguesas.

«Qualquer profissional que contacte com crianças ou com famílias em que haja crianças é um elemento chave para promover a saúde mental das crianças. Em vez de se dirigir só à criança ou ao adulto, o profissional deve envolver toda a família, torná-la capaz de comunicar melhor os seus problemas e, eles próprios, perante os problemas, perceberem o que pode ser melhorado e reforçado», explica ao Diário de Coimbra Joaquim Cerejeira, psiquiatra, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e coordenador do Let’s Talk About Children em Portugal, adiantando que o objetivo final é que «a família se torne autónoma na gestão dos seus problemas e, portanto, menos dependente dos serviços».

Redução de 25% das referenciações na Finlândia

«No fundo, em vez de ser o professor, na escola, o enfermeiro ou o médico, nos hospitais ou centros de saúde, o objetivo é que sejam os próprios pais, através de um guião que lhes é entregue, a perceberem que há qualquer coisa no dia a dia da família que não está bem e está a afetar a saúde mental das crianças», explica melhor o responsável, não tendo dúvidas de que este método contribuirá para famílias mais felizes, futuros adultos mais saudáveis e um país que poupa no acompanhamento e tratamento de problemas de saúde mental.

Para já, o projeto, cuja primeira fase se encerra simbolicamente esta sexta-feira, com um simpósio a decorrer no Hospital Pediátrico, alcançou em Portugal o seu principal objetivo, que foi começar a certificar profissionais para este método e, até já, iniciar a formação de formadores. Um passo fundamental, de acordo com Joaquim Cerejeira, para aquele que é um dos propósitos futuros do Let’s Talk Aboute Children em Portugal, que é o projeto disseminar-se o mais possível em todo o país, chegando ao maior número possível de profissionais e, consequentemente, a cada vez mais crianças e respetivas famílias.

«Para já, ainda é cedo para percebermos os resultados, mas sabemos que a implementação generalizada do método vai identificar muito prococemente problemas que possam existir nas famílias e isso baixa o risco desses problemas continuarem no futuro», explica o psiquiatra, convicto de que, de uma forma gradual, também aqui o projeto alcance o sucesso finlandês, como prova a redução de 25% do número de referenciações de situações de saúde mental em crianças desde que o projeto foi implementado.

«É muito difícil conseguir bons resultados em saúde mental de uma pessoa se à volta dela os outros estiverem doentes», garantiu Joaquim Cerejeira, defendendo, por isso, o envolvimento de toda a família para a resolução de um problema de saúde mental de qualquer membro da família.

«A vantagem deste método é precisamente esse, que adultos e crianças são vistos em conjunto», o que «facilita a comunicação entre a própria família» e , ao mesmo tempo, «desperta todos os profissionais para a questão da saúde mental nas crianças e nas famílias»

Futuro passa por criar uma rede europeia que aposte na formação e na investigação

“Vamos falar sobre crianças - da evidência à ação” é o nome do simpósio que, esta sexta-feira, irá decorrer, a partir das 9h30, no auditório do Hospital Pediátrico de Coimbra para apresentar os resultados da implementação deste projeto em Portugal. Os números de profissionais formados e das crianças alcançadas em três anos permitem a Joaquim Cerejeira fazer um balanço positivo mas, mais do que isso, garantir que o projeto será para continuar no futuro, com o envolvimento da Universidade de Coimbra, que está apostada, conjuntamente com outros países, em criar uma rede europeia que contribua para a formação e a investigação nesta área.

«A ideia é, em consórcio com outros países, criar uma associação europeia que continue estas atividades», explicou Joaquim Cerejeira. «Nós apostamos em três níveis, o da formação, que queremos que continue com professores e profissionais de saúde, entre outros - com cursos a implementar já a partir de fevereiro -, mas também o da recolha de evidências científicas para que, já com dados em saúde, possamos medir o impacto das nossas intervenções, deste método, na saúde da população», com destaque para as crianças.

«Como podemos poupá-las em termos de diagnóstico, de tratamentos a problemas mais tardios é o objetivo. No fundo, medir melhor o impacto deste modelo na saúde e noutros fatores. A questão da investigação é relacionada com tudo isto», informou o psiquiatra, apontando a criação da rede europeia como o terceiro nível do projeto e mostrando-se confiante em resultados mais “palpáveis” do trabalho realizado ao longo do próximo ano.

Já esta sexta-feira, no simpósio que decorre ao longo do todo o dia, o objetivo é «fazer uma reflexão sobre temas relacionados» com o Let’s Talk about Children, com «testemunhos de pessoas que fizeram formação e que já tomaram contacto com este método no dia a dia, de modo a poderem partilhar a sua experiência pessoal», explica Joaquim Cerejeira, adiantando que, ao longo do dia, o evento também contará com a presença de pessoas que poderão falar sobre «evidências científicas» relacionadas com este programa, nomeadamente fatores de risco que afetam a vida das crianças e das famílias e como podem ser detetados e melhorados.

«Em termos escolares, em termos de ambiente familiar propriamente dito, como o burnout das famílias ou dos pais, por exemplo», refere o coordenador do projeto, sublinhando o momento relacionado com as normas e regulamentações europeias «alinhadas com este tipo de metodologia», com destaque para a presença da deputada europeia Marta Temido e da fundadora do método na Finlândia, Tytti Solanus, que falará sobre a implementação do projeto e sobre o impacto na saúde mental dos mais novos.

Janeiro 21, 2026 . 07:45

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